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Crônica

Terra em chamas

por Menalton Braff publicado 23/10/2015 09h55
Em viagem pela Bahia, Monteiro Lobato viu bois sedentos que bufavam para uma lagoa sem beber sua água. A lagoa era Petróleo e ali nascia a Petrobras
Petrobras/ABr
Petrobras

Hoje, a Petrobras é uma das maiores empresas do setor

Não sei em que bairro aconteceu, porque vi de relance e não me lembro mais, mas a televisão mostrou as imagens da terra em chamas, um belo espetáculo cromático visto por muita gente. Já dá pra perceber que não vou falar do calor desumano que temos sofrido, porque este ainda não chegou ao ponto de botar fogo na terra. O que poderia ser aquilo? Talvez o fim da história nos chegue uma hora dessas, como sói acontecer em casos assim, ou tudo não tenha passado de alguma galhofaria de desocupados.

A cena, uma cena muito boa, por sinal, aquela terra incendiada por labaredas contorcendo-se, um verdadeiro apocalipse. Para mim, que não acredito no fim do mundo, senão para aqueles que abandonam este pequeno planeta, a cena apenas me lembrou de  uma lenda que se conta tendo como personagem principal nada menos do que Monteiro Lobato, aquele autor que todos nós deveríamos conhecer na infância e na adolescência.

O pai da Emília, do Visconde de Sabugosa e de tantos outros seres humaníssimos como esses, não mantinha o foco de seus interesses apenas nos livros que escrevia. Era um homem do mundo, com vasta gama de atividades. Pois bem, ele acabava de retornar de uma viagem que fizera aos Estados Unidos, onde passara bastante tempo observando a economia ianque, porque, enfim, é de contrastes e semelhanças que formamos a maior parte de nossos conhecimentos. Ora, em périplo pelo interior da Bahia, resolveu visitar uma fazenda. Suas razões para essa visita não são reveladas pelos biógrafos, mas para aqueles que acreditam em destino, vá que seja, ele estava incumbido de uma missão.

A certa altura, passeando pelo campo, Monteiro Lobato percebeu que o gado, mesmo sedento, aproximava-se de uma lagoa, cheirava-lhe a água, bufava e ia embora sem se dessedentar, o que é muito estranho, pois recusar-se a satisfazer uma necessidade é comportamento humano. Isso intrigou o escritor paulista, que, muito curioso, perguntou ao fazendeiro por que razão ou excentricidade o gado não bebia daquela água.

Ah, respondeu-lhe o fazendeiro, essa água aí?, essa água não presta. O gado não bebe porque a água está podre. Monteiro Lobato resolveu, movido por sua curiosidade, observar melhor aquela lagoa de águas escuras. E podres. Aproximou-se e enfiou nela um braço até a altura do cotovelo. Ao trazer o braço de volta, ele estava coberto por um líquido preto e viscoso. Ele acabava de descobrir petróleo na Bahia. E a história prossegue até a fundação da Petrobras, mas não sem que antes se passe pela prisão e exílio voluntário do maior escritor para o público infantil do país, pois ele iniciou uma campanha que punha em risco as poderosas companhias de petróleo que dominam o mundo.

Conheço muita gente para quem a água de toda lagoa é podre. E preferem passar sede.