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Sofrimento sem fim

por Rosane Pavam publicado 01/03/2011 17h01, última modificação 02/03/2011 16h46
Bruna Surfistinha circunda o vazio com boa trilha sonora
Sofrimento sem fim

Bruna Surfistinha circunda o vazio com boa trilha sonora. Por Rosane Pavam

Ninguém rouba da prostituta sua representatividade na cadeia produtiva. Ela ganha para satisfazer o apetite sexual dos outros e está quites comercialmente com a sociedade que explora seus serviços. Assim sendo, por que tanto sofre Bruna Surfistinha? Neste filme produzido a partir do best seller O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco, a estrear hoje em 350 salas brasileiras com a pinta de quem deseja deixar para trás Capitão Nascimento ou Chico Xavier, Bruna é o que sempre foi, uma Raquel. Este seu nome verdadeiro, na origem hebraica, remete à amorosidade e ao sofrimento. Protagonizada por uma ansiosa Deborah Secco, perfeita para o papel, a garota de programa encarnatodo o penar, até quando se diverte com as amigas.
O filme ignora explicações. Mas parece que, desde menina, Surfistinha não se deu bem com a família. Deduz-se das cenas à mesa de jantar que o pai foi indiferente, a mãe, amorosa mas submissa, e o irmão, de palavreado abusivo. Na escola, a professora não valorizou o que ela escreveu. Um colega de classe a humilhou sexualmente pela internet. Seriam motivos para correr ao psicólogo, mas por que a menina vai ao prostíbulo? Na casa de tolerância, as garotaas nem são más com ela. O sofrimento, contudo, prossegue. É triste fazer sexo anal desde o primeiro programa. Participar do jogo da felação (o ato sexual é variado e sugerido no filme, não explícito) com playboys maldosos e pobres gordos de todas as cores a incomoda mais do que a polícia.
E, ainda que aceitemos seu sofrimento sem razão, ela não é uma heroína de cinema americano, que mude a partir do que sofre. Tampouco tem o apetite pela prostituição que o escritor Henry Miller exaltou. Nem pensar na frieza de Belle de Jour no clássico de Luis Buñuel. Bruna, ao contrário de todas essas mulheres ficcionais, jamais deseja mudar sua visibilidade social, cultivar o mistério ou o prazer. Ela quer grana e (o filme hesita) um marido, o que parece ter conseguido como objetivo, mais do que a independência, ao final.
Talvez Bruna Surfistinha possa se orgulhar de um diálogo, aquele estabelecido entre a jovem e um velho cliente no momento em que ela lhe apresenta o negócio próprio. “Você não achava que eu chegaria lá, não é?”, pergunta Bruna. E o cliente lhe responde com uma questão: “Lá onde?” É quando a garota aponta para o computador. “Lá”, deduz o espectador, vem a ser o blog no qual, com verve, ela conquista clientes para os programas de sexo.
O filme tem ótimos atores principais, como Drica Moraes e Cássio Gabus Mendes, além de secundários bem preparados (o jogador Dentinho sorri sem falar). Talvez Bruna Surfistinha valha por eles e por uma trilha sonora de bons climas que, produzida por Tejo Damasceno, Rica e Gui Amabis, com direito à inclusão da faixa Fake Plastic Trees, do Radiohead, distraia o espectador do inevitável vazio.

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