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Um herói classe média

por Orlando Margarido — publicado 12/10/2010 15h05, última modificação 12/10/2010 15h05
Em Tropa de Elite 2, José Padilha investe apenas nas certezas de seu público

Em Tropa de Elite 2, José Padilha investe apenas nas certezas de seu público

Se uma das perspectivas atuais para a aceitação popular de um filme vem das ruas, na forma da pirataria, o primeiro Tropa de Elite consagrou-se, como se sabe, exemplarmente nesse contexto. Três anos depois, prevista a mesma trajetória, a sequência da trilogia pretendida por José Padilha tomou antes para si uma tarefa mais homérica do que a do Capitão Nascimento, por ironia levada a fim pelo modelo real deste. Foi Rodrigo Pimentel, ex-combatente do Bope e autor do livro original, quem organizou toda a segurança necessária às matrizes em película para que não fossem parar em mãos reprodutoras, como aconteceu ao trabalho anterior.

Outros cuidados foram tomados, como numerar cada rolo e dispensar, por enquanto, o formato digital. Sabedor da vocação de representante de um projeto cinematográfico nacional que se pretende ao mesmo tempo respeitado e aguerrido no mercado, o diretor tratou ainda com mais dedos seu Tropa de Elite 2. A exibição em público pela primeira vez ocorreu apenas três dias antes da estreia oficial, na sexta-feira 8, a seguros 128 quilômetros de uma metrópole perniciosa como São Paulo. Paulínia, polo de geração de cinema mais ativo no momento, foi escolhida por auxiliar na distribuição da fita. Um momento estelar, com direito a tapete vermelho, imprensa requisitada em longa espera no teatro lotado de 1,3 mil lugares e acolhida entusiasmada, simbólica do que está por vir.

Curioso que todo esse aparato de cautela com o destino vulgar do filme pode ser levado para dentro dele, ou seja, no que concerne a seu partido moral e artístico. Se Padilha teme tanto pela repetição “traumática” da pirataria, na referência do ator Wagner Moura em conversa com os jornalistas, que lhe foi infernal em 2007, agora ele parece temer ainda mais a perda daquela vultosa parcela da audiência entregue aos desmandos do Capitão Nascimento, e com ele vibrando. Por isso talvez tenha trocado certo risco mal calculado no que se refere a situações éticas e valores pessoais expressos por seu protagonista, e que valeram ao filme interessante debate e a pecha de fascista, por uma bem definida orientação sobre quem ou qual instituição é merecedora agora de sua artilharia. Enfim, escolado, na companhia de seu roteirista Bráulio Mantovani, Padilha sinaliza sem muita surpresa que o inferno continua sendo os outros, seja o vendedor ambulante que insiste em burlar o esquema de proteção, seja o Estado corrupto e falido a gerar a polícia que merece. Como atenta o subtítulo do filme, o inimigo agora é outro.

Nesse universo em que ninguém parece em paz, faz-se necessário um herói e o diretor o esboçava em figurino menos acabado anteriormente. Seu Nascimento, agora coronel, separado da mulher (Maria Ribeiro), distante do filho (Pedro Van-Held), que quer reconquistar, mas ainda interpretado por Moura, ressurge como um engravatado afastado da chefia de sua brigada e cheio de juízos e credos reconfortantes a uma classe média atemorizada pelos jornais. Reitera, assim, muitas das certezas e poucas dúvidas de Padilha, como notou alguém ao final da exibição na terça-feira 5, nas costumeiras análises do realizador sobre o panorama criminal carioca ao vivo ou transpostas para o filme. Ainda que não se configure um alter ego, este Nascimento com alinhado uniforme da alta administração policial tende a demonstrar a mesma postura controlada e segura dos que, como Padilha, deixaram para trás o imprevisto, o direito ao desatino e o destemor em errar. Mesmo que fossem essas atitudes louváveis ou condenáveis, pressuposto sobre o qual o primeiro filme ao menos tentava se equilibrar.

Assim, não há nuance e ambiguidade a serem exploradas em Tropa de Elite 2. O maior exemplo é o caso estopim da trama, um disparo não autorizado pelo coronel ao seu subordinado Mathias (André Ramiro), que encara com metralhadora o líder de uma revolta na penitenciária, enquanto este tem a posse de um defensor dos direitos humanos, Fraga (Irandhir Santos). O soldado é afastado e preso, Nascimento perde seu posto, e o refém torna-se célebre e candidato a vaga na Câmara Estadual, conferindo ao resto da história a rivalidade banal entre a noção truculenta e dita “de direita” e a face amena e de justiça igualitária alinhada mais à esquerda. Num gesto definitivo da sua intenção em buscar a anuência da plateia, Padilha fará as partes contrárias se tocarem ao final, não para arrancar faíscas, mas sim retidão. Sintomático que não tenha sido nesse momento a maior reação entusiástica da plateia em Paulínia, e sim naquele em que o coronel esmurra quase à morte um colaborador direto do governador, a essa altura já espelhando um mandato que tenta se esquivar de escândalos, mandando para a fogueira os próprios aliados.

Há, claro, um miolo entre esses polos principais que municia o filme com seu quinhão imediatista de divertir na ação destemperada, horrorizar ou chocar com violência explícita. Tal é levado a um paroxismo mais pertinente a gêneros como o western americano, com o qual se sugere um flerte no sentido do território deixado a esmo, sem leis ou regido a partir de uma situação de ilegalidade. Mas, se aquele é um cinema que se vende idealizado, não cabe, portanto, a uma condição que se pretende realista. Tanto mais que esse recheio, representado, por exemplo, pelo policial bárbaro e chefe de gangue (Sandro Rocha) ou a jornalista investigativa (Tainá Müller), apenas aguça a fragilidade dramática e a sensação de diálogo facilitador com o público.

Padilha defende-se e alega uma lealdade com os espectadores que inflaram a bilheteria de seu primeiro sucesso e que agora esperam encontrar outra face da corrupção, diferente daquela interna ao mundo dos combatentes do Bope. A falência de um Estado provedor de segurança e bem-estar, segundo ele, foi aos poucos se evidenciando pelos acontecimentos expostos na mídia e daí inspiradores de muitos momentos do filme. Não os assume como fatos e figuras reais específicas, mas lembra a negociação entre Fernandinho Beira-Mar e um defensor dos direitos humanos num enfrentamento na penitenciária de Bangu que lhe serve agora. O diretor espera contar no terceiro filme o resultado do questionamento a essa situação pelo Nascimento agora imbuído de heroísmo moral. O personagem continuará a ter suas certezas e a demonstrá-las na tela. Esta é uma das poucas dúvidas que o público seguidor por enquanto não precisa levantar.