
'Medianeras', filme do argentino Gustavo Taretto, leva a reflexão comovente sobre os medos, contradições e paranoias da vida na cidade grande. Por Matheus Pichonelli
Alguma coisa acontece desde que o primeiro internauta descobriu que podia comprar comida chinesa com um botão. Ou analisar o perfil da mulher ideal e entregar de bandeja os seus segredos mais profundos em salas de bate-papo antes do primeiro encontro. Ou baixar música de graça, pagar conta no banco a distância ou contatar profissionais para passear com seu cão enquanto se mantém ocupado na frente do computador.
É fato: a introdução das (já não tão) novas tecnologias no cotidiano provocou estragos nas formas tradicionais de relacionamento. Mas a dimensão desses estragos ainda está por ser medida em estudos, palestras motivacionais, campanhas políticas, reuniões de associação de bairro, memorandos governamentais, fichas médicas, investigações policiais, pesquisas de mercado ou de opinião. E é possível que poucos deles consigam chegar perto do retrato dos nossos dias feito pelo diretor Gustavo Taretto em seu filme “Medianeras”.
No longa, Taretto correu todos os riscos de tropeçar num debate que, em condições normais de pressão e temperatura, jamais caberia (ou caberia ridiculamente) em 95 minutos de exibição. Não só coube como ficou delicadamente desenhado em dois personagens-símbolos do que seria o anti-herói da primeira década do século XXI. Uma geração com seus Iphones, vícios, neuroses e contradições guardados na mochila.

Martin e seu companheiro de quarto
Numa das mais emblemáticas cenas do filme, Martin, o estranho personagem interpretado por Javier Drolas, conta para uma amiga recém-conhecida numa sala de bate-papo eletrônico que desenvolveu uma espécie de termostato emocional que o impede de vivenciar grandes tristezas ou grandes alegrias na vida. Do outro lado da tela, a menina questiona: “E quando a tristeza se torna inevitável?”. “Aí eu tomo Rivotril”.
Na sala de cinema relativamente cheia para uma noite de terça-feira, os sorrisos eram contidos diante de tantas estocadas emendadas pelo diretor sobre a vida em Buenos Aires. O cenário da metrópole funciona como a extensão das próprias contradições de seus habitantes, cada vez mais enclausurados em apartamentos sem janelas ou outras formas de conexão com o mundo que não seja a fibra ótica.
Não havia cenário melhor para retratar a solidão, candidata a mal do século passado, atual e futuro. No filme, Martin é um jovem fuçador de internet que ganha a vida criando sites. Mora sozinho com um cachorro abandonado por uma namorada que, no auge da crise argentina, embarcou para os Estados Unidos e não voltou jamais.
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Hipocondríaco, só anda na rua se em sua mochila tiver todo tipo de medicamento – acompanhado das instruções por escrito sobre como ser socorrido em caso de ataque de pânico – três camisinhas, um iPod e várias parafernálias. Adora natação, mas odeia tudo o que tem em volta da piscina (o caminho de casa, os chinelos molhados, o movimento das raias, as pessoas…).
E fica desapontado toda vez que chega em casa e descobre que não tem e-mails novos. E com as mulheres quando as encontra pessoalmente: todas tão interessantes na apresentação em sites eletrônicos e suas listas de referências mil, gosto por viagens, livros, música e arte oriental. E que, no fim, têm o azar de não terem nascido mudas quando atuam na vida real. (Num dos momentos mais hilários, Martin chega a compará-las a um Big Mac, um lanche que, segundo ele, sempre parece mais interessante nas fotos e na propaganda do que no prato).
Para passar o tempo, ou não morrer de tédio, Martin cumpre à risca a orientação do psicólogo: andar pela cidade tirando fotos para se distrair, num exercício que o leva a desconfiar que todas as fobias de seu tempo são consequência da expansão desenfreada e sem critério da própria cidade que fotografa, com seus prédios, seus becos e fachadas sem frente, verso ou janelas (as “medianeras”).

Mariana e o trauma de não encontrar Wally no desenho da cidade
Os sintomas da depressão e da desintegração povoam o cenário. Do outro lado da rua, exatamente no prédio ao lado de Martin, Mariana (Pilar López de Ayala) acaba de voltar para uma quitinete após quatro anos de um relacionamento que naufragou. Arquiteta que jamais construiu uma casa, ela passa os dias conversando com os manequins entulhados em casa e que serão usados para compor o cenário das vitrines decoradas por ela. É nessas vitrines, um espaço intermediário entre a rua e o interior da loja, que ela consegue se sentir em paz. Pensa que, se os transeuntes passarem, olharem e gostarem da decoração, estarão de alguma forma também gostando dela.
Mariana vive em silêncio, com medo e cheia de manias. É capaz de subir 20 andares de escada porque tem medo de elevador. E de descer todas as escadas em segundos para fugir de um encontro que a assusta. Quando perguntada por que não encara o medo com olhos fechados, ela desconversa: “nem tudo se resolve simplesmente fechando os olhos…”
Sua maior distração são as visitas ao planetário da cidade que a leva a pensar na finitude da própria vida, fechada num planeta que é só parte de um sistema, que é só parte de uma galáxia, que é só uma entre tantas galáxias do universo…tudo para lembrar do seu tamanho diante do infinito e amenizar o peso das próprias frustrações e o medo de não sentir dor.
Parte de sua paranoia com o mundo que a rodeia é culpa de Wally, o personagem de camisas listradas que se esconde nos mais diferentes cenários. Desde criança, Mariana tenta, em vão, encontrar Wally nas páginas de um livro que reproduz a vida numa metrópole. Passa os olhos com lupa, ponto a ponto, mas o nervosismo cego a impede de cumprir a missão. O que a leva a concluir: “se a cidade não me permite encontrar alguém que eu conheço, que sei como é, como faço para encontrar comigo mesma, que não sei quem é nem o que quer?”.
Em meio a tantas dúvidas, Martin e Mariana levam suas vidas a poucos metros um do outro. O desencontro entre eles pelas mesmas vias parece a alegoria perfeita sobre o autismo coletivo: andamos pelas ruas, mas sempre distraídos pela trilha sonora que passeia em nossos fones de ouvido. Já não ouvimos (nem vemos) o que acontece ao redor.
Difícil não se identificar com as situações cotidianas vivenciadas diariamente em cidades como Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, Cidade do México ou Nova York. É como se Taretto usasse seus personagens para situar a própria plateia, também enclausurada em suas contraditórias metrópoles. Parecia saber que, diferentemente do que acontecia num tempo não muito distante, muitos desses espectadores já não se reúnem com os amigos ao fim da tarde para um chope ou para ver (ou jogar) futebol. Também não almoçam com a família aos finais de semana. Não confessam os pecados para o padre nem veem respostas a leste ou oeste de Berlim. Não sentem culpa por não verem sentido nos relacionamentos nem na estabilidade da carreira. Nem convidam os colegas de trabalho para um café ou cigarro na área comum.
São personagens (dentro e fora da tela) vítimas de crises econômicas perenes (embora pareçam cíclicas) e que desempenham trabalhos descontínuos, incertos, sem benefícios ou seguridade. Não têm casa própria nem carro e, diferentemente dos pais, já não acham que a grande festa de casamento irá salvá-los das próprias mediocridades. E estão expostas a tantas informações que, ao fim do dia, veem o corpo empacar na hora de dormir, falar, observar ou se relacionar.

'Quando gostam das vitrines que decoro, é como se também gostassem de mim', pensa a personagem
É uma multidão que se conecta, mas também se desagrega, se espalha, se desconcentra – e se o meio é a mensagem, personagens, espectadores e suas contradições não poderiam estar num lugar mais certo (e inseguro).
Nessa enxurrada de novos signos que se espalham na velocidade das redes sociais, um certo instinto ainda é preservado entre as gerações que se sucedem: como numa sintonia, cada personagem se recolhe a seu canto quando quer chorar ou quando se emociona num fim de filme.
Os arroubos de felicidade é que, por ironia, só passam a ter sentido se forem espalhados nos sites de compartilhamento, onde é impossível distinguir um sorriso de uma encenação.
Um sinal dos tempos que o diretor não deixou escapar, numa sacada mais assustadora que hilária: no admirável mundo novo, se nada mais der certo ainda é possível apertar o “Control + Alt + Del” e todos serão salvos (inclusive os arquivos e históricos de qualquer confissão). Nas ruas a coisa desanda, mas contra isso também há um comando: em caso de emergência, desista de mudar o mundo e quebre o Rivotril.
Incrível, segundo texto que li e adorei, muito bom mesmo, parabéns.
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É o segundo texto seu que leio, e fiquei impressionada como você consegue dizer o que “ando pensando, mas não entendo” sobre o dia a dia. Textos que esclarecem os porquês de tantas incoerências sociais. Parabéns!
[...] os três últimos lançamentos argentinos: o brilhante “Um Conto Chinês” e o comovente “Medianeras”. Filmes que, sem a pretensão dos colegas brasileiros, fazem exatamente o que se espera de um [...]
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Retrato pintado em tom pastel. Faltou um pouco de tempero, mas não desmerece o trabalho do diretor. Dá de 10 a 0 em muitas produções de ponta, como é o caso do “Larry Crowne – O Amor Está de Volta” que conseguiu envergonhar Julia Roberts e Tom Hanks… TeoFranco http://blogln.ning.com/profile/TeoFranco
A crise do capital é mais profunda do que a gente vê /sente/ ou ignora, mas a gente fica apenas no senso coletivo que faz nossa consciência atual. Precisamos sair disso e ir mais fundo para buscar entendimento desse pós-pós-modernismo que tem forçado todos ao isolamento. Numa situação dessa o virtual é mais cômodo que o real, claro.Mas, se conselho fosse bom mesmo, né amigos…
é a chamada neo- alienação dos novos tempos de uma sociedade sem endereço fisico -social e apenas endereço eletronico. vidas virtuais sem encontro fisico, sem emoção prensente, do sexo online e do voeirismo dos sites de sexi shopings virtuais. a fragmentaçõa do sistema social e economico capitalista, enclausura em muros invisiveis ,viramos refens dos celulares ,fecebook,imails eletronicos.já não temos com quem ri, falar fisicamente , tudo não passa de um mega byte. o sistema capitalista suga a espiritualidade humana em tempo real e deixa um vacuo de sentido. muito util para perpetuação do poder economico que odeia aglutinação social através dos laços de solidariedade da classe operaria. bom tema para refletir esta tal sociedade tecnologica virtual.
Ótimo retrato dos tempos atuais, onde se instaurou a fragmentação e o individualismo, potencializado, ao mesmo tempo que perigosamente suportável devido a tecnologia atual. A competição e insegurança, frutos do sistema, isolam cada vez mais o ser em suas tocas. Quando tem que sair, saem com a crosta da indiferença e desprezo, tornado valores por muitos nativos dos tempos atuais.
Ao invés do “Estado Absoluto” das distopias daquele tempo, se consolidou o “Mercado Absoluto”, e vivemos na anomia e superindividualização, não na auto-entrega ao coletivismo e na despessoalização que os profetas da primeira metade do século XX enxergavam.
Prefiro andar com meu fone de ouvido na rua, indiferente ao que está acontecendo ao meu redor a ter que abrir os olhos e enxergar o caos que está lá fora. Porque enquanto o ser humano existir, vai haver arrogância, egoísmo e destruição. Isso não é pessimismo nem realismo, é algo que está na essência de todos nós. Apesar de tudo, eu ainda escolheria a pílula vermelha.
Era da pós-modernidade onde as sobreposições culturais fragilizaram todas as grandes referências, onde Deuses, Reis, Imperadores,entre outros, serviam como balizadores existenciais…Voltaremos às condições tribais com uma sociedade toda fragmentada e fragilizada, ideal para a perpetuação do poder ora instalado…
27.04.2012
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