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Cultura

Crônica do Menalton

Sobre pistolas

por Menalton Braff publicado 17/06/2016 04h54, última modificação 17/06/2016 05h47
Nem bem se estabeleceu em nosso país, meu amigo descobriu que aqui as coisas funcionam com certas peculiaridades muito nossas
Cartas

A carta, em latim, era chamada de epístola

 

Toda vez que o Adamastor aparece por aqui para serrar um cafezinho, já sei que vou aprender alguma coisa. Poucos gigantes podem orgulhar-se como ele por seu acúmulo de experiências de vida. 

Também, surgido no século XVI, no extremo sul da África, ter sobrevivido a todas as tempestades marítimas a que foi submetido, vindo parar deste lado do planeta, cheio de saúde e de sabedoria, isso não é para qualquer um.

Nem bem se estabeleceu em nosso país, descobriu que aqui as coisas funcionam com certas peculiaridades muito nossas. Como precisasse de trabalhar, procurou uma agência de empregos.

Então, depois de preencher a ficha cadastral, foi encaminhado para o endereço de uma empresa em que suas qualidades poderiam ser úteis. Então uma descoberta interessante: o pistolão. 

O funcionário da agência repetiu aquela recomendação. Com um pistolão tudo fica mais fácil. Me contou que tinha, realmente, uma pistola em casa. Antiga, dos tempos do Vasco da Gama, mas apta ainda para o exercício da defesa pessoal. E grande, porque pistola de gigante só pode ser grande. A Tétis que o diga. 

No caminho de seu futuro emprego, confessou que às vezes sentia-se confuso. Em que lhe poderia ser útil o pistolão? 

Ao ser atendido pelo encarregado da seção de RH, e depois de ter preenchido todos os formulários em que expunha tudo de sua vida, na entrevista não resistiu mais à curiosidade.

Por que carregava na cintura uma pistola grande como aquela? E mostrou ao funcionário da empresa, que entendeu o engano e soltou uma estrepitosa gargalhada. 

− Um pistolão, seu Adamastor? Um pistolão? Foi isso que lhe recomendaram trazer? 

Sem recomendação de alguém importante, não se conseguiam empregos privados e muito menos públicos. Mas o recomendante, é claro, não acompanhava o recomendado.

Certo? Por isso, redigia uma carta fazendo a apresentação do portador, cujas virtudes e habilidades exaltava. Era uma espécie de fiador das qualidades de seu recomendado. 

A carta, em latim, era chamada de epístola, como ainda hoje aparece algumas vezes. Mas o caso latino em que as palavras escorregaram para nossa língua era o acusativo. Portanto, epistolam. Quem quisesse uma colocação, uma boa colocação, tinha, e ainda tem, de conseguir um bom padrinho. E era com a epistolam do padrinho que se apresentava o candidato. 

Foi fácil o caminho. A epistolam, que viajava no bolso interno do paletó, transformou no pistolão, que viajou na cintura do Adamastor. 

Rimo-nos os dois bastante com o equívoco, e acabei aprendendo a origem de mais uma expressão que aparentemente não tinha o menor sentido. Assim é a língua: cheia de histórias.

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