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Coletânia

Um leque bem aberto

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 01/09/2010 10h15, última modificação 02/09/2010 15h32
O colunista Antonio Luiz M.C Costa resenha o terceiro volume da coleção "Imaginários", de antologias de contos de fantasia e ficção científica, da Editora Draco

A coleção Imaginários, de antologias de contos de fantasia e ficção científica da Editora Draco ganhou um terceiro volume (128 páginas, R$ 22,90), desta vez com maior participação de autores pouco conhecidos e mesmo de primeira viagem. Nem por isso o resultado final foi ruim. A qualidade média é comparável à dos dois primeiros, nos quais a maioria dos contistas eram mais experientes e conhecidos. Dos dez contistas, só quatro haviam publicado profissionalmente: Eduardo Spohr, Ana Cristina Rodrigues, Fábio Fernandes e Douglas MCT (alguns outros publicaram em coletâneas pagas pelos autores). É um bom exemplo da diversificação de temas e estilos na literatura especulativa brasileira, que se abre num leque cada vez mais amplo de temas, estilos e públicos.

A coletânea se abre com A Torre das Almas, do jornalista Eduardo Spohr. É um exemplo de uma moda que cresce na literatura de fantasia juvenil e ameaça destronar a dos vampiros: histórias sobre anjos pouco angelicais. O primeiro romance de Spohr, A Batalha do Apocalipse, foi um dos sucessos mais comentados da Bienal do Livro de 2010, em São Paulo. Nestes dias pode ser visto em destaque em muitas grandes livrarias e em sétimo lugar na lista dos mais vendidos da revista Veja, à frente dos últimos Dan Brown e Stephenie Meyer. Entre autores brasileiros de fantasia juvenil, só André Vianco, o rei dos vampiros, teve sucesso comparável nos últimos anos. Nos dois casos, a simpatia pessoal do autor e seu esforço para promover a obra ajudaram nas vendas, mas com certeza há mais. Nenhum deles é particularmente criativo ou hábil com linguagem, mas sabem tocar alguma corda sensível do seu público.

Este conto, apresentado como “o primeiro spin-off (derivado) oficial de A Batalha do Apocalipse”, tem a típica estrutura de uma aventura de videogame ou de RPG tradicional, identificável desde as primeiras páginas: um pequeno grupo de heróis com diferentes habilidades topa com um mistério, encontra as pistas certas para o inimigo, enfrenta primeiro capangas menores e depois o terrível “chefe”, no seu reduto ao fim do labirinto.

Se fosse inspirado no jogo Dungeons & Dragons, teríamos tipicamente um guerreiro, um mago, um elfo e um anão; se a matriz fosse Vampiro: a Máscara, teríamos vampiros de diferentes “clãs. No caso deste conto, o modelo parece ser o RPG In Nomine (mais conhecido no Brasil pela versão publicada na linha GURPS, adaptada de um original francês). Neste, os personagens dos jogadores são anjos (caracterizados segundo uma interpretação peculiar das tradicionais hierarquias judaico-cristãs) que encarnam em corpos materiais sem deixar de reter capacidades especiais. Os corpos materiais não são invulneráveis, mas como bons personagens de RPG, estes têm direito a múltiplas vidas e podem retornar dentro de certas regras.

O conto obedece às mesmas regras. O grupo contém um hashmalim, “anjo da punição”, um ishim, guerreiro da “linha de frente do exército de Gabriel”, um querubim com “sentidos de predador” e uma serafim com poderes místicos para manipular a fronteira entre o mundo físico e o espiritual, conforme as explicações ao longo do texto. Esses nomes são plurais hebraicos: o hashmalim corresponde ao “domínio” da nomenclatura católica tradicional e o ishim ao “anjo” propriamente dito, o soldado raso da hierarquia angélica. Apesar da previsibilidade do esquema geral, as soluções particulares são suficientemente engenhosas para manter o interesse.

O atrativo para seu público está provavelmente na convergência (dentro da estrutura familiar dos games de aventura) do imaginário moderno da ação hollywoodiana com o de uma cultura religiosa tradicional ainda bem presente: encontram-se aqui céus, infernos e almas penadas, numa concepção pouco ortodoxa, mas não inteiramente estranha ao imaginário difuso do catolicismo popular brasileiro.

Por fantásticos que pareçam à primeira vista, o ambiente e a ação são familiares e a assimilação é fácil. Mesmo se, a julgar pela amostra, este autor se permite frases mais intrincadas e palavras menos comuns que, digamos, André Vianco, e personagens mais distantes dos gostos, sentimentos, inseguranças e hábitos de leitores adolescentes. Os anjos de Spohr parecem alheios à cultura pop e são objetivos e eficientes como um pelotão de fuzileiros de cinema. Funciona, enquanto a escrita for razoavelmente ágil, a narrativa consistente e os detalhes inesperados.

Segue-se a esse conto linear e de leitura fácil outro que é o seu exato contrário. O Breve relato da ascensão do papa Alexandre IX, do também jornalista Marcelo Assami, é o mais complexo e intrigante da coletânea. Isto não tem nada de semelhante a jogar um game: é muito mais como decifrar um problema de palavras cruzadas dos mais difíceis, que exige conhecimentos sobre literatura do século XX (a começar por escritoras brasileiras), papas do século XV e XVI e libertinos do século XVIII, pelo menos, numa sequência nada linear de ações e eventos, cheia de saltos inesperados de tempo e ponto de vista e intrincados jogos de palavras. É preciso ler pelo menos duas vezes a história para captar a maior parte de suas ironias. Um prazer de outro tipo, bem construído e adequado como entretenimento – mas para um público bem reduzido.

As Noivas Brancas, do publicitário Rober Pinheiro, é um típico conto de ficção científica à moda das revistas pulp estadunidenses dos anos 1940, com direito a tiroteios com armas de raios, muita violência e mulheres (ou coisa parecida) bonitas e indefesas. Não inova no tema, nem no enredo – um anti-herói interestelar, líder de uma equipe de alienígenas estrambóticos, disputa um carregamento com uma quadrilha rival – mas vale pelos pormenores criativos e pela linguagem, atitude e ponto de vista do protagonista, verossímeis a ponto de tornar convincentes as cenas mais estranhas e improváveis.

Bonifrate, de Douglas MCT, roteirista de quadrinhos, desenhos e cinema, é uma interessante releitura de um conhecido clássico infanto-juvenil italiano dentro da linguagem e sensibilidade do New Weird – um novo subgênero da fantasia, tipificado pelo romance Perdido Street Station do britânico China Miéville, que incorpora elementos de realismo social urbano, ficção científica e muitas vezes (como neste caso) tecnologia e estética do século XIX ou steampunk. Também se ouvem ecos das batalhas metafísicas da trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. O conto é sensível sem ser piegas e tira inspiração de um livro para crianças sem ser pueril. Deixa a desejar em detalhes, como a reviravolta forçada do epílogo, que exige demais da suspensão de descrença do leitor. Também ficaram sobrando certas alusões a notícias de época e personagens de ficção, que pendem como pontas soltas que não ajudam a avançar a trama ou caracterizar o cenário.

Dies Irae, da estudante de comunicação Lídia Zuin, é um episódio de ficção científica cyberpunk, em um futuro tão próximo e plausível que se torna praticamente realismo urbano: uma hacker divulga snuffs – filmes que retratam violência sádica e assassinatos reais – produzidos por uma gangue que passa a caçá-la impiedosamente. O estilo é seco, forte e eficiente e a linguagem é inteiramente adequada: um achado, e vindo de uma autora muito jovem em sua primeira publicação. A maior restrição a fazer é a falta de um fechamento mais satisfatório. Mais fragmento de romance do que conto, o texto não foca especificamente uma ideia ou incidente, mas aponta para uma trama e uma personagem demasiado complexas e interessantes para serem satisfatoriamente desenvolvidas dentro de seus limites.

De Marcelo Augusto Galvão, Vida e morte do último astro pornô da Terra, é uma peça eficaz de humor negro e retrofuturismo – quer dizer, um cenário baseado em um futuro do pretérito. Uma possibilidade histórica ou tecnológica que não se realizou, mesmo se foi imaginada em algum momento do passado. Neste caso, que 1) andróides biológicos, ou “biôs”, de aparência e comportamento passavelmente humanos tivessem sido inventados nos anos 70, como chegaram a imaginar muitos autores de ficção científica (a começar pelo próprio inventor da palavra “robô”, Karel Capek, numa peça escrita em 1921 e ambientada nos anos 50 ou 60) e 2) usados como autores de filmes pornô, desempregando os atores humanos.

A história é escrita do ponto de vista de um pornófilo nostálgico, que se lembra com carinho do tempo em que a pornografia produzia “roteiros e atuações convincentes” (como os de Garganta Profunda e O Diabo na Carne de Miss Jones...) e narra a revolta – em parte luddita, em parte humanamente justa – do último ator masculino humano do gênero ao ser pressionado a ontracenar com um pornobiô em uma cena que contrariava seus princípios. Uma ótima piada e, ao mesmo tempo, uma sátira inteligente da lógica das questões sociais ligadas ao desemprego tecnológico e, ao mesmo tempo, indústria do entretenimento, da pornografia e da crítica.

Corre, João, corre, de Cirilo Lemos, é, sem favor nenhum, o texto mais humano e comovente da coletânea, sem deixar de ser fantástico – e o mais poético, sem deixar de ser realista. É o amor ou a culpa que leva o pai tolo, fraco e inerme à loucura pela culpa ao ver o filho bebê nas garras da Morte? Ou talvez ele realmente veja espíritos? Ambas as interpretações são possíveis, mas em qualquer delas, é uma história muito bem construída, que comunica emoções intensas sem cair na pieguice ou na banalidade. Concentra mais emoção e conteúdo nesse conto, e o faz com mais gosto e elegância, do que escritores experientes e bem vendidos – como, digamos, André Vianco em O Caminho do Poço das Lágrimas – precisaram de um romance para tentar transmitir.

Por outro lado, Uma segunda opinião, de Fernando Santos de Oliveira, é seguramente o conto mais fraco da coletânea. Uma menina é conduzida pelo ciúme e pela inveja a ações cada vez mais malvadas, aconselhadas por uma garota misteriosa que encontra ao procurar um livro numa biblioteca (um lugar perigosamente sedutor, cheio de maus conselheiros, deve-se supor) e faz as vezes de porta-voz de Satanás (e dos clichês da literatura de autoajuda, que podem ser ainda piores). Parece uma dessas histórias de terror moralista que o cinema dos EUA produz em série para tentar educar plateias adolescentes nos princípios puritanos, mas contada de maneira tão entediante que sufoca até o humor involuntário que às vezes essas produções conseguem proporcionar.

Maria e a Fada, da historiadora Ana Cristina Rodrigues, é um belo conto, de sentimentos sutis e discretos. Uma família aristocrática – que realmente existiu e foi muito importante na Idade Média e início da Moderna – ensina às novas gerações as tradições sobre suas origens lendárias, ou (no conto) não tão lendárias. O que atrapalha um pouco a narrativa é a tentativa de alternar a objetividade fria da historiadora que explica o contexto político e histórico com o ponto de vista mágico e envolvente dos remanescentes da casa de Borgonha, que enfrentam pacientemente a decadência e os infortúnios enquanto tentam dar felicidade e transmitir o orgulho pela linhagem às suas meninas.

Dada a delicadeza e fragilidade dos sentimentos em jogo, talvez funcionasse melhor como ficção história se o lado histórico fosse dispensado – deixando ao leitor curioso o trabalho de pesquisar o lado real da narrativa – ou, caso não se queira abrir mão de transmitir a informação de caráter didático, que ela fosse concentrada numa introdução inicial ou num epílogo final. Autores e leitores contemporâneos (ao contrário dos clássicos do século XIX e início do XX) tendem a torcer o nariz ante a concentração de informação, pejorativamente apelidada de infodumping, por ser tediosa para leitores ávidos por ação e movimento, mas neste caso talvez fosse a melhor solução.

O Primmeiro Contacto, do professor de comunicação Fábio Fernandes, é um outro tipo de retrofuturismo: neste caso, tentou-se emular como um brasileiro poderia ter escrito uma space opera em 1929, usando o estilo, a ciência popular e a orthographia da época – façanha que deu um bocado de trabalho aos revisores, diga-se de passagem. Várias personalidades reais da época, inclusive Henry Ford, Alberto Santos-Dumont, Howard Hughes, Amelia Earhart, Anésia Pinheiro Machado, Edmond Hamilton e Fernando Pessoa, envolvem-se numa missão a outro sistema solar e numa batalha épica com invasores alienígenas. A linguagem e as concepções científicas implícitas no conto são, na opinião deste resenhista, demasiado ingênuas mesmo para os anos 20 – por exemplo, uma mensagem de rádio é transmitida instantaneamente de Alfa Centauri para a Terra, ignorando as limitações da velocidade da luz (embora, por outro lado, a história esteja consciente da teoria da relatividade, ignorada pela maioria dos autores de FC reais da época). Como o conto de Marcelo Assami, é um conto curioso e cheio de alusões para poucos – neste caso aqueles que, além de apaixonados pela história da ficção científica, tenham a paciência de enfrentar os ff, mm, th e ph de nossos avós. Estes, certamente, jamais voltarão a reclamar das reformas ortográficas.