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Cultura

Crônica do Menalton

Tudo bem

por Menalton Braff publicado 17/09/2015 16h10
Nem sempre nos cumprimentamos como o fazemos hoje
Wikimedia Commons

Muitas das exigências do convívio civilizado podem ser bastante cansativas, principalmente aquelas que não encontram seu significado entre as necessidades imediatas do ser humano. Quase nunca sabemos a origem de certos usos, mas continuamos usando. Por que um advogado não pode entrar no fórum sem gravata? Alguém pode me dizer qual a necessidade que justifica o uso de uma linguiça de pano apertando o pescoço e pendurada sobre a barriga? De onde vem isso?

Os jovens, principalmente, criam para si a ilusão de que o mundo foi fundado no momento em que eles nasceram. Enfim, como poderia existir o universo sem a presença do que nele existe de mais importante? Todos nós cultivamos um pedacinho dessa planta, mas, com o tempo, vamos aprendendo que existem algumas coisas mais importantes do que nós por aí.

Não sei se a introdução do assunto foi pertinente, mas o que eu queria dizer é que tudo é histórico. E, se tudo é histórico, tem existência no tempo, os cumprimentos também estão sujeitos “ao poder do ímpio fado”.

Nem sempre nos cumprimentamos como o fazemos hoje. E acho que as formas de cortesia vão-se debilitando com o passar do tempo. Aliás, um amigo meu mais radical do que eu jura que a cortesia é um anacronismo. Neste caso, me considero anacrônico. E isso em vários sentidos. As músicas que mais ouço, por exemplo, foram compostas nos séculos XVII,  XVIII e XIX. Em segundo lugar, do século XX.

Pois bem, imagine você, meu caro leitor, dois cavaleiros da Idade Média, com a truculência que lhes era peculiar, cruzando-se em uma estrada. O primeiro deles, conde ou duque, sei lá, ergue a mão até o elmo e diz: − Oi . O segundo cavaleiro, duque ou conde, repete o gesto e responde: − Oi.

Não, eles não diziam “oi”, pode ter certeza.

O Marquês Fulano de Tal cruza num dos corredores do palácio com a Condessa Sicrana de Qual e com uma reverência lasca: - Tudo jóia?, a que ela responde: - Beleza numa boa?

E seguem em sentidos opostos, ele para a academia para diminuir o volume abdominal e ela para uma das salas onde costuma receber as carícias do amante.

Ah, mundo, mundo!

Outro dia assisti a uma série de cumprimentos familiares. O recém-chegado olhou os dez, doze presentes e começou para o primeiro: Tudo bem? O cumprimentado respondeu: Tudo bem. E com você, tudo bem? Tudo bem. Tãotabom − respondeu finalmente o primeiro cumprimentado. E até o décimo segundo não houve variação. A cena repetiu-se dez, doze vezes sem nenhuma alteração.

− Tãotabom!

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