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Cultura

Crônica

Último domingo de outubro

por Menalton Braff publicado 24/04/2015 03h29, última modificação 14/05/2015 17h47
O convívio familiar está ameaçado frente à obrigação de permanecer sempre disponível para o trabalho
Tomaz Silva/Agência Brasil
Lagoa

Um celular pode arriscar todo um domingo de pesca junto à família

Último domingo de outubro, nenhuma nuvem para estragar o passeio.

Em volta da mesa do café, os cinco mastigam apressados. Enfim, a pescaria tantas vezes protelada acontecerá. Novembro já entra no período de defeso: proibido incomodar os peixes em sua casa silenciosa. E quem mais rápido mastiga é o Eduardo, excitado com a promessa a se cumprir. De nada adiantam as advertências da mãe para que mastigue direito. As duas irmãs, que sempre detestaram os piqueniques de domingo à beira da lagoa, riem deliciadas com a careta do Eduardo, que acaba de queimar a língua com o café quente.

O garoto é o primeiro a abandonar a mesa, e tão ansioso que nem pede licença, como reclama a mãe. O pai sorri, pois o dia de folga e a possibilidade real de satisfazer o velho pedido de seu filho criam o estado de euforia há tanto tempo desconhecida.

O Eduardo corre para os fundos da casa, volta correndo com as varas, um molinete, a carretilha e a maleta com as tralhas, levando tudo para o carro. Volta e pede a chave ao pai, Sim, no porta-malas, eu sei.

Tudo pronto, ele volta e ainda encontra a Nair terminando seu desjejum. Os outros já andam por aí, escovando os dentes, arrumando a roupa apropriada para um dia inteiro à sombra de alguma árvore, fazendo hora, essa falta de pressa só pra me irritar, não é?

Vai num, vai noutro, empurra, fala, quase chora, mas em poucos minutos consegue empurrar a todos para dentro do carro.

A viagem de pouco menos de uma hora até poderia ser uma viagem agradável, os vidros abertos, a brisa agitando os cabelos, o ruído monótono do motor, tudo uma paz profunda e azul. Poderia, não fossem as duas irmãs mais velhas com seus semblantes pesados, e o rancor de umas poucas palavras que se arrastam até os lábios apertados e rolam para fora como gemidos.

O Eduardo, que viaja feliz, faz a observação:

− Se todos os domingos do ano são delas, porque agora se irritam no único que me coube?

A mãe, sentada com as filhas no banco traseiro e o pai, mãos firmes no volante, sacodem concordâncias com as cabeças. As duas, muito quietas mas de olhos em observação, percebem que lhes tiraram todas as razões, por isso, apertam-se as mãos, sinais imperceptíveis, e resolvem desatar os nós que as separam da alegria familiar.

O bosque escolhido fica vizinho da lagoa, pouco mais de trinta metros de relva. E a árvore que sustenta uma copa ampla e bem fechada é o lugar onde as mulheres estendem esteiras, cobertores, enquanto os homens descarregam cestos, caixa de isopor com as bebidas e a churrasqueira.

Todo serviço pesado no fim, o Eduardo aparece com seu material de pescaria: uma vara, a maleta com as tralhas e desce na direção da lagoa. Logo atrás desce o pai, com o molinete, sua maleta, e senta-se ao lado do filho, ambos debaixo de abas com sessenta centímetros de diâmetro.

A preparação de linhas e anzóis é lenta, minuciosa, em tudo o filho imitando o pai. E os dois ficam muito contentes com este aprendizado. O pai faz uma observação e, por fim, o Eduardo consegue a voltinha que vai dar melhor fixação à linha. Em volta, o canto do vento nas copas e o alegre gorjeio de ror de passarinhos de cores quase impossíveis. Finalmente e com ar de triunfo, o menino joga na superfície parada da lagoa seu anzol, que mergulha deixando apenas a boia como indício do que pode estar acontecendo lá no fundo.

O pai se prepara para lançar ao longe, no meio da lagoa, sua linha, quando toca o celular. Ele faz careta de desagrado. Quem será?, o pai resmunga.

− É meu diretor, cochicha para o filho.

Então se afasta e vai parar em uma sombra bem distante da esposa e dos filhos. Mas todos eles percebem que sua gesticulação é angulosa, desesperada.

− Mas doutor Geraldo...

− Não tem mas, Arlindo. Não tem mas. Nós estamos pagando a descarga por hora. E só você pode liberar aquela papelada.

− E a minha família, doutor Geraldo?

− Você vai e volta. Sua demora, Arlindo, pode custar-nos caro.

O pai se despede e desliga o celular.

Arlindo sai apressado, dizendo que fiquem por ali que ele já volta. Entra no carro e sai cantando pneus.

A mãe comenta com as filhas seu pai saiu incomodado, aquela expressão de raiva na testa e nos olhos. Agora ficou uma família debaixo de umas árvores, esteiras e cobertores estendidos sobre a relva, uma churrasqueira montada em quatro pernas finas e pretas com o ventre repleto de carvão seco e apagado. Elas olham para a promessa de almoço um pouco desenxabidas, pois o churrasqueiro saiu com o carro cantando pneus.

As três, sentadas na esteira, estão atentas para o movimento do Eduardo na margem da lagoa, pois parece que luta contra um peixe, deve ser um peixe, um peixe que se debate em contrações espasmódicas, que pula, se contorce e despede reflexos prateados de seu corpo agitado. Entre elas, o silêncio quer dizer que estão espantadas com o filho e irmão que possuía uma habilidade desconhecida, e isso o eleva acima de sua condição infantil. Estão quietas e admiradas.

Por fim, depois de machucar o joelho e receber um corte na mão, o menino, vitorioso, ergue um peixe lindo e claro, brilhante como uma lâmina móvel, e grita por sua conquista. Mas não existe glória sem plateia, e a mãe com suas filhas não são o público a que ele aspirava. O pai foi chamado, seu pai atraído por ondas que chegam pelo ar para que ele cumpra sua sina. Ao jogar o peixe no samburá, sente a solidão em que se encontra, e seus gestos perdem o sentido. Sem solução para seu tempo, prepara-se para novas lutas. E arremessa o anzol que, ao mergulhar, levanta lágrimas da lagoa.

Alguns peixes a mais no samburá, sua mãe desce à beira da água e começa a prepará-los para o almoço. Suas filhas, com ar azedo, lábios contraídos e dedos de pontas sensíveis, já estão ateando fogo no carvão da churrasqueira. Com grande dificuldade e perigo, pois as labaredas se esforçam por atingi-las. E o pai, será que ainda demora? O pai?

Durante o almoço, começam a aparecer as primeiras nuvens. São lentas e silenciosas, mas densas e escuras. Elas são antecipadas por um vento brando, mas fresco tendendo para frio. A irmã mais velha termina seu almoço e enrola-se em um dos cobertores, como se atacada por uma febre.

A tarde se esvai e Arlindo consulta o relógio à passagem de cada cinco minutos. Finalmente solucionada a burocracia, encaminhada a descarga, ele embarca no carro e volta para a estrada. Calcula em duas horas para vencer a distância que o separa da família. Duas horas de estrada. Vai chegar lá antes da noite. Pensa em desligar o celular, mas lembra-se de que está impedido de fazê-lo. Existem laços na existência cuja ruptura pode provocar algum desastre. Apenas afunda um pouco mais o acelerador.

Ao se aproximar do bosque onde deixou a família, fica em dúvida sobre o local, pois não há vestígio algum de que estiveram ali. Mas reconhece o jirau onde pretendia pescar ao lado do filho.

O céu está escuro, coberto por grossas nuvens, a noite se aproxima.

Arlindo grita o nome da esposa, corre das árvores para a beira da lagoa, grita o nome do filho. Sem resposta. Então percebe o azul da camisa de Eduardo boiando sobre a água.