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Cultura

Crônica do Menalton

Manuel Antônio de Almeida: um caso raro

por Menalton Braff publicado 13/01/2014 11h53, última modificação 13/01/2014 12h02
A importância de sua obra está em seu caráter inovador. Ele fez mais do que um "romance picaresco"
Manuel Antônio de Almeida

O escritor Manuel Antônio de Almeida

Não é todo dia que alguém escreve um único romance e consegue ser canonizado, como se diz no meio literário, ou melhor, entrar para a história. Claro, há casos como o de Guimarães Rosa, que escreveu apenas Grande Sertão: Veredas, representando o gênero romance, contudo é autor de uma alentada produção de contos e novelas. Raul Pompeia, outro caso raro, teve, além de O Ateneu, Uma tragédia no Amazonas. Escapou por pouco do romance único.

Manuel Antônio de Almeida, nosso caso raro, órfão de um tenente, mãe pobre, começou a trabalhar muito cedo e, ainda assim, conseguiu o diploma de médico. Mas sua paixão já se havia estabelecido: o jornalismo. Jamais exerceu a profissão para a qual havia estudado. No Brasil da época, havia um curso de Direito em São Paulo, outro em Recife, um curso de Medicina no Rio e a Escola Politécnica (Faculdade de Engenharia Naval). As vocações tiveram de esperar mais de meio século para serem realizadas.

Pois o Manuel Antônio de Almeida, além de crônicas e artigos para jornais, publicou na Pacotilha, suplemento do Correio Mercantil. Estamos falando de meados do século XIX. E foi nesse suplemento que publicou Memórias de um sargento de milícias, obra com que passaria à história da literatura brasileira.

A importância da obra está em seu caráter inovador, pelo menos para nossa literatura. Romance picaresco? O professor Antonio Candido discorda de tal classificação, preferindo apontá-lo como o primeiro romance de malandragem do Rio de Janeiro. Há ingredientes do personagem pícaro que não residem em Leonardo, o protagonista. Mas são diferenças sutis, que não cabe aqui discutir.

Na história da literatura picaresca, encontramos, talvez, em primeiro lugar o Lazarillo de Tormes, de 1554, e de autoria desconhecida. De 1749 nos vem outro romance com características idênticas: Tom Jones, de Henry Fielding. Não se esgotam por aí os romances picarescos, evidentemente, mas os citamos como exemplares da categoria,

Muitos estudiosos e historiadores da literatura brasileira gostam de aproximar o Memórias do Realismo, arremessando-o para o futuro. Podemos fazer o mesmo, e creio que com maior propriedade, encontrado suas ligações com o passado. Lembro-me de uma afirmação do professor Boris Schnaiderman, da USP, sobre a designação de Realismo para um estilo de época, designação que ele achava inadequada. Ao concordarmos com o ilustre professor, devemos fazer a ressalva de que o Realismo, como estética literária definida, não pode ser entendido como elementos de realidade, que atravessa todas as estéticas.

Mas voltemos ao Manuel Antônio de Almeida. A nós nos parece que sua intenção não estava em ser precursor do Realismo, cujo ideário ainda não era cogitado entre nós. Em nosso opinião, ele quis, isso sim, ironizar os excessos do Romantismo, valendo-se para tanto de uma tradição picaresca. Era comum que os romances fossem publicados em folhetins de jornais. O que não era tão comum assim, era a publicação sob pseudônimo. Alguns anos mais tarde, quando saiu a obra em livro, é que o autor se denunciou.

E entrou para a história.