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Sugestões Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 19/06/2011 10h50, última modificação 19/06/2011 10h50
As dicas da semana trazem Declaração de Independência – Uma História Global, de David Armitage, e Orgia - Os Diários de Tulio Carella, Recife 1960
David Armitage

A independência, vista por Armitage como marca de exportação. Foto: Rose Lincoln

A democracia dos EUA e o mundo

DECLARAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA – UMA HISTÓRIA GLOBAL

David Armitage

Companhia das Letras,

240 págs., R$ 43

Durante décadas, por quase todo o século XX, os intelectuais progressistas em grande parte do mundo se inspiraram em diferentes formas de marxismo. Desde os anos finais do século passado, entretanto, enquanto alguns renitentes se mantêm, ou se dizem manter-se, marxistas, um crescente número de intelectuais progressistas passou a defender a extensão da democracia capitalista, com todos os seus corolários, especialmente na sua forma americana (ou, no caso de uma minoria, na sua forma escandinava), a todo o mundo. Para eles, caiu  do céu a obra Declaração de Independência – Uma história global, em que o professor inglês da universidade americana de Harvard David Armitage detalha a história da influência da Declaração de Independência dos Estados Unidos em dezenas de países do mundo todo, que procuraram em diferentes ocasiões incorporar os direitos humanos tal como constam daquele documento. Exceções notórias são a Grã-Bretanha e a Independência do Brasil, dois casos em que não se invocaram os direitos humanos como direitos naturais.

O livro foi lançado há quatro anos na edição original em inglês e chegou agora ao Brasil. Como até mesmo um dos marxistas mais radicais do século XX, o italiano Toni Negri, agora defende a extensão a todo o planeta das instituições políticas americanas, a obra parece bem oportuna nestes tempos de revoluções democratizantes até em países árabes. Mas, importando as instituições políticas americanas, importa-se também a sua combalida economia? – RENATO POMPEU

História silenciada

ORGIA – OS DIÁRIOS DE TULIO CARELLA, RECIFE 1960

Tulio Carella

Opera Prima Cultural,

312 págs., R$ 64

Os diários do escritor argentino Tulio Carella (1912-1979) espelham, sob a forma do testemunho, a vida cultural do Recife nos anos 60 e refletem, por meio da ótica do encantamento pessoal, o mundo oculto dos encontros homossexuais dispersos pelas noites e vielas da capital pernambucana. As páginas desse livro, que teve sua primeira edição brasileira em 1968, transpiram erotismo e também revelam a atmosfera de um momento histórico delineado pela névoa da nascente ditadura.

A referência aos intelectuais e personalidades políticas da época compõe um retrato descomprometido e intimista, que descreve minuciosamente uma esfera intelectual a partir de uma aproximação marginal, periférica. O diálogo solitário, implícito à estrutura do diário, também remete ao isolamento desse autor estrangeiro que foi convidado para dar aulas de teatro na Universidade Federal de Pernambuco, terminou acusado de participar de um contrabando de armas provenientes de Cuba e se viu preso e deportado. O conteúdo dos diários desmentiu sua suposta participação subversiva, mas não impediu que ele fosse silenciado pelos regimes autoritários do Brasil e da Argentina. Com a publicação do texto, tanto em 1968 quanto agora, a voz de Tulio Carella retorna com suas impressões que podem ser parciais, entrecortadas ou verborrágicas, mas também fazem parte do cenário temporal composto das muitas vozes não oficiais que remontam ao registro da história latino-americana. – ANA LÚCIA TREVISAN