Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Taquara rachada

Cultura

Crônica do Menalton

Taquara rachada

por Menalton Braff publicado 06/11/2015 05h16
Acho que todos nós tentamos algum tipo de imitação na frente do espelho para não fazer isso na frente de testemunhas
SXC.hu
Espelho

No espelho, sem observadores...

Minha infância e juventude transcorreram em ambiente musical. Quase todos os meus irmãos estudaram pelo menos um pouco de música. Meu irmão mais velho estudou canto e tinha uma voz agradável, mas escolheu como profissão a medicina. Outro estudou violino, fiz alguns anos de piano, minhas irmãs cantavam, o irmão mais novo chegou a viver uns tempos de cantar. Meu pai gostava muito de música e nos incentivava o estudo. Mas ele gostava, principalmente, era do canto.

Ah, como gostava de cantar. E julgava-se um tremendo cantor. Nunca nos confessou isso, mas suponho que na juventude tenha sonhado com uma carreira de cantor. Muitas vezes estive tentado a perguntar-lhe isso, hoje não pergunto mais.

E ele presumia-se um baixo. Nem barítono lhe servia. Ia direto ao timbre mais grave. Tudo para ele tinha de ser grave. A vida toda era encarada com gravidade. Era de lábios finos, meu pai, estreita caixa de ressonância, muito estreita, com um céu da boca raso, mas não se convencia.

Como fosse por natureza de voz aguda, suas tentativas de cantar trechos próprios para voz de baixo se transformavam num chiado, um som de quem está fazendo gorgolejo, uma coisa que não tem nome. Esta metáfora tão velha que compara certas vozes ao som da taquara rachada era bem adequada ao que meu pai produzia com a garganta. Só ele não via que aquelas notas deveriam ser executadas por um aparelho fonador mais apropriado.

Muitas vezes passei vergonha. Por qualquer coisa ele começava a cantarolar, escolhendo alguma ária para baixo, e eu escondia os olhos por baixo do sapato, com a impressão de que todos me olhavam rindo. E ainda hoje acho que riam mesmo. A alguns lugares, já não o acompanhava mais.

Arranjava sempre um compromisso que me levaria a outra parte, pois sempre tive um senso do ridículo meio francês, que é temer o ridículo mais do que qualquer doença. Não é assim mesmo? Um francês se suicida se souber que terá de passar por uma situação vexatória. O riso alheio é veneno que não se deve tomar.

Meu pai envelheceu, meu pai morreu. Ele não canta mais. Tem dias, como hoje, que me dá muita vontade de ouvir aquela voz de taquara rachada. Aquela adorável voz de taquara rachada que em minha memória é a mais bela voz de baixo que jamais existiu.

Eu também tenho voz aguda, e quantas vezes na vida já me surpreendi tentando fazer voz de baixo na frente do espelho, imitando seus lábios e seus olhos. Acho que todos nós tentamos algum tipo de imitação na frente do espelho para não fazer isso na frente de testemunhas.

registrado em: