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Sugestões Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 02/07/2011 10h27, última modificação 02/07/2011 10h27
Nos destaques de livros desta semana estão Outonal – Um Amor de Viagem pela Europa, de Karlos Rischbieter, e a biografia da mãe de Barack Obama, A Singular Woman

Invenção e memória
Karlos Rischbieter ilustra viagem europeia afetiva

OUTONAL – UM AMOR DE VIAGEM PELA EUROPA

Karlos Rischbieter

KFK, 224 págs., R$ 30
Abre-se este livro porque há frescor nas cores das aquarelas, mas suas linhas simples traem o acúmulo de uma memória turística e também literária. Em Outonal – Um Amor de Viagem pela Europa há uma narrativa de viagem de fundo amoroso ou talvez o contrário, um amor descrito sob paisagem. Nada mais pretende o ex-ministro da Fazenda (1979-1980) Karlos Rischbieter, hoje aos 83 anos, do que se evadir, como ele sugere em entrevista por telefone a CartaCapital: “Não faço arte, faço brincadeira”.

Residente em Curitiba,  o catarinense que, em razão de um problema pulmonar, submete-se a uma inalação a cada quatro horas, não viaja mais há pelo menos três anos. Estas passagens pela Europa, selecionadas por sua ausência de obviedade, já que Rischbieter não descreve Paris, antes Avignon, Gordes ou Saint-Remy, nem Roma, mas  San Gimignano e Cala Rossa, são seu modo atual de estar longe de casa, mas ao lado da mulher, Rosita Brandão. Com ela fez 36 viagens ao exterior, em
um período de 12 anos.

É sua a história de amor descrita no livro? Ele conheceu Rosita aos 67, quando ela contava uma década menos. Daí a beleza outonal que vê nessa relação, muito assemelhada, segundo entende, ao romance descrito por Ernest Hemingway em Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores. Alguma reserva impede esse engenheiro de formação de contar a própria história em tom alto, então ele a mistura a um relato ficcional. O livro, declara no prefácio, teria sido entregue a ele por um senhor Jean-Claude, que recebera do brasileiro René Benares  o relato de seu encontro com a jovem italiana Isabella. Rischbieter seria o portador dos papéis.

Suas aquarelas foram pensadas como alternativa às fotos pelas quais teria de pagar direitos autorais. Há suavidade no casario, ponte, folhagens, cúpulas e torres. As figuras humanas têm o tom distante, como pontos de paisagem. Tradutor do poeta Rainer Maria Rilke, Rischbieter manifesta pavor pela página em branco quando o texto a ser escrito é só seu. Pinta desde os 11 anos e sua arte poderá ser mais bem conhecida em três meses, quando ele espera lançar um catálogo com aquarelas, desenhos e colagens apelidadas pelo amigo Jaime Lerner de “cerzido invisível”.  - ROSANE PAVAM

Cidadã do mundo

A SINGULAR WOMAN – THE UNTOLD STORY OF BARACK’S OBAMA MOTHER

Janny Scott

Riverhead Books, 376 págs.,
US$ 26,95
Barack obama é um enigma. Mas, ao escrever uma biografia sobre a mãe dele, a jornalista americana Janny Scott acredita ter desvendado alguns de seus segredos. Conhecer Stanley Ann Dunham significa expor a psique do primeiro presidente negro dos EUA, acredita a autora de A Singular Woman. No prefácio para a edição de 2004 de Dreams From My Father, escrito nove anos depois de Ann ter sucumbido a um câncer, Obama reconheceu a importância da mãe. “Se soubesse que ela não sobreviveria à doença, teria escrito um livro diferente. Não apenas meditaria sobre um pai ausente, mas celebraria a única constante em minha vida.”

Depois de 200 entrevistas e três anos de viagens, em 2008 Janny conversou com Obama, que reconheceu ter sido doloroso voltar sozinho ao Havaí, em 1971, depois de quase cinco anos na Indonésia, e passar boa parte da juventude longe da progenitora. Esse fato incutiu no imaginário americano a percepção de Ann como hippie que abandonou o filho.

Segundo a biógrafa, sua imagem corresponde à de uma branca tímida, alimentada a milho no Kansas, enquanto Barack Hussein Obama, o pai, é um queniano inteligente e carismático. Mas, aos 17 anos, independente, Ann engravida do primeiro africano a ingressar na Universidade do Havaí. A relação ocorre quando metade dos estados americanos proíbe a união inter-racial. Menos de 11 meses depois do nascimento do filho, eles se separam. Ela conhece Lolo, indonésio da universidade. Muda-se com Obama para a Indonésia, país com a maior população islâmica do mundo, onde passa mais da metade da vida. Tem uma filha. Divorcia-se. Desenvolve doutorado em antropologia. E cria programas de microcrédito para áreas rurais.

Em Dreams From My Father, Obama fala da mãe como uma idealista ingênua. Ele admitiu a Janny ter herdado algo dessa característica. A experiência na Indonésia ensinou a Obama o autocontrole. Ao contrário de Ann, cidadã do mundo, Obama escolheu a estabilidade. É americano e gosta de sê-lo. Já Ann preferiu estar aberta ao novo. - FRANCISCO QUINTEIRO PIRES, DE NOVA YORK

A realidade do impossível

A FALA DO CÉU

Ricardo Prado

Global, 160 págs., R$ 27

Helena, que tudo ouve sem o milagre de ser percebida, atira pelo muro plantas de sonho, mucás, em busca de chamar a atenção da filha Alice, de quem injustamente se separara. Elas se conhecem de lembranças. E da chuva constante, que abençoa sem abater a vila onde mora a família Fundador, marcada pela traição entre dois irmãos.

São belas essas imagens ocorridas sob o céu de Tremedal, cidade fabular que o jornalista Ricardo Prado quis mágica para sua primeira ficção. Literariamente, a localidade afogada situa-se entre a Troia mitológica e a Macondo de Gabriel García Márquez. E fervilha porque um anel do poder, à moda daquele de J. R. R. Tolkien, passa de mão em mão distribuindo problemas aos moradores subjugados.

Como qualquer brasileiro, os humilhados deste livro transformam os atoleiros em gozo, em campos de futebol, e chegam a temer o fim da chuva. A novela A Fala do Céu, por este traço e outros, parece aproximar seus destinos aos do país que a contextualiza. Assim, pelo menos, era o realismo mágico dos latino-americanos, ocupado em comentar o impossível  que, sem outro remédio, constituía o cotidiano dos habitantes deste sul.

Ricardo Prado escreve de maneira sucinta, quando talvez o realismo mágico pedisse sua expansão e seu humor. Mas o livro, em busca de coerência própria, surge cinza, como grande parte dos guarda-chuvas a percorrer a cidade, descrevendo mais agruras íntimas que coletivas. É um ficcionista inquieto, metalinguístico e apaixonado pelas palavras este que se anuncia em A Fala do Céu. – ROSANE PAVAM