Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Um artista de família

Cultura

Protagonista

Um artista de família

por Orlando Margarido — publicado 01/09/2011 14h30, última modificação 05/09/2011 19h07
De novo diretor, Reginaldo Faria reencontra as referências que o levaram a ser um intérprete vigoroso do cinema e da televisão

O açougue dos Faria não fez só alimentar a pequena comunidade de Nova Friburgo nos anos 40 e 50. Ao cinema brasileiro legou uma noção de disciplina, trabalho e esforço conjunto que se revelaria em um dos clãs mais influentes do meio. “A colaboração começou ali, no comércio do nosso pai, quando nós, os filhos, saíamos para fazer as entregas de bicicleta”, lembra Reginaldo Faria, a face mais exposta da família por ter se tornado o galã das telenovelas e protagonista preferido do irmão cineasta e produtor Roberto Farias. Foi em boa parte por essa afinidade, lograda em parcerias prestigiadas como Assalto ao Trem Pagador, que ele se tornou também diretor de sucesso. Um ofício em que não se exercitava havia quase três décadas e ao qual retorna agora, aos 74 anos, com O Carteiro. Se não se pode dizer que a comédia romântica e de humor ingênuo resgata a boa mão do realizador no gênero um dia avalizada por picos de público, como aconteceu em 1971 com Os Paqueras, ao menos autoriza a uma revisão de momentos significativos de sua trajetória artística.

A história escrita por Reginaldo sobre o jovem carteiro apaixonado que viola as correspondências da amada estreou no recente 39º Festival de Gramado, evento que o premiou algumas vezes e traz evidências de sua memória pessoal e de seu gosto cinematográfico. O cenário do filme é uma vila encravada no Vale do Vêneto gaúcho, onde o mundo virtual ainda não deu as caras aos missivistas. O tom anacrônico, que o diretor prefere assinalar como atemporal, é reforçado pelas bicicletas do carteiro e seu -melhor -amigo, -referência ao Vittorio De Sica, que lhe é tão caro. Mas se Ladrões de Bicicleta ocupa- o seu imaginário desde as matinês no Cine Teatro Leal, juntamente com Flash Gordon e John Ford, também aí está uma característica marcante desde o início da carreira. “Para mim, cinema, de início, foi trabalho físico, carregar cenários, tripés, chassis”, diz. “Foi assim que comecei, depois de acordar às 4 da manhã para destrinchar boi, entregar carne, e antes de me tornar ator por acaso.” Talvez seja essa a motivação da crítica ao filme. A partir do pensamento do diretor, convocam-se o exagero de gestual, o excesso de corre-corre e a repetição de atos, recursos típicos de uma tradição chanchadeira que, aliás, igualmente se encontra na biografia do ator e diretor.

Quando denota o esforço braçal, Reginaldo está se referindo aos primeiros tempos no Rio de Janeiro, momento em que foi encontrar o irmão Roberto nos estúdios da Atlântida. Ele foi o terceiro Faria a descer a serra fluminense para ganhar a vida, logo depois de Rivanildes, o Riva, e antes de Rogério. Para ambos, sempre envolvidos na produção de filmes, como para Reginaldo, o cinema era destino natural. Ainda que a sobrevivência o obrigasse a uma escala como bancário, o jovem chegava com uma bagagem teórica fornecida por um ocupante inesperado da sobreloja do açougue. Era Adacto Filho, ou Artur Pereira de Melo, cantor lírico, diretor e dramaturgo então aposentado que fundara a companhia Os Comediantes. Ele iniciou o entregador na arte da interpretação e nas obras do teatro, de Shakespeare- a Nelson Rodrigues, que adaptou com frequência. “Ao mesmo tempo, eu já tinha lá minhas brincadeiras de atuar, de imitar, eu buscava algo sem saber o quê. Tanto que o Watson Macedo me convidou ainda muito garoto para atuar num projeto que não deu certo”, aponta, referindo-se a um dos principais nomes da Atlântida.

Mas a experiência das aulas informais não foi válida de imediato, pois Roberto o convocou para assistente de câmera em sua estreia como diretor com Rico Ri à Toa, em 1957. A chance do acaso apareceu no filme seguinte de Farias, No Mundo da Lua, quando o cantor Aldair Soares, que seria galã na comédia, sumiu e Reginaldo foi preparado a contragosto como substituto. “Fui tremendo para as filmagens.” Tanto assim que seu personagem, um imigrante nordestino, não falseia quando parece fraquejar ao descer do pau de arara recém-chegado ao Rio de Janeiro. As pernas, no entanto, não bambeariam mais de medo a partir dos trabalhos seguintes, de preferência naqueles com o apoio do irmão. “Roberto foi meu mestre, conselheiro, mesmo antes de existir Stanislavski na minha vida.”

Um capricho talvez para redimir uma antiga frustração levaria Reginaldo a trabalhar com Watson Macedo em Aguenta o Rojão antes de inaugurar, em 1959, a bem-sucedida série de filmes com o irmão, começando por Cidade Ameaçada. No limite do declínio da chanchada, Farias surgiu com esse policial de fonte verídica-, que em parte preconizava suas- intenções quanto a um ideal de cinema, autoral e mais artesanal, sem perder de vista o público, isso em tempos de Cinema Novo. A história do bandido Promessinha e seu bando levaria os Faria ao primeiro reconhecimento internacional, com uma indicação para o Festival de Cannes. “Foi o filme que me elevou ao status verdadeiramente de ator.”

Esse acerto entre noção de corpo e espaço, atrelado ao entendimento teórico das aulas de Adacto Filho e o intuitivo que começava a surgir, tornou-se mais evidente na composição de Grilo Peru de Assalto ao Trem Pagador, de 1962. Na segunda empreitada de Farias sobre um caso real, o roubo de grande repercussão à época de um trem pagador da Central do Brasil ocorrido dois anos antes, o personagem de Reginaldo incumbe-se como mentor- de convencer um grupo a executar- o crime. Entre miseráveis, homens negros da favela, ele é o diverso e se vê como tal no direito de trair os colegas ao gastar a sua parte de dinheiro roubado. Com um elenco excepcional, despontando Eliezer Gomes, Helena Ignez e Grande Otelo, entre outros, o filme passou à memória referencial do cinema brasileiro, ainda perceptível como influência, por exemplo, -no recente- Assalto ao Banco Central.

Reginaldo não vê nas parcerias desse ciclo inicial com o irmão, que se fecharia com Selva Trágica, em 1964, algo além de disciplina e esforço de dedicação, traço de toda a família. Não foi com outra expectativa, a de exercer seu trabalho de modo profissional, que chegou ao set de Porto das Caixas, de Paulo César Saraceni. Seria sua única, e desconfortável, incursão no terreno do Cinema Novo. “Ali se privilegiava a estética, buscava-se a fotografia. Saraceni não dirigia os atores, ele os deixava propositadamente inseguros, e isso se via na tela.” Também não se sentia politizado para tratar com figuras e o universo daquele novo meio. “Eu era um rapaz alienado, e isso não pegava bem naquele período.” Talvez por isso seu feitio de jovem galã tenha servido na medida para personagens como o funcionário que procura tirar proveito de uma garota ingênua e, ao mesmo tempo, de outra rica, em Lance Maior, a estreia de Sylvio Back, em 1968.

Mas nada justificava, para ele, o patrulhamento de que diz ter sido vítima quando foi para trás da câmera inaugurar as comédias urbanas descompromissadas sobre playboys de Copacabana. Seu Os Paqueras, afirma, fez 4 milhões de espectadores e só perdeu na bilheteria para o primeiro filme da série James Bond, numa coincidência que não deixa de ser engraçada. Rendeu-lhe também uma incômoda pecha de “pai da pornochanchada”, quando projetos de outros diretores começaram a surgir na esteira do sucesso, mas apostando- no apelo do sexo que o primeiro não tem. “Desvirtua-ram meu filme, que tem erotismo, para fazer pornografia”, sustenta.

A essa altura, Reginaldo já contava com a fama das telenovelas, que lhe deu tipos de empatia com o público, a exemplo do irmão rebelde de Água Viva ou o arrivista de Vale Tudo. É o período dos anos 60, em que mantém uma parceria com Roberto Farias em ritmo de comédia e aventura, nos dois filmes da série com Roberto Carlos, nos quais ironiza seu tipo boa-pinta. Na década seguinte, teria conseguido mobilizar o respeito artístico cobrado por certa vertente, quando, ao mesmo tempo, adapta Plínio Marcos (Querô) em Barra Pesada, sua sexta direção, e interpreta o ladrão de banco real em Lúcio Flávio – O passageiro da agonia, outra caracterização emblemática na história do cinema nacional.

Sobre esse último, Roberto Farias faz questão de lembrar que se tratava de uma produção conjunta entre Hector Babenco e a R.F. Farias, a empresa da família por ele fundada, mas que, por incompatibilidade com o diretor, passou a ser um filme só dele. “O Reginaldo costuma dizer que, se soubesse, teria cobrado cachê maior, pois fez um preço camarada por se tratar de produção nossa”, brinca. E pontua o único dos Faria a ter um “s” no sobrenome, por erro de cartório: “A vocação dele, sem dúvida, sempre foi a interpretação. É um profissional disciplinado, denso e suave quando dele se exigem essas qualidades”.

Estaria entre algum grau dessas características a sua boa condução do desafiador Brás Cubas de Memórias Póstumas (2001), aposta do diretor André Klotzel, que, em um primeiro momento, considerou arriscada e recusou. Mas quem sabe pelo dever de mergulhar na obra completa machadiana agora pode ser um professor mais seguro a influenciar seus alunos numa ponta de O Carteiro. A produção faz jus ao amor dos Faria pelo cinema, transferido aos filhos da primeira geração entre técnicos, diretores e fotógrafos. Conta no elenco com os herdeiros de Reginaldo, Candé, protagonista em estreia, e Marcelo Faria. Com este já contracenou no teatro, uma das passagens da carreira contadas no depoimento à Coleção Aplauso, O Solo de um Inquieto. Mas Reginaldo se prepara para escrever de próprio punho seu trajeto, tarefa que os olhos azuis postos na neta recém-nascida indicam. Considera um dever de avô preocupar-se com a memória de sua família, artística de tradição. •