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Refogado

Tenha dó

por Marcio Alemão publicado 16/11/2010 16h45, última modificação 16/11/2010 16h45
Quantas aves são abatidas por ano só nos Estados Unidos? Alguém arrisca um palpite?

Quantas aves são abatidas por ano só nos Estados Unidos? Alguém arrisca um palpite?

Animais que vivessem pouco seria o ideal. Para que, exatamente? Respondo sem vergonha: para que eu pudesse comer carne sem culpa. Os que me leem sabem que passei por boas nos últimos cinco anos. Eventos que me levaram a rever a maneira de comer. Tive de enfrentar momentos bem radicais até chegar a um ponto mais equilibrado. Ainda arrisco um bacon bem crocante vez ou outra.

A verdade é que nunca me entreguei com desatino aos venenos gastronômicos de longo prazo. Sempre os admirei, é fato. Vivo bem sem a carne vermelha. Acho até que vivo melhor com ela. E vivo espetacularmente mais feliz sem peixes. Vou repetir pela milionésima vez nesta coluna a frase da gaivota: “Por mim, afogava todos os peixes no fundo do mar”. Essa gaivota é um personagem do livro infantil de Roddy Doyle, Os Risadinhas (Ed. Estação Liberdade), que eu recomendo com fervor para qualquer idade.

Sobre as carnes, parece que foi comprovado que as vermelhas causam estragos. Também descobriram que as brancas, seja de frango bombado, seja peixe que navega em águas repletas de metais pesados, podem nos matar, bem devagar. Concluí que só o equilíbrio salva.

Porém, voltei a me lembrar daquela tarde no matadouro e, ao ler o livro Libertação Animal (Ed. Martins Fontes), de Peter Singer, “descobri” que só nos EUA são abatidos mais de 100 milhões de bois, porcos e ovelhas. Aves. Alguém arrisca um palpite? Quantas por ano? Prepare-se, aqui vai: 5 bilhões. Sei que em breve seremos 7 bilhões.

Lembrei-me de uma explicação de Millôr Fernandes sobre estatística: “Se eu comer dois frangos e você nenhum, cada um de nós terá comido um”. Dos 7 bi, quantos terão acesso aos 5 bi e 100 mi? Esse é outro assunto, certo? Volto à matança dos bichos e confesso: eu só deixaria de comer carne, definitivamente, por compaixão aos animais.

Falei na semana passada sobre o olhar do boi. Falo agora de uma experiência esquisitona de anos atrás. Meu tio ganhou uns 15 coelhos. Bem-nascidos, bem-criados e bem esfolados, chegaram em minha casa. Mas vieram com a cabeça, com pés e mãos. Não é complicado decapitar um coelho ou amputar parte de seus membros. Dos seis primeiros dei conta. A partir do oitavo foi ficando muito difícil. O décimo e os demais passei para outro.

O ruído dos ossos sendo triturados, o cheiro de sangue se instalando nas narinas, ouvidos, olhos, em todo canto capaz de sentir coisas e a textura desse sangue, da carne, das cartilagens e articulações rompidas, a cabeça, a caveira... E não é que minha mãe chegou a fazer isso umas duas ou três vezes? Ela fazia um belo -coelho, receita de minha avó paterna.

Faça a lista dos eventos todos de um ano que podem reunir uma família. São muitos. Acredite, pois: ela escolhia a Páscoa para preparar o coelho. Minha mãe não tinha muito senso de humor , principalmente humor negro, para fazer isso premeditadamente. Era sem querer e sobrava para minha mulher evitar que a palavra “coelho” fosse ouvida por nossa pequena filha.

Sentir pena dos bichos e levar isso às últimas consequências não deixa de ser, também, uma maneira de salvar o planeta. Menos área de pasto, menos flátulos bovinos, menos caminhões nas estradas.

Com baleias nos comovemos. Com focas também. De frango e de boi ninguém tem dó. Faço mais uma recomendação literária: o conto A Galinha Cega (Ed. DCL), de João Alphonsus. Peter Singer dedica uma boa parte de seu livro para falar de outro destino dado aos animais: a pesquisa científica. Assunto mais polêmico, recheado de argumentos prós e contras. O autor, claro, desfia um novelo gigantesco de contras.

Imagino que a esta altura ficou claro o que eu quis dizer com “animais” e “ter vida breve”. Bois, porcos, cordeiros, todos nascendo, crescendo e morrendo de causas naturais em um ou dois anos. Ninguém mais os mataria. E ao dividir essa minha tese com um amigo, ele me disse: “Fazia tempo que eu não ouvia uma asneira tão espeta-cular. Tenha dó, Alemão!” Acatei e decidi ficar só com a última frase.