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Sugestões de Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 06/08/2011 12h58, última modificação 06/08/2011 15h32
A CartaCapital separou para seus leitores algumas sugestões de lançamentos de livros
Paraíso de um só verão

Visão da Oceania. No livro do Nobel de 2008, a investigação sobre uma localidade outrora tida por intocada

Paraíso de um só verão
J.M.G. Le Clézio ficou famoso após receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 2008. Mas seus romances herméticos, como Le Procès-Verbal e Terra Amata, densos e abstratos, são quase inalcançáveis. Por isso Raga é tão sedutor. Aqui, um misto de Lévi-Strauss e Paul Theroux, Le Clézio orquestra bem o colorido registro da visita que fez à Oceania com relatos antropológicos, recortes literários, posicionamento político e lendas ouvidas da boca dos locais.

Raga é um dos nomes dados a Vanuatu, uma das ilhas com língua e cultura própria que não sucumbiram ao peso da colonização europeia. Le Clézio nos conta das mulheres que tecem esteiras. Sua arte, antes moeda de troca, perdeu espaço para o dinheiro de papel. Hoje elas voltaram a usá-las em um escambo que, em Vanuatu, ressurgiu como retomada patriótica, imersa nas crenças fundacionais. Em Raga, diz, estamos sempre mais perto do momento da criação. E das provas de uma recente exploração.

Surgem histórias de assassinatos em massa, de navios escravagistas a saquear e estuprar vilas inteiras. De Aids. Raga, escreve Le Clézio, está “muito longe, hoje em dia, do paraíso, algo imaginário inventado por Malinovski, no qual os tobriandeses viviam uma espécie de idílio dos sentidos em total liberdade”. É, como toda a Oceania, um lugar invisível que se manteve de pé. Como diz o autor, “se ainda resta algum segredo, é no interior da alma que vamos encontrá-lo, na série de desejos, lendas, fantasias e cantos que se mistura ao tempo e ressurge, e percorre a pele dos povos como os relâmpagos no verão”. - WILLIAN VIEIRA

Raga, de J.M.G. Le Clézio, editora Record, 126 páginas, 21,90 reais

Mundo de imposturas
Os governos ditatoriais criaram inúmeras vezes a ilusão de que a violência não acontecia no verso de suas imagens oficiais. A reconstrução discursiva desse mundo de imposturas tem sido feita pelo realismo cortante dos testemunhos, que descortinam a brutalidade das torturas e dos traumas dos sobreviventes e também pela ficção, que cria um cenário propício para os desvendamentos e as reflexões históricas. Nesse sentido, o romance A Quem de Direito, do escritor argentino Martín Caparrós, lança outro olhar sobre a história da ditadura argentina, levando em conta a perspectiva dos militantes “não desaparecidos”, daqueles que sobreviveram e necessitam de um heroísmo póstumo para suportar as perdas e as desilusões.

O personagem Carlos, que na juventude foi um militante, carrega o fardo do desaparecimento de sua esposa grávida. Ao longo da narrativa, tenta recuperar os fios desatados de sua vida por meio de diálogos, encontros e lembranças entrecortadas. No emaranhado da sua memória, surgem inúmeros questionamentos sobre as vozes, no contexto atual, dos sujeitos que viveram os anos da militância e parecem estar suspensos na ordem da história. Todos merecem ser ouvidos? Até mesmo o antigo torturador que hoje acumula traumas e vive em um mundo repleto de fantasmas? Há lugar para a voz da geração dos filhos e netos dos militantes, que vive hoje mergulhada na arrogância e no niilismo? Tais perguntas encontram respostas na articulação ficcional de Caparrós e apontam atalhos para a construção de um período histórico obscuro, que possui como legado a necessidade da memória. – ANA LÚCIA TREVISAN

A quem de direito, de Martín Caparrós, Companhia das Letras, 336 páginas, 49 reais

Cauim até cair
Pode ser considerado semelhante aos prazeres da degustação de boas bebidas o prazer gerado pela leitura do livro Selvagens Bebedeiras – Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil colônia (séculos XVI-XVII), do historiador e antropólogo João Azevedo Fernandes, professor na Universidade Federal da Paraíba. Ele descreve como os índios preferencialmente tomavam cauim, um fermentado feito a partir da mandioca, enquanto os portugueses optavam pelo vinho, mas depois a maioria das preferências de toda a população, até mesmo dos escravos negros, passou para a cachaça, inicialmente um subproduto da lavoura de açúcar para exportação.

Fernandes não só alinha dados sobre produção, comércio e consumo de bebidas alcoólicas durante os dois primeiros séculos da Colônia, mas principalmente retraça a importância social e cultural desses produtos nos contatos entre as diferentes populações que estão na origem do povo brasileiro. Conta como o hábito do cauim foi ferozmente combatido pelos europeus, principalmente pelos padres, e como a cachaça servia de moeda no tráfico de escravos na África. Uma grande novidade é que o autor imagina que os índios, os primeiros trabalhadores nas plantações de cana e nos engenhos, também tiveram um papel na invenção da cachaça. Um dos poucos senões da obra é dar a entender que, na Colônia, as bebedeiras eram mais selvagens do que hoje. Uma observação geral: a tese de que o vinho não é adequado para o calor dos trópicos não se sustenta, já que a cachaça, muito mais “quente” que o vinho, se deu muito bem por aqui. – RENATO POMPEU

Selvagens bebedeiras - álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil colônia (séculos XVI-XVII), de João Azevedo Fernandes, Alameda Editorial, 238 páginas, 50 reais

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