Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Um bom mineiro

Cultura

Protagonista

Um bom mineiro

por Alexandre Freitas — publicado 01/02/2011 16h46, última modificação 02/02/2011 12h51
Condecorado com o título francês de Cavaleiro da Legião de Honra, o pianista Nelson Freire está no auge da experiência estética. Por Alexandre Freitas
Um bom mineiro

Condecorado com o título francês de Cavaleiro da Legião de Honra, o pianista Nelson Freire está no auge da experiência estética. Por Alexandre Freitas. Foto: Paulo Giandalia/AE

Condecorado com o título francês de Cavaleiro da Legião de Honra, o pianista
Nelson Freire está no auge da experiência estética

Os primeiros acordes não eram de Brahms, como dizia o programa. Para não cancelar a apresentação, a Filarmônica de São Petersburgo, do maestro Yuri Temirkanov, aceitou a proposta de Nelson Freire – solista daquela noite – de alterar o roteiro. Tocaram o Concerto para Piano e Orquestra de Robert Schumann. “Um repertório não é um guarda-roupa, onde você tira cada obra pronta para usar”, disse o pianista em uma tarde cinzenta do inverno parisiense. As temporadas dos grandes teatros são previstas com grande antecedência e, por isso, nem sempre estão em sincronia com o momento em que vive o artista.

Nas noites de 14 e 15 de janeiro, o Théâtre des Champs Elysées, lotado, recebia o ilustre músico brasileiro, que, dias antes, fora surpreendido com a distinção de Cavaleiro da Legião de Honra, criação de Napoleão para homenagear aqueles que fertilizam a République com suas obras. “Tocar na França é como tocar no Brasil para mim. Sinto-me em casa. Estranho. São lugares tão, mas tão diferentes”, comenta, sorridente. Condecorações, prêmios da indústria fonográfica, convites de concertos, participação em grandes festivais, nada disso faltou nessas décadas de atuação no cenário francês. “Sei lá. Acho que os franceses gostam muito de mim. Sabe... Com o passar do tempo, tenho gostado muito de ser gostado”, mais um sorriso.

Sonoridade bem cuidada, inteligência interpretativa, domínio técnico do instrumento, musicalidade extrema. Todos os atributos são válidos, mas incapazes de revelar o alcance da experiência estética quando se está na presença da música e do piano de Freire. Talvez por isso no documentário de João Moreira Salles (Nelson Freire, 2002), existem tantos silêncios – sempre preenchidos com música. Um desses silêncios instaurou-se na plateia do teatro francês. Fica uma sensação de suspensão do tempo que contradiz o próprio espírito da música, submissa à sucessão das notas e seus timbres. “Sou muito apegado ao som, seu colorido e tudo o que vem junto”, diz. Uma afirmação aparentemente banal, mas que faz todo sentido para alguém que já tenha assistido a um de seus concertos e recitais ou escutado um de seus discos. Com vigor e naturalidade ele controla cada som. Esse é o seu forte.

Nelson saiu de Boa Esperança, Minas Gerais, aos 5 anos de idade e foi para o Rio de Janeiro. De lá partiu aos 14, sozinho, para viver em Viena, na Áustria. Depois, concursos, recitais, concertos, viagens. Há algumas décadas, o pianista parece não ficar mais de uma semana em um só lugar. Tem um lar na sua cidade preferida, o Rio, e outro na França. Diríamos facilmente: “É um cidadão do mundo”. Em uma visita à sua casa, em Paris, fica difícil, porém, não vê-lo como um bom mineiro, com sua timidez e voz mansa. Seu lar é tão acolhedor quanto ele mesmo, mas não tão econômico na decoração quanto ele o é com as palavras. Retratos de juventude, de família e com a grande amiga, a pianista Martha Argerich, se espalham pela casa luminosa. Nas paredes, quadros de tons quentes. Um simpático e obeso gato marrom passeia sobre os móveis. Sua casa é cercada de prédios, entre o rio Sena e a Avenida Champs­Elysées.

Para não incomodar os vizinhos, nada melhor que uma casa. Em Viena, na juventude, foi expulso uma dezena de vezes por conta dos ensaios incessantes. Não precisa mais passar por isso.

Difícil entrevistá-lo. A cada pergunta além do trivial, Nelson hesita, sua voz vira um murmúrio e a resposta fica meio vaga. É como se quiséssemos invadir seu espaço secreto, aquele lugar que todos temos, mas cujo acesso, para alguns, é mais complicado que para outros. Muitas vezes, suas­ considerações têm sentidos tão vastos e ao mesmo tempo são tão curtas que só parecem ser compreensíveis quando associadas à sua obra. Para Freire não há separação entre música e vida.

Ao falar da infância, diz lembrar-se muito bem da sensação que teve ao pisar no palco pela primeira vez, aos 4 anos de idade, em um cinema de sua Boa Esperança. Não sabia muito bem o que era aquilo tudo, só sabia que havia algo sério por fazer. Não era uma coisa qualquer. Já sentia o gosto da “profissão de risco”. “Quando estou no palco não vejo nada e, além do mais, sou míope. Não penso em nada além da música. Porque se eu pensar em todas aquelas pessoas que me veem, nas suas expectativas, no fato de não poder retocar nada...”, e interrompe a frase.

A música o consome. Há algumas semanas, Nelson foi à “copa do mundo” da Polônia. Isto é, foi júri de um dos mais importantes concursos de piano, o Chopin de Varsóvia. “A cidade para. Tudo gira em torno dessa competição. Você senta no banco da praça, aperta um botão e aí começa a tocar uma gravação de um noturno ou uma mazurca de Chopin.” Em alguns meses estará entre os jurados do concurso Tchaikovski de Moscou. Não é uma das atividades que ele prefere. “Mas, de vez em quando, pode ser bem interessante ver tantos e tão talentosos jovens”, diz.

Nesta semana, é Franz Liszt que o devora e é devorado. Ao compositor húngaro, Nelson dedica seu próximo CD, que terá como título Harmonies du Soir (Harmonias da Noite). Ele comenta que é a primeira vez que uma gravação sua recebe um título mais específico, e isso acontece graças a uma unidade, a um “colorido comum” no repertório. Alguns dos Estudos Transcendentais e Rapsódias Húngaras, a Segunda Balada, as Valsas Esquecidas e o Soneto de Petrarca que ocupam os dias e pensamentos do pianista. De vez em quando, uma pausa para arejar. Bach e Bartók. Depois, de volta à vaca-fria: Liszt, com toda a sua profundidade filosófica, às vezes escondida no furor do virtuosismo de sua escrita.

A gravação seguinte será, talvez, dedicada à música brasileira de nomes como Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, e Villa-Lobos. “Com exceção do último, esses compositores são completamente desconhecidos fora do Brasil. Mesmo Villa-Lobos tem o nome conhecido, mas não a obra”, comenta o pianista. Talvez na terra natal não seja muito diferente. De qualquer maneira, a vontade de fazer uma gravação de música brasileira é grande e sua gravadora europeia está aberta à ideia.

O futuro e a crise da indústria fonográfica não estão entre as preocupações de Freire. “Não sei. Não acompanho muito essas coisas. Tenho outras coisas para me preocupar”, diz, lançando o olhar ao piano de cauda e às muitas partituras ao redor. Devem ter-lhe vindo à mente as dezenas de passagens técnicas dificílimas de Liszt, a utopia da sonoridade imaginada e, talvez, as expectativas do empresário e do público. A grande parte das peças que compõem o repertório foi tocada e gravada por “monstros” do piano que estabeleceram fortes referências.

É preciso dizer algo novo. Abalar o interior de obras que, depois de muitas décadas de admiração e de louvores, ficaram quase cristalizadas. Para alcançar tal meta, só com o difícil equilíbrio entre uma genialidade rara e um trabalho árduo, transpiração e inspiração. Ele tem o perfil, diria um funcionário de recursos humanos.

Sobre o atual cenário da música clássica no Brasil, Nelson diz apenas que “já esteve pior”. Época boa mesmo foram os anos 20 e 30. Quando morou no Rio, no princípio da década de 1950, também não era nada mal. Ele acha que a belle époque do piano no Brasil já passou e que os jovens e promissores são cada vez mais raros. “Adoro o Brasil”, diz, subitamente.

Talvez tenha se sentido um pouco culpado pelos nostálgicos comentários. Em seguida, faz elogios à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, com a qual se apresentou no ano passado, e conta, com olhos brilhantes, que vai participar do próximo festival de Campos do Jordão. Para 2011 vislumbra ainda uma turnê com a Orquestra Sinfônica de Sergipe.

Após cerca de 45 minutos de conversa, fica clara uma certa desconexão entre o pianista e o mundo que o cerca. Nelson Freire parece habitar um lugar especial, que deve julgar necessário para o cultivo do som que produz e que tanto preza. Parafraseando Carlos Drummond de Andrade, Freire parece nos convidar a “penetrar surdamente no reino dos sons”. E nos acolhe calorosamente, como todo bom mineiro.