Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Subversão e subvenção

Cultura

Entrevista

Subversão e subvenção

Juca de Oliveira reclama de Lula e do subsídio estatal
por Rosane Pavam publicado 20/07/2010 14:24, última modificação 28/07/2010 10:31
Comments
juca_de_oliveira_19

Paulo Autra, diz Juca, era contra o Ministério da Cultura. Afirmava: "A cultura não pode ser ministrada". Foto: Régis Filho

Juca de Oliveira reclama de Lula e do subsídio estatal

Há risos e fúria quando Juca de Oliveira, um dos grandes dramaturgos da atualidade, toca no assunto intitulado Brasil. Consagrado em peças nas quais lidou comicamente com males como a corrupção e a hipocrisia social, o artista nascido em Itapira está cansado do comodismo e da leniência que identifica tanto no mundo da cultura quanto naquele da política. Aos 75 anos, Juca acredita ser preciso rever esses maus modelos, ter amor legítimo pelo fazer cultural e livrar-se das tentações de felicidade oferecidas tanto pelas leis de incentivo à cultura quanto pelos carros.

CartaCapital: O que, em sua opinião, precisa melhorar no Brasil?
Juca de Oliveira
: Eu sou um profissional de teatro. Analiso tudo desse ponto de vista, sobretudo da moral e da ética que há em seu conteúdo. Também sou descendente de italianos. Aprendi desde criança o que pode e o que não pode fazer. “Jogue fora aquilo, menino, porque não lhe pertence”, dizia minha mãe. Isso delimitou minha cabeça, o modo como penso. Quando você escreve e representa, como eu, está sempre interpretando o momento. Aristófanes falava sobre a corrupção ateniense no século X a.C. Eu abordo a corrupção do Brasil neste momento, o tipo de mensagem que os políticos transmitem aos nossos filhos.

CC: Qual a dificuldade para fazer teatro nesse Brasil que suas peças descrevem?
JO
: Quando comecei a exercer o teatro profissionalmente, nos anos 60, tinha por ele uma paixão irresistível, sem me importar com os sacrifícios. Botávamos nosso próprio dinheiro para fazer as peças. Assim como William Shakespeare, vivíamos em razão da bilheteria. Às vezes tínhamos de vender um carro, hipotecar o nosso miserável apartamento. O diretor Flavio Rangel inventou as cooperativas em que cada um ganhava um porcentual do espetáculo. Essas cooperativas funcionavam. O Teatro Oficina, o TBC, todos sobrevivíamos assim. Hoje, viver desse modo é infinitamente mais difícil porque há o problema da subvenção. Não havia subvenção do Estado antes. As empresas nos cediam tecido, sapato, camisas, tábuas para construir os cenários. Com relação à divulgação, os jornais ajudavam, éramos a parte pobre da cultura. Entraram as leis, como a Rouanet, e o que aconteceu? Começou a haver dinheiro. No momento em que entrou dinheiro, o preço das coisas foi lá para cima. Todos passaram a investir furiosamente na publicidade, e ela também subiu de preço.
Há um terrível dilema em curso. Se você anuncia, você quebra. Se você não anuncia, você quebra também. Nós não precisávamos dessa quantidade enorme de dinheiro para divulgar o espetáculo. Íamos às televisões, distribuíamos cartazes nos restaurantes. Hoje, mesmo que você venda o seu carro e hipoteque o seu apartamento, não terá como divulgar o espetáculo. Como existem os 500 mil reais da lei, esse dinheiro tem de ir para algum lugar, a divulgação. E a roupa fica cara. Não estou dizendo que não precisa haver subvenção. Precisa, sobretudo, para espetáculos de vanguarda, de jovens. A experimentação deve inocular o sistema, para que ele possa evoluir.

CC: Para ser melhor, o Brasil precisa de um teatro como aquele que você fazia?
JO
: O problema cultural tem de ser discutido. Quando alguém perguntava a Paulo Autran se era contra ou a favor da lei de incentivo à cultura, esse grande ator dizia: “Eu não sou contra a lei, sou contra o Ministério da Cultura. Não pode existir Ministério da Cultura porque a cultura não pode ser ministrada por alguém”. A cultura é o caldo de cultura, é o processo de pensamento e invenção do povo por um determinado tempo em um determinado estágio de desenvolvimento. Não pode haver comissões para descobrir o que é cultural e o que não é, o que deve receber 20 reais ou 50. Quem são essas tais comissões que decidem o destino do dinheiro?
Outro dia, uma das maiores atrizes que temos disse: “Tenho quatro projetos na Lei Rouanet. Aquele que sair eu faço”. Isso é absurdo. Nós fazíamos teatro por paixão. A paixão nos fazia ir atrás daquilo e não de qualquer trabalho, muito menos aquele com subvenção do Estado. Isso é o que temos de discutir direito no futuro, e eu não sei como. Gostaria muito de poder hipotecar o meu apartamento outra vez e fazer a minha peça tranquilamente. Claro que há o aspecto ruim disso. Se você tem um nome, você consegue. Se não tem nenhum, você não consegue.

CC: Ou às vezes seu nome é indesejável.
JO
: Esse problema é gravíssimo. Você entra nesse processo do beneplácito do Estado e se vê dirigido por ele. Há pessoas que se encaixam na mentalidade da subvenção. Eu quero que o espetáculo estreie e fique seis meses, um ano em cartaz, mas essas pessoas, não. Se um espetáculo permanece muito tempo em cartaz, não entra mais Lei Rouanet para elas, entendeu? Nós vivemos de bilheteria, não da subvenção estatal. Quando digo nós, estou falando do Antonio Fagundes, da Marília Pera, da Marieta Severo, do Marco Nanini. Fazer o quê? Eles são os melhores e os melhores estão na televisão. O governo tem a visão um pouco distorcida em relação a isso. Existe uma tendência a beneficiar a coisa amadora. Acontece que os chamados atores globais dão critério para os que vêm depois. Você vai tocar piano por causa do Chopin, não é? É ruim ter ojeriza por tudo o que dá bom resultado.

CC: Talvez uma lei não deva resumir toda a política cultura de um país.
JO
: É preciso evitar pelo menos de as pessoas sentirem aquela volúpia do assalto em razão da lei. O que nós queremos é permanecer em cartaz. Não queremos fazer teatro sexta, sábado e domingo. Queremos voltar a fazer duas seções nas quintas, nos sábados e domingos, como nos Estados Unidos.

CC: O público brasileiro tem dificuldade em se concentrar no teatro?
JO
: Esse é um problema da era digital. As pessoas estão voltadas para seus quadradinhos, para a leitura dos seus e-mails. Mas, em nível mundial, percebo um avanço do interesse pelo teatro vivo. Isso porque as pessoas vão ao teatro com um desejo de satisfação espiritual, para analisar sua própria existência e checá-la na trajetória do herói. Essa volta parece lógica porque nos vemos muito sozinhos, cada vez mais dentro e diante do computador, e, no fim das contas, somos animais sociais.

CC: Mas, no Brasil, segundo você observa, ainda acontece esse distanciamento em relação ao teatro. Por quê?
JO
: Eu não sei. Temos uma espécie de aflição geral aqui. Às vezes eu penso que se deve ao governo, já que não sinto grande simpatia pelo governo do Lula, embora tenha uma enorme admiração por esse homem. Eu também sou caipira e vi caipiras fantásticos saírem do nada e se tornarem enormes. O que tenho é um grande desencanto em ver um chefe de Estado ser leniente com um problema ético, da corrupção. Meu Deus, por que essa paciência toda com o José Sarney? O Estado tem de ser virtuoso. Porque ele é o chefe e o chefe da família não pode ser leniente com a corrupção, com o roubo, com a falta de caráter.

CC: O que você propõe para mudar isso?
JO
: Devíamos fazer uma política livre, sem voto obrigatório. Eu fui presidente do Sindicato dos Atores por nove anos. O ator odiava imposto sindical obrigatório. Em que o imposto deu? Em que resultou o sindicalismo? Não tem nada a ver com o que pensei. Se eliminassem o imposto sindical, os trabalhadores poderiam se organizar verdadeiramente, sem que não sei quantos milhões fossem distribuídos para as centrais.

CC: O que o incomoda mais no Brasil?
JO
: Temos os maiores juros do planeta, somos os últimos nos rankings internacionais de ensino, há torturas nas prisões e mortalidade infantil. Falaram que a mortalidade infantil caiu, mas no cômputo geral continua sendo um dos piores índices do mundo. O modal rodoviário também me incomoda. As civilizações avançadas sabem que é preciso eliminar o carro. Nós desativamos as ferrovias com o Juscelino Kubitschek, e mais recentemente extinguimos todas. Meu cunhado, ferroviário da Sorocabana, dizia que em alguns trechos o transporte por ferrovias é cem vezes mais barato. E nós investimos furiosamente na produção de automóveis. Se o governo diz para comprar carro, por que não vou comprar? Desisto do metrô e não tenho onde botar o carro depois. E a internet? A velocidade da nossa é 1.236 kbytes, e a da Coreia, 11 megabytes. Nós somos lentos, precisamos de tecnologia. Como vamos fazer? Mas, bem, podemos emprestar dinheiro para o FMI. E tem o problema da segurança. O prefeito de Nova York esteve aqui e lamentou que apenas estupro com morte nos preocupasse um pouco. Nos EUA, a tolerância é zero para todos os crimes. Aqui somos lenientes, generosos com o delinquente. O mesmo vale para o meio ambiente, tratado de forma muito leviana. Estive duas vezes na Amazônia, durante a gravação das minisséries Mad Maria e Amazônia. Vi só uma coisa na região, incêndio. Os pastos, já desertificados. O único instrumento agrícola ali é o palito de fósforo. Dizem que desmatamos apenas 17 mil quilômetros neste ano, e que baixamos outro dia esse índice para 14 mil. É uma piada. Não precisa desmatar! Desmatamos e não temos mais água. Quando eu bebia álcool, pelo menos tinha meus momentos de falta de reflexão e não pensava nessas coisas. Agora, estou lúcido o tempo todo. •

Comentários

Todos os comentários são moderados, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Não serão aceitas mensagens com links externos ao site, em letras maiúsculas, que ultrapassem 1 mil caracteres, com ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência. Não há, contudo, moderação ideológica. A ideia é promover o debate mais livre possível, dentro de um patamar mínimo de bom senso e civilidade. Obrigado.

comentários do blog alimentados pelo Disqus
Petrobras - O escândalo e a eleição

Petrobras - O escândalo e a eleição

Edição Atual | Anteriores



Índices Financeiros
Moedas
Dolar Comercial +0.00% R$0,000
Dolar Paralelo +0.00% R$0,000
EURO +0.00% R$0,000
Bolsas
Bovespa +1,03% 56789
Nasdaq +1,03% 12340
Frankfurt +1,03% 38950

Especial Haiti

Diálogos Capitais