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Cultura

Sugestões de Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 11/12/2011 08h32, última modificação 11/12/2011 08h32
Nesta semana, Carlos Drummond de Andrade, Ruth Cardoso, António Damásio e Bernardo Kucinski são alguns dos nomes contidos na seção de cultura de CartaCapital
Drummond em seu apartamento da rua Conselheiro Lafayette, no Rio de Janeiro, em 1982 - C Acervo CDA

Drummond em seu apartamento da rua Conselheiro Lafayette, no Rio de Janeiro, em 1982. Foto: Acervo CDA

Por Maurício Reimberg

Confissões de Minas

Carlos Drummond de Andrade
CosacNaify, 336 págs., R$ 69
Passeios na Ilha
Carlos Drummond de Andrade
CosacNaify, 346 págs., R$ 69

 

Desconfiado por princípio e avesso ao foguetório, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi crítico do “tédio organizado” das trocas mercantis. Se estivesse vivo, encontraria um burburinho e tanto em torno da sua própria obra, que será celebrada na décima edição da Flip, em 2012. O mercado considera o poeta de Itabira “em alta”. Como não se trata de cotação em Bolsa, a valorização resulta numa série de lançamentos, palestras
e performances. A investida confirma em ato o verso célebre do poema A Flor e a Náusea: “Melancolias, mercadorias espreitam-me”.

Duas reedições, porém, resgatam a dimensão “prosaica” do maior poeta brasileiro, que escreveu
na imprensa durante quase toda a vida. Confissões de Minas (1944), seu primeiro livro em prosa e há décadas fora de catálogo, reúne textos publicados em jornais e revistas entre os anos 1920 e 1940. Já Passeios na Ilha (1952) articula momentos significativos do seu ensaísmo, inseridos no clima de catástrofe do pós-guerra. Ambos resguardam aquela “limpidez contida”, definida pelo crítico literário Antonio Candido. Num país afeito
à grandiloquência, esse estilo possui força de exceção. Como explica Drummond no prefácio a Passeios,
a “ausência de pretensão é quase insolente”, mas “poucas ilusões resistem”.

O autor tece lembranças de Itabira e da infância, evocação de amigos mortos, ensaios sobre poetas românticos, relatos de viagens sobre as cidades históricas mineiras (entre eles, Contemplação de Ouro Preto), crônicas e anedotas cotidianas, crítica literária, perfis, notas ficcionais e cenas de rua. Nesses fragmentos de gênero híbrido, Drummond dialoga com temas do poeta gauche, como a solidão moderna. O olhar analítico e maduro remete às “dores do mundo” (em tempos de fascismo) e às modernizações conservadoras do País.

Assuntos aparentemente soltos no “vasto mundo de obrigações não escolhidas” ganham reflexões. É o caso do divertido teatro daquele tempo (Confissões de Minas), no qual Drummond revela ter sido péssimo ator infantil: “Verifiquei que
é difícil mover os braços quando não se vai pegar um passarinho”, diz. E conclui: “O ato de falar esconde sutilezas sem nome”.
O humor desencantado reaparece com distância irônica em relação ao misticismo e à religião.
O machadiano O Zombeteiro Exu (Passeios na Ilha), por exemplo, narra caso  de anticlímax após incursão do cronista num terreiro
de umbanda. As digressões despretensiosas também são regidas sob o signo da suspeita.

Visão pioneira de uma antropóloga

RUTH CARDOSO: OBRA REUNIDA

Teresa Pires do Rio Caldeira (org.)
Mameluco Edições, 568 págs., R$ 78

Por Renato Pompeu

Num lançamento da Mameluco, editora dirigida pelo historiador e jornalista Jorge Caldeira, está sendo publicada, com patrocínio
da Sabesp e da Natura, a obra reunida da antropóloga e cientista política paulista Ruth Cardoso (1930-2008), mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Não se trata da obra completa dessa cientista social dotada de luz própria, bastante respeitada nos meios acadêmicos, enquanto o grande público
a conhece maiscomo criadora do Comunidade Solidária.

O volume reúne textos de Ruth Cardoso como antropóloga, notadamente sobre a progressiva integração e aculturação dos brasileiros de origem japonesa, e como cientista política, função em que foi uma das primeiras a  perceber a importância dos movimentos sociais em
São Paulo e no Brasil.

Ela foi pioneira, fora desses movimentos que se desenvolveram como causas e efeitos da decadência do regime militar, a partir dos anos1970, anotar sua relevância política, tendo sido também a primeira a perceber, já quando os movimentos nasciam, a possibilidade, concretizada a partir do governo Lula, de sua absorção pela cooptação e pelo clientelismo de políticos e governantes.

Também preciosos são os textos da organizadora, Teresa Pires do Rio Caldeira, que conta como o tema do doutorado de Ruth Cardoso, os japoneses, não foi escolhido por ela, mas por seu orientador, o antropólogo Egon Schaden (naquele tempo os homens mandavam nas mulheres mais do que hoje), e o depoimento da também antropóloga e cientista política Eunice Ribeiro Durham.

Aventuras
da consciência

Por Marcos Gomes

E o cérebro criou o homem

António R. Damásio
Companhia das Letras,
440 págs., R$ 49

 

O  médico, neurologista e neurocientista português António R. Damásio, que vive nos Estados Unidos, comprova mais uma vez que é um grande escritor. O fenômeno da consciência, seu papel na evolução, suas bases físicas
e químicas são abordados em profundidade em seu novo livro. Pesquisador de ponta, o autor fala com propriedade de temascomo o surgimento da consciência na evolução da vida, vantagens evolutivas e  seus mecanismos.

Damásio discorre sobre a associação de objetos do conhecimento com emoções, a arquitetura da memória e a construção  da mente consciente do self autobiográfico. O livro nos leva a um mergulho nos meandros da consciência, a partir de sua base física em estruturas diferentes do cérebro. O estilo de Damásio lembra o de outro grande escritor, Stephen Jay Gould, autor de best sellers de divulgação científica que também conseguia tornar agradáveis as mais áridas pesquisas. A escrita de Damásio lembra a do filósofo Espinosa, que em sua Ética descreve as afecções das emoções, e a de Proust, com sua minuciosa descrição do que os palácios da memória podem conter. –

Uma questão íntima

K.

Por Rosane Pavam

Bernardo Kucinski
Expressão Popular, 180 págs., R$ 15

 

O k, no título deste romance, pode remeter ao autor Bernardo Kucinski, mas também, e principalmente, ao âmago torturado de seu protagonista.Comoseria de supor, entra no clima desta história, a embaralhar constantemente ficção e fato, o próprio Franz Kafka, autor de O Processo, cujo personagem central, Joseph K., sucumbe às consequências de uma condenação arbitrária. No livro de Kucinski, K. é o pai de uma jovem desaparecida em tempos de repressão política a quem não foi oferecida a chance de redenção. No processo de refazer os passos da jovem, K. dá-se conta de que a filha vivera uma existência jamais confessada ou participada a ele naquele Brasil dos anos 60. E somente quando desaparece ela se deixa revelar.

Evidentemente, nada neste argumento é apenas o que aparenta ser. Bom narrador, de escrita simples e profunda, Kucinski desossa, com o tempero do suspense, da dúvida e da culpa, mais as razões culturais do que as políticas para um estado de coisas. É um relato importante, até crucial, quando se pensa que muito existe ainda a revolver em torno da trama macabra dos anos ditatoriais. Um livro não é somente um livro, mas um aviso, um sinal.

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