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Cultura

Crônica do Menalton

Um brinquedo

por Menalton Braff publicado 06/08/2015 14h15
Se é perigoso, não deve estar em mãos inábeis
Wikimedia Commons

Quem aqui é idiota a ponto de falar mal de brincadeira de criança? Esse é um direito universal que ninguém pode contestar. Sobretudo agora, nestes tempos em que o lúdico vai assumindo o estatuto de categoria superior entre as atividades do ser humano.

Outro dia uma presumível criança (apenas presumível, sim, porque tenho visto muito marmanjo fazendo o mesmo) empinava sossegada seu papagaio nas proximidades de uma avenida aqui perto de casa. Papagaio, pipa, pandorga, rabiola, quadrado, sei lá, empinava um desses poéticos seres voadores que se prendem a um barbante muito comprido.

E digo sossegada porque quem empina papagaio tem a vocação das alturas, está simbolicamente abandonando a terra, com todas as suas mazelas, para habitar, pelo menos por instantes, o espaço celeste. Um verdadeiro nefelibata. O vento brando e constante era propício, o céu azul com pequenas manchas brancas convidava ao voo.

Pois não é que um motoqueiro, na sua abominável condição de trabalhador (fiquei sabendo que entregava marmita), passa pela estrada e tenta estragar o brinquedo do meu presumível menino? E com o próprio pescoço.

Bem, mas o motoqueiro levou a pior, porque o barbante estava devidamente protegido com cerol. Você sabe o que é cerol? É uma pasta a que se acrescenta vidro moído justamente para cortar pescoço de motoqueiros que queiram estragar o brinquedo dos meninos, ou, eventualmente, cortar a linha de alguma outra criança que esteja com o mesmo desejo de voar.

Meu amigo Adamastor, que, como vocês sabem, é um homem sempre atento às questões de sua cidade, transbordando sempre de sua moral de gigante, antiesportivamente veio até mim perguntando se a polícia não tinha tomado nenhuma providência, porque o motoqueiro já passara por uma cirurgia muito delicada e não estava com a vida muito segura.

Para o Adamastor, gigante nas horas de folga e no poema de Camões, a impunidade é que incentiva atos ilícitos. Tentei acalmar meu compadre, dizendo que não era direito acabar assim a brincadeira das crianças. Portanto, os motoqueiros deveriam tomar mais cuidado. Não houve jeito. Ele queria por todo custo que o pai do menino fosse preso. Se é perigoso, ele repetia transtornado, não deve estar em mãos inábeis.

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