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Cultura

Crônica do Menalton

Um olhar severo

por Menalton Braff publicado 15/05/2015 04h32
O que um passarinho fêmea tem a ensinar a um ser humano
Dario Sanches / Flickr

Em outra parte desta coluna comentei quanto tenho aprendido sobre o ser humano pela observação dos animais. É incrível como todos nós, habitantes deste planeta, nos parecemos. E se alguém me acusar de ficar me repetindo, terá feito uma acusação justa, pois repetir é o que mais faço na vida. Levanto quase todas as manhãs mais ou menos à mesma hora, como no desjejum quase sempre mais ou menos as mesmas coisas, ando o mesmo tempo, mais ou menos no mesmo ritmo. Digo quase sempre com as mesmas palavras e muitas vezes repito os mesmos assuntos. E aproveito para desafiar: que atire a primeira pedra aquele que nunca se repete.

Pois bem, encarando o assunto do olhar severo e do aprendizado pela observação dos animais.

Temos aqui em casa um vaso pendurado na parede da garagem, que não é fechada, e nele plantamos duas mudas de tostão, que hoje caem em volta do vaso como uma cachoeira. Pois foi aí que o casal de coleirinhas resolveu construir seu lar.

Depois de criada a primeira dupla de filhotes do novel casal (criação em que tive certa participação, modesta, mas efetiva), eles voltaram a ocupar sua casa para repetir a ação que lhes dá continuidade. Lá estão, já, mais dois belos filhotes, com seus bicos amarelos levantados e abertos toda vez que me aproximo. E me aproximo toda vez que preciso sair de casa. Não consigo imaginar qual a semelhança entre mim e sua mãe ou seu pai para que me confundam desta maneira. Mas isso não vem ao caso, pois não quero meter-me nas idiossincrasias de meros filhotes. Nesta história quem me interessa é a própria genitora.

Ela, a mãe dos dois ocupantes do ninho, que de alguma forma posso considerar inquilinos meus, ela não pode me ver perto de sua residência que fica maluca. Considera-me, provavelmente, uma ameaça à saúde de seus filhos. Uma manhã dessas já estava enfiando a cara nos ramos de tostão quando a mãe chegou. Vi aquela sombra minúscula passar muito perto da minha cabeça. Chegou negaceando, com um voo anguloso, muito agitado e acredito que nervoso. Pousou sobre um carro, bem perto de mim, e ficou me encarando. Você já viu passarinho olhar com raiva? Pois eu vi.

Seu olhar, além de raivoso, era ameaçador. Defensor dos bons costumes, como geralmente sou, me afastei para não perturbar a família. Pois tenho a convicção de que a coleirinha fêmea ficou certa de que me espantou com um simples olhar mais severo. E não tenho o direito de discordar dela.

Quantas vezes na vida não devo ter cometido o mesmo engano.  

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