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Cultura

Carta de Portugal

Sons da noite

por Eduarda Freitas — publicado 29/12/2010 10h17, última modificação 29/12/2010 10h18
A jornalista Eduarda Freitas, na segunda matéria da série de crônicas sobre Cuba, escreve sobre a noite cubana

Já é quase noite. Ao ritmo das cantigas, conversadas, a tarde vai perdendo o azul claro. As estrelas acendem-se, uma a uma, lentas, no céu da cidade que desde 1988 é considerada Património Mundial, pela UNESCO. Há turistas espalhados pelos restaurantes. Trinidad é bonita. Nos guias turísticos é conhecida pela cidade – museu do Caribe. As casas do século XVII estão bem recuperadas, pintadas com cores próprias, encimadas pelas suas fachadas tipicamente coloniais. Percebe-se que Espanha passou por ali. A Plaza Mayor, a principal da cidade, é um encanto, com os seus museus, farmácias, bancos rendilhados de jardim. Sim, Trinidad é bonita. Mas para quem a passagem por Cuba já conta com alguns dias, Trinidad faz lembrar uma mulher engalanada para uma festa, retocada de baton e perfumes. Longe das manhãs frescas de olhos sem rímel.

No centro da vila os carros não podem circular. Ficam à entrada, onde famílias sentadas à porta de casa abdicam rapidamente das conversas soalheiras, desde que sintam por perto a presença de turistas. Oferecem ajuda, demasiada ajuda, demasiada insistência, oferecem quarto para dormir, restaurante para comer. Lugar de estacionamento. Tudo em troca de alguns pesos convertíveis, dinheiro usado pelos turistas e que é tão apetecível aos cubanos. Na matemática da economia, um CUC equivale a 24 pesos nacionais, a moeda oficial do país com que são pagos os salários. Na economia dos dias, um CUC equivale a muita persistência. Seguindo o rumo, de turista em turista, desce-se a rua até à Casa da Música. Ponto alto nas noites de Trinidad. O largo da praça está cheio de gente. Casais novos, menos novos. Olhos azuis, cabelos loiros, costas vermelhas com marcas de biquinis. Pelas mesas, há «Bucaneros» a rodos. Latas de cerveja que brilham à luz amarela dos candeeiros de ferro forjado que iluminam o centro histórico. Um homem, cubano, aparece de microfone na mão. Grita «buenas noches!» e apresenta um grupo de música. Promete distracção e muito ritmo. Descontracção. Primeiro fá-lo em espanhol. Depois, sem pausas, repete tudo em inglês, francês, italiano. O discurso não é pequeno… a sonoridade é sempre a mesma, a métrica das palavras soa a igual, os ouvidos têm que estar atentos para perceber a mudança de idioma. E depois, finalmente, a prometida música: uns acordes a fazer lembrar os anos 80, embrulhados num ritmo de salsa. Discutível, mas diferente, sem dúvida… Palmas. «Thank You! Muchas gracias! Merci!».

Longe da miscelânea de idiomas e de sons, sentados numas escadas de pedra que descem de uma bonita casa amarela, estão duas vozes que se encaixam. Gustavo e Alain Moreno. Pai e filho. Gustavo é músico reformado. Aos 76 anos, assume os dias ao ritmo do descendente. «Eu ensino-lhe coisas. Coisas importantes, como Filosofia, Piano, Teologia. Mas coisitas suaves porque ele só tem 8 anos…ensino-lhe a Física das distâncias, da velocidade…de onde provém o Homem, Anatomia…». Alain ouve o pai. Tem os olhos parecidos com duas amêndoas doces e uns caracóis largos que lhe caem sobre a testa. O cabelo é de um castanho claro que encaixa na perfeição com a tez morena, mas não muito, que lhe emoldura a cara. Tímido, percebe-se que é um menino de dentro. De muito de dentro, onde as palavras nem sempre navegam com facilidade. O pai é mais falador. Tem a paz estampada no corpo magro e marcado. Rugas aos magotes. Em cada pergunta que faz ao pequeno, em cada resposta que ouve, assertiva, sorri. «Es mi hijo!». Numa cumplicidade de afectos, pede-lhe: «vamos cantar uma música, aquela que te estava a ensinar…!». Quase sem levantar os olhos, Alain consente. Fixa-se no pai à espera de ouvir o «um… dois… três» que antecede o início das músicas, daquele encher de ar os pulmões, do momento mágico que dá o mote à viagem. «Buscaré la estrella que brillaba en tus ojos, le daré mi mano y le pediré que tu luz me lleve a tí...». A voz do pequeno Alain preenche os espaços deixados em aberto pela voz arrastada do pai. Às vezes sobrepõe-se. Como um caminho feito a dois.

A noite há muito que saltou da obrigação do relógio. O tempo, assim, respira-se. Não passa. E só mesmo uma busca incessante por uma família de baratas gigantes – que em Cuba se chamam Cucarachas - numa casa alugada a uma mulher que vive perto de Alain e Gustavo, é que torna a realidade verdadeiramente humana. E sofrível. Porque o calor forte do quarto sem ar condicionado, faz, de facto, sofrer. O cheiro a mofo, também. As hélices da ventoinha colada à parede, emitem um barulho monótono. Demasiado constante. As páginas do livro - companheiro de viagem - não obedecem à vontade da leitura. Ficam pesadas. Um lagarto muito verde espreita à janela do quarto. Parece pendurado na vontade de entrar. Acabam-se os cartuchos de sensatez. Fecha-se o livro. Fecha-se a janela. Calafeta-se a porta com toalhas de banho. É certo que não resolve o problema, há mil e uma formas de os bichos conseguirem entrar e de o calor não sair, mas, pelo menos, fica-se com a sensação de que quem manda entre aquelas quatro paredes, é quem quer dormir. Ainda que na realidade, não seja bem assim…

Nas imagens da insónia, surgem os dois hotéis existentes em Trinidad. Talvez fossem mais comodos. A ver pelo aspecto exterior, seriam concerteza. No entanto, autocarros e autocarros de turistas à porta de ambos, não deixaram duvidas. Sem marcação prévia, é dificil conseguir um quarto num hotel de Trinidad. A solução passa por alugar uma das muitas casas particulares, aprovadas pelo governo. São fáceis de descobrir. Todas têm um sinal azul na porta, como se fosse um olho. Uma espécie de garantia de qualidade. Mas a qualidade também se finta, quando a vontade de conseguir alguns pesos convertíveis fala mais alto. Foi o caso.