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Sugestões de Bravo para ler!

por Redação Carta Capital — publicado 16/09/2011 20h30, última modificação 18/09/2011 10h33
Nas dicas desta semana trazem O Cofre do Adhemar, sobre o roubo da casa da amante do ex-governador Adhemar de Barros, e Longo Estudo, Grande Amor, de Alessandro Dell’Aira

Filosofia à altura do chão

Examined Lives - From Socrates To Nietzsche

James Miller

FSG, 422 págs., US$ 28

Quando decidiu escrever sobre a vida de 12 filósofos, James Miller caminhou na contramão. “Nos Estados Unidos, o currículo clássico foi escanteado. O ensino contemporâneo da filosofia ignora a trajetória dos pensadores e o contexto histórico das obras filosóficas”, escreve Miller em Examined Lives. Para ele, a relação atual com a verdade se dá apenas sob o esquadro da ciência e da religião.

Tal como Michel Foucault, sobre quem escreveu uma biografia, Miller é adepto do entendimento da filosofia como meio de vida, não apenas como o estudo dos elementos gerais do mundo. Ele resgata a convicção dos gregos e romanos de que o discurso filosófico origina-se de escolhas existenciais. Para o autor, a experiência exerce grande influência na constituição das teorias. Por isso, uma proposta filosófica tem de ser analisada sabendo-se quem é o proponente.

Os filósofos de Examined Lives são Sócrates, Platão, Diógenes, Aristóteles, Sêneca, Santo Agostinho, Montaigne, Descartes, Rousseau, Kant, Emerson e Nietzsche. A dúzia de pensadores tem um traço comum: a luta para viver sob um conjunto de preceitos. A obra de Miller inspirou-se em As Vidas de Nobres Gregos e Romanos, de Plutarco, e Vidas de Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio. “O meu objetivo foi apresentar o arco de uma trajetória e não digerir doutrinas”, afirma.

Indiretamente, as 12 breves biografias registram como a filosofia tem mudado durante os séculos. Sócrates (469-399 a.C.) foi eleito o modelo supremo de virtude. Não existe incoerência entre as suas palavras e ações. Até o surgimento da filosofia moderna, a narração sobre as trajetórias dos pensadores os retratou como criaturas imateriais, imortais e imutáveis. Santo Agostinho e Montaigne superaram essa noção porque mostraram o homem como um ser em permanente construção. Os filósofos ganharam carne e osso.

Considerado inventor dos ensaios nos quais descreveu a si mesmo, Montaigne (1533-1592) foi radical. Rejeitou um perfeccionismo moral que resultaria em sentimento crônico de culpa. Ele se esforçou para exercer um julgamento tranquilo em relação às próprias falhas e às dos outros.

Montaigne teve uma atitude contrária à de Nietzsche (1844-1900). O autor de Assim Falou Zaratustra preferia ler Diógenes Laércio a estudar obras filosóficas. Nietzsche praticou, segundo Miller, o autoexame punitivo, ensinado pelo pai luterano e agravado pelos pensadores antigos, obcecados com a busca da verdade. De fato, Nietzsche não foi um exemplo de boa vida. – Francisco Quinteiro Pires, de Nova York

Uma construção do passado

O Cofre do Adhemar
Alex Solnik
Jaboticaba, 272 págs., R$ 29,90

Em 18 de julho de 1969, militantes da organização clandestina da VAR-Palmares puseram em prática um crime digno de cinema. O grupo roubou 2,5 milhões de dólares da casa da amante do ex-governador Adhemar de Barros. O roubo entrou para a história, mas é apenas parte da história narrada por Alex Solnik em O Cofre do Adhemar. Fortemente baseado nos depoimentos de um dos comandantes da ação, Antonio Roberto Espinosa, o livro tenta costurar a iniciação política da atual presidenta Dilma Rousseff com o roubo e o subsequente esfacelamento do grupo.

Envolvidos no caso relatam os bastidores da operação. Como foi planejada, posta em prática, o que foi feito com o dinheiro, como o grupo, tão vitorioso na ação, se desfez. Solnik narra tudo em detalhes, com tintas de thriller. Do grande roubo retrocede a 1968, esmiuçando a rotina dos militantes, durante ações subversivas e em seu âmago pessoal. Há desde questões burocráticas e relatos das disputas internas até confidências de Carlos Lamarca sobre paixões por colegas, interditas à militância, e casos de adultério. Mas o foco é tentar explicar como a “burguesinha” ferina e pródiga em criar desafetos tornou-se a “líder expressiva”. Como Dilma Rousseff tentou retardar a fusão de sua organização, a Colina com a VPR, dando origem à VAR-Palmares que sairia vitoriosa da ação mais famosa da luta armada. Dilma aparece vaidosa, conselheira sentimental, líder nata. Em capítulos curtos, datados, simples, Solnik reconta a já conhecida histórica com uma linha clara. A Dilma da época do cofre já era uma futura mulher poderosa. – Willian Vieira

Luzes de modernidade

Longo Estudo, Grande Amor – História do Istituto Medio Italo-Brasiliano Dante Alighieri de São Paulo

Alessandro Dell’Aira
Annablume, 424 págs., R$ 63
Livraria do Dante Alighieri
(tel. (11) 3179-4400, ramal 4155)

O Brasil não apenas desejava parecer moderno. Precisava assumir sua modernidade. A escravidão, contudo, fazia com que desafinasse
no concerto das nações. A partir de 1888, os italianos, acolhidos essencialmente para o trabalho na lavoura, integraram-se a esse ímpeto, digamos, de modernização do trabalho. Esses migrantes, que vinham anualmente aos poucos milhares, chegavam a 132 mil por ano após a abolição. Embora aqui estivessem fixados, não contavam com escola própria a transmitir sua relevância às gerações seguintes. O Dante Alighieri não seria, então, apenas um instituto de ensino, mas um difusor de cultura, como ditava o organismo internacional a orientá-lo, a Società Dante Alighieri.
Alessandro Dell’Aira ocupa-se desta questão com o escopo do historiador. Percorre cem anos desde o estatuto que criou o Dante, em 1911, de modo a desenhar com acuidade a trajetória de seus construtores. Por meio do perfil atilado das mentalidades que forjaram o colégio (curiosas, até obsessivas), ele redige uma história da cidade que se serviria da nova cultura.

Municiado dos documentos que a direção do colégio lhe abriu, Dell’Aira destaca um industrial como Rodolfo Crespi, que tudo empenhou para fundar e fortalecer a instituição. Ainda que adepto do fascismo, foi “generoso, de cepa liberal, e tudo, menos intolerante” para que a escola célebre à Alameda Jaú se tornasse o monumento que hoje se celebra.  – Rosane Pavam