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Sugestões de Bravo! para ver

por Redação Carta Capital — publicado 13/08/2011 09h14, última modificação 14/08/2011 19h01
As sugestões de Orlando Margarido para ver no cinema e "Fios da animação", um festival de bonecos que ocorre no Sesi
Sugestões Bravo! para ver

Fernando Bezerra é, em Transeunte, um aposentado que vive o triste cotidiano da urbe. Um filme sobre a velhice feito por quem está distante dela. Por Orlando Margarido

A idade que basta
Orlando Margarido

Transeunte
Eryk Rocha

Numa apreciação mais imediata, Transeunte é um filme sobre a velhice feito por quem está distante dela. Mas não deixa de ser um dos elementos mais significativos para Eryk Rocha na elaboração de seu primeiro longa de ficção. Há um peso a se levar em conta quando alguém carrega a herança de um artista influente como Glauber Rocha, relação essa da qual o diretor de 33 anos trata em documentários como Rocha Que Voa, em linha direta com a produção do pai. A perda deste muito cedo para o cinema brasileiro e, claro, para Eryk, assim como a morte do avô quando criança, teriam impacto determinante para ele, segundo explicou. Mas não apenas isso, como se poderá medir a partir de sexta 12 em um trabalho apurado, delicado e de rara abordagem para um tema que facilmente desbancaria na autopiedade e comiseração.

Esse olhar jovem, mas não complacente de Eryk, dirige-se a um personagem trivial nas grandes metrópoles. Expedito (o ótimo Fernando Bezerra, ator de teatro) é um aposentado na casa dos 60 anos, solitário e metódico. Seu cotidiano não vai além de lentas caminhadas pela cidade do Rio de Janeiro
ou de contemplar pela janela do pequeno apartamento um canteiro de obras que se impõe à sua frente, portanto, no revés de seu nome. O diretor capta num preto e branco rigoroso primeiro os detalhes para caracterizar o protagonista, closes que buscam com insistência suas rugas aos sons da metrópole. Aos poucos, depois de um processo de luto, o universo de Expedito abre-se novamente para a vida, estimulado pelo sexo, futebol e pelas rodas de samba, na mesma medida em que a câmera amplia seu contexto. Aqui também estão as influências cinematográficas de Eryk, que podem abarcar desde um cinema paulista como de Rubem Biáfora e seu O Quarto até o universal, de Antonioni.

Nos tempos de Franco

Orlando Margarido

Balada do amor e do ódio
Alex de la Iglesia

O  pressuposto do cinema do espanhol Alex de la Iglesia é o da irreverência e do humor negro. Nesse contorno cabe do terror trash de O Dia da Besta ao suspense cômico de A Comunidade. Mas talvez não se esperasse que aí coubesse o franquismo. A chaga por excelência na história política da Espanha a partir de um golpe militar nos anos 30 e a consequente guerra civil que leva o ditador Francisco Franco ao poder aqui serve como pano de fundo. Mais que isso, Balada do Amor e do Ódio, sexta 12 nos cinemas, reflete sobre o período de sufoco, mas à maneira de La Iglesia, extravagante, violento e bem-humorado. Em um circo se dá o confronto entre dois palhaços pelo amor da bela contorcionista Natalia (Carolina Bang), casada com o dono da companhia. Com este, tipo rude e violento, o protagonista Javier (o ótimo Carlos Areces), herdeiro do pai na tradição clownesca, se baterá na trama de vingança. É a deixa para o diretor flertar com a realidade na recriação do atentado do ETA que matou o primeiro-ministro Luiz Carrero Blanco, em 1973, e no desfecho filmado no Vale dos Caídos, monumento madrileno aos mortos nos conflitos. Basco de origem, ele não buscou o contexto à toa. “Cresci acostumado à censura na televisão, a abrir a janela e ver gente correndo da polícia; era um passado normal, mas doloroso, temos de exorcizá-lo
de todas as formas”, disse La Iglesia no Festival de Veneza, onde ganhou o prêmio de melhor direção e, ao seu feitio, ajoelhou-se diante de Quentin Tarantino para agradecer o reconhecimento.

Vocação divina

Orlando Margarido

O Senhor do Labirinto
Geraldo Motta

O reconhecimento do talento de Arthur Bispo do Rosário aconteceu em retrospecto, diferente das trajetórias habituais do meio artístico. Contribuíram
as peculiaridades de seu caso. Internado como esquizofrênico na Colônia Juliano Moreira, em 1938, o ex-pugilista sergipano passou a criar sua arte a partir de objetos recolhidos próximos da instituição carioca. Apenas em 1980, focalizado por um programa de televisão e um filme documental do fotógrafo Hugo Denizart, ele atrai a atenção da crítica especializada, ganha espaço numa exposição e, já na década de 1990, seus trabalhos participam da Bienal de Veneza. Bispo morreu em 1989, perto dos 80 anos, sempre acreditando que preparava, com sua vocação, um encontro com Deus. É um tanto sobre essa preparação que se debruça o filme O Senhor do Labirinto, de Geraldo Motta e codireção de Gisella de Mello, primeiro estudo em caráter ficcional da personalidade de Arthur Bispo. Exibido fora da competição no 39ºFestival de Cinema de Gramado, o título soma-se a documentários, peças teatrais e livros sobre o artista, inclusive o volume de Luciana Hidalgo em que se baseia o longa-metragem. Na interpretação de Flávio Bauraqui, vemos sua habilidade com a elaboração artesanal, na prática com a madeira ou o bordado, a paixão pela jovem  Rosângela e o credo de que carregava uma aura azul só destinada
a ser vista por poucos, imaginário que a bela fotografia de Kátia Coelho reforça também a partir das cores do figurino.

Fios da animação

Willin Vieira

Sesi Bonecos
17 a 21 de agosto
Parque do Ibirapuera, São Paulo

Tudo é grandioso quando se trata de fazer o maior festival de bonecos do Brasil.

São necessários cinco dias, mil pessoas e 500 toneladas de equipamentos para que a trupe de títeres de todo o mundo ganhe vida nos quatro palcos gigantes no Parque do Ibirapuera, além de teatros, exposições e desfiles, tudo gratuito. O projeto Sesi Bonecos traz desde o teatro de animação Circo en Los Hilos, com diferentes números de circo realizados com a técnica dos fios do especialista russo em marionetes Victor Antonov até a Cia. Gente Falante e seu circo em miniatura. O grupo Giramundo ainda comemora 40 anos de existência com uma performance no meio do público, abertura das atrações no parque. E, para entender como esse mundo de figuras animadas pelas mãos e fios de artistas pode ser tão real, há um ateliê ao vivo: bonecos brotam de pedaços de pano, ganhando vida para o novo show.