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Crônica

Tarde demais

por Menalton Braff publicado 03/07/2015 04h07
Faleceu na semana passada Carolina dos Santos, jovem cantora de futuro promissor. Pelo menos é o que suponho. E suponho, apenas, porque nunca ouvi nada da jovem
André Moreira/ Prefeitura de Aracajú
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A mídia foi unânime em afirmar que a natureza chorava na despedida de uma de suas mais belas promessas, a cantora Carolina dos Santos

Faleceu na semana passada Carolina dos Santos, jovem cantora de futuro promissor. Pelo menos é o que suponho. E suponho, apenas, porque nunca ouvi os recados da jovem, tampouco ouvira falar de seu nome. Mas a jovem teve a sorte de morrer numa semana de poucos acontecimentos noticiáveis.

A televisão (singular metonímico, pois foram todos os canais) esteve filmando o local do acidente, por todos os ângulos, filmagem acompanhada dos comentários de especialistas em trânsito e seus acidentes. Não contentes com a exiguidade da notícias, levantaram hipóteses com desenhos animados para chegar a conclusão nenhuma, é certo. Mas com uma notícia muito bem analisada.

Bem, então mostraram-se as cenas dolorosas do velório, um caixão artisticamente trabalhado, segundo a maioria dos repórteres, rodeado de muitas pessoas gradas, os amigos e parentes de Carolina dos Santos, alguns que vieram de outros estados, pois não poderiam perder aquela feliz oportunidade de aparecer por alguns segundos na TV.

Entrevistaram-se várias pessoas presentes naquela triste madrugada, algumas que sabiam como tudo tinha acontecido, outras que chegaram a contar anedotas apimentadas da infausta jovem, a Carolina dos Santos, de quem este pobre escrivinhador nunca tinha ouvido falar.

De manhã, como já estivesse na hora final, começou uma garoa que se podia imaginar fina e fria. A mídia foi unânime em afirmar que a natureza chorava na despedida de uma de suas mais belas promessas, a cantora Carolina dos Santos. Um jornal local chegou a noticiar que a Carolina morreu, mas está melhor.

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O trabalho da mídia foi exemplar, Carolina dos Santos acabou ficando famosa

Bem, mas a cobertura não parou nisso. O carro fúnebre, aliás, os dois carros fúnebres chegaram na hora marcada, apesar das lágrimas da natureza. O carro que iria na frente, todo preto com franjas douradas, levaria as flores, e alguém da mídia deu-se o trabalho de levantar o número de ramalhetes e faixas de despedida. Todas elas roxas, afirmou o jovem promissor do jornalismo. E leu algumas que terminavam com a data e os dizeres de praxe, como Adeus, Carolina dos Santos.

O deslocamento até o campo santo, por sua distância e pela lentidão do cortejo, tomou trinta e três minutos de um noticiário noturno. Muito triste. Mas finalmente o portão de lanças de ferro ligadas por arabescos metálicos foi aberto por um dos funcionários do cemitério que, para aproveitar a ocasião, também foi entrevistado, tendo de responder à pergunta fatal: Qual é seu sentimento ao participar do enterro da Carolina dos Santos? Pego assim de surpresa, o funcionário gaguejou um pouco, disse que estava muito emocionado e retirou-se para o escritório da administração.

Bem, como resumo da triste ocorrência, pode-se afirmar que o trabalho da mídia foi não só exemplar, foi sensacional, pois o fato é que a Carolina dos Santos acabou ficando famosa. Uma pena que já estivesse morta.  

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