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Crítica

Trilha sonora para os novos tempos

por Matheus Pichonelli publicado 20/09/2011 17h47, última modificação 22/09/2011 11h20
'Rock in Rio – A História do Maior Festival de Música do Mundo' capta a temperatura de um velho País que se despedia dos militares e da insignificância

O ônibus que levaria a excursão de crianças para o sítio passava por Jacarepaguá quando um problema mecânico interrompeu o trajeto às margens da Cidade do Rock.

Da janela do veículo, o menino de seis anos olhava vidrado para as estruturas de metal que acabava de abrigar os astros do Queen, AC/DC, Iron Maiden e outras 25 bandas – além de um público de 1.380.000 pessoas. Até então, o festival era só uma “pontinha de luz” que ele observava da varanda do apartamento, na Barra da Tijuca, em janeiro de 1985. Era programa obrigatório para quem, aos seis anos de idade, já lamentava o fato de os pais não o terem levado para ver o Queen.

Os nomes (e sons) das atrações eram ainda um universo distante para o garoto, mas começava ali a relação do hoje jornalista Luiz Felipe Carneiro com a história do evento.

A antiga “pontinha de luz”, e tudo o que aconteceu dentro dela, se transformou, 26 anos depois, num dos melhores roteiros para se entender o clima vivido pelo País às vésperas da reabertura democrática – e também às vésperas de o Brasil debutar como integrante permanente da rota de grandes eventos internacionais.

No livro “Rock in Rio – A História do Maior Festival de Música do Mundo”, é possível ouvir o som (e sentir o cheiro) das transformações sofridas pelo País, dentro e fora dos palcos, entre a primeira e a 10ª edição do evento (a quarta na cidade de origem), que começa na sexta-feira 23.

O Rio de Janeiro continua lindo, mas não é sombra da cidade que, na primeira metade dos anos 1980, assustava as bandas estrangeiras: até então, a referência que elas tinham do Brasil, além da pobreza e das florestas, eram os calotes sofridos por aventureiros que desembarcaram aqui e retornaram sem parte dos cachês, como o The Police, em 1982.

Isso quando não voltavam para casa simplesmente sem equipamento – naquele mesmo ano, o Kiss teve seus aparelhos de som extraviado, assim como o Earth, Wind & Fire, de quem os equipamentos simplesmente desapareceram no Porto do Rio, dois anos antes. A estratégia de guerra montada pelo empresário Roberto Medina, idealizador do Rock in Rio, para convencer as bandas estrangeiras a tocar no Brasil é um capítulo à parte da história do festival – e um dos pontos altos do livro.

Num tempo em que a cidade se prepara para receber, num intervalo de dois anos, os dois maiores eventos esportivos do Planeta, quando músicos de todo o mundo saem no tapa para entrar na agenda cultural carioca (e nacional), soa até estranho imaginar que, menos de 27 anos atrás, houvesse tanta desconfiança, aqui e lá fora, sobre a capacidade do Brasil de realizar qualquer obra que sobreviesse a um sopro – quanto mais às tempestades que castigavam o rockódromo naquele início de ano. O megafestival de 1985 serviu como uma pá de cal, embora não definitiva, sobre o complexo de vira-latas que, ao fim do regime militar, era ainda patrimônio nacional.

Não é de se estranhar que, no relato sobre o cenário político que contornava a primeira edição do evento, o nome de Tancredo Neves apareça no livro com mais frequência do que o de qualquer artista que brilhava naquele ano. A escolha do político mineiro no Colégio Eleitoral aconteceu em 15 de janeiro, o quinto dia do festival. A expectativa quanto ao resultado da eleição levava o público a acompanhar o processo com um olho no palco e outro nos telões espalhados pela Cidade do Rock.

No palco, a esperança por mudanças era celebrada. Cazuza, então líder do Barão Vermelho, praticamente se despediu da era militar pedindo que, no dia seguinte, o dia nascesse feliz, em referência a uma de suas músicas mais simbólicas. E comemorava, como a maioria dos colegas, a derrota de Paulo Maluf, visto como a continuidade do regime que ruía na eleição indireta. "Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã, um Brasil novo, com uma rapaziada esperta", pedia Cazuza.

Se havia algo, porém, que apavorava mais os artistas nacionais do que Maluf e os militares eram os metaleiros que provocavam estragos na plateia – ou “bullying”, se o evento acontecesse nos anos 2000. Chifres nas mãos, os fãs de heavy metal se uniam em bloco para infernizar, com pedras, lama e vaias, os representantes do rock brasileiro. Kid Abelha, Erasmo Carlos e Eduardo Dussek foram as principais vítimas. Acuado, o “produto nacional” dividia o corredor de camarins com as atrações estrangeiras. O convívio entre eles transitava entre o espírito da colônia e o da civilidade: enquanto James Taylor era solícito e trocava ideias com os brasileiros, Freddie Mercury ameaçava escalar sua equipe de segurança para descer a lenha nos colegas latinos caso não deixassem livre o corredor que o levaria ao palco.

Os mimos dos organizadores – e a ginástica para atender aos pedidos dos gringos, como a famosa garrafa de saquê a 20ºC requisitada (e depois espatifada) pelo líder do Queen – talvez sejam a imagem mais simbólica da subserviência nacional, ainda reinante, e reproduzida nos camarins do Rock in Rio.

Mas algo parecia mudar nos ares daquele festival. Antes do Rock in Rio, os artistas ainda dependiam da benevolência da Rádio Fluminense para atingir o grande público. O evento foi, de certa forma, o batismo de fogo para as bandas que ainda não haviam conhecido a fúria de uma multidão.

E que talvez nem imaginassem que conseguiriam, tanto quanto os astros internacionais, levantar fileiras de fãs cantando em português. A ascensão dos Paralamas do Sucesso, espécie de azarão da festa, é talvez o maior exemplo desse fenômeno. A eles se seguiram outros grupos que amadureceram e fizeram a história com a ajuda de guitarras e percussão.

O Brasil de 2011 pode ainda estar longe de ver seus dias nascerem felizes, como pedia Cazuza em sua performance – e a morte do presidente que representaria as mudanças esperadas, a posse de um cacique civil que se tornaria, anos depois, numa espécie de “senador biônico”, e a sombra do confisco da poupança do primeiro presidente eleito (e o primeiro injetado da Presidência) que marcara o segundo festival, de 1991, são a imagem mais clara dos percalços deste caminho.

Mas algo começava a mudar assim que Ney Matogrosso subiu ao palco em Jacarepaguá para abrir o primeiro Rock in Rio. Culturalmente, politicamente e socialmente, o País alcançava um outro patamar e deixava para trás o papel insosso da insignificância. As mudanças, gostem ou não, fizeram do Brasil um lugar melhor para se viver e fazer música. Apesar do Maluf, que sobreviveu, e do Nx Zero, que nem sequer tinha nascido.

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