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Cultura

Crônica do Villas

Tipo homem

por Alberto Villas publicado 06/11/2015 02h16, última modificação 06/11/2015 11h12
Esta coluna é de Lia Bock, jornalista, autora do livro 'Manual do Mimimi' e do blog 'Eu Lia, Tu Lias', como parte do movimento #AgoraÉqueSãoElas
Ilustrações de Camila Fudissaku
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"O machismo sempre mandou lembranças, claro, porque afinal, transpiramos essa doença dia e noite"

Desde pequena eu escuto. A Lia gosta de brincadeira de menino. Põe a roupa, Lia. No começo tinha esse tom de ensinamento. Menina não faz essas coisas, mesmo ali, no centro de uma família feminista, há sempre um parente, um amigo deslocado pra advertir, nela não, é menina!

Na juventude vem a advertência pelo risco. O medo. Mas você vai sozinha? Mas você vai a pé? Mas você vai com esse shortinho? Seguindo os trilhos libertários e os gritos igualitários da escola e de casa – e muito bem acompanhada pela minha turma – sempre atropelei o machismo, até porque ele nunca foi monstro pelas minhas bandas. Moça de sorte. Explico: branca, de classe média. Uma privilegiada, eu sei.

Não que tudo fosse amor e gentileza na bolha. Ali, onde eu nasci e habitei até a juventude me jogar no mundo, meus direitos foram garantidos na base. Sou fruto de uma família de professores que lutaram (e lutam) por igualdade, educação e justiça social. O machismo sempre mandou lembranças, claro, porque afinal, transpiramos essa doença dia e noite. Teve mão na bunda e homem desconhecido segurando no braço (mano, não precisa me pegar pra falar comigo) mas me parecem tão pequenos diante dos relatos avassaladores que o #primeiroassédio nos revelou.

Cá fora começou a ser diferente. Como todas tenho aquelas histórias bizarras do namorado da amiga que tentou me agarrar e me ameaçou se eu contasse algo, teve um médico que me assediou durante a consulta. Mas no geral, o machismo nunca tirou meu sono. E o jornalismo não foi exatamente cruel com meu feminismo. A única experiência de preconceito e misoginia que sofri foi na Vejinha quando o diretor de redação pediu rindo e aos gritos: “tira já a sua empregada da matéria, Lia”. Era uma modelo negra.

Me arrependo profundamente das lágrimas que derrubei quando ele mandou me demitir sob o argumento de que eu não estava à altura da revista. Me arrependo também de ter comprado um sapato de salto, porque ali, as mulheres usavam salto, uma colega resignada logo avisou. Não venha de tênis, ele pega bode. Nem o sapato dourado, nem a saia no joelho conseguiram disfarçar aquela pessoa criada solta pela esquerda libertária. E eu tentei. Desejei profundamente passar despercebida. Tirando esse curto período de tempo, o jornalismo foi feminista ao meu lado e me estendeu as páginas quando eu quis gritar alguma coisa.

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"A única experiência de preconceito e misoginia que sofri foi na Vejinha"

Mas então Lia viveu no mundo cor-de-rosa e pôde ser mulher em sua plenitude gozando de seus direitos? Claro que não! Lia era “tipo” homem. A menina que gosta de coisa de menino. Aquela com a qual os amigos podem falar baixaria emendando na sequência, você é café com leite. Você é tipo “nóis”. Porque se Lia gozava de liberdade, autonomia e dizia o que bem entendia, não poderia ser (apenas) uma mulher (de sorte). Havia de ser homem!

E num dado momento quase me convenci disso. Sou como eles. Meus amigos quase se convenceram também e cheguei a ouvir, você vai chorar?? Tá de TPM? Cara, esqueci que você tem essas coisas. Seria fofo se não fosse triste. Seria engraçado se não revelasse uma face sórdida da liberdade conquistada. Menina não pode, mas se você for “tipo” homem... Não, eu não sou “tipo” vocês. Tenho apenas os mesmos direitos e, sim, vamos dividir os espaços. E comigo vem a TPM, dois filhos, um blog de relacionamento, muitos pares de tênis, samba no pé e uma bunda que vez ou outra eu insisto em por de fora.

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