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Cultura

Da Edição 630

Sobre achados de família

por Camila Alam — publicado 28/03/2011 15h00, última modificação 28/03/2011 16h05
Em homenagem ao falecimento de Thomaz Farkas na sexta-feira 25, republicamos a reportagem de janeiro deste ano em que o fotógrafo revira seu acervo e redescobre sua própria trajetória

Em homenagem ao falecimento de Thomaz Farkas na sexta-feira 25, republicamos a reportagem de janeiro deste ano em que o fotógrafo revira seu acervo e redescobre sua própria trajetória
Quinze enormes álbuns de fotografias, mais de 450 rolos de filmes de 35 mm, dezenas de caixas com ampliações-guia e outros cem rolos de negativos 6 x 6. Esse vasto acervo fotográfico, pertencente ao húngaro naturalizado brasileiro Thomaz Farkas, foi revirado e redescoberto no último ano por seus filhos, João e Kiko Farkas. O material, em parte inédito, traz imagens feitas na juventude, nas perambulações de Farkas pelo país ou em andanças por São Paulo. Essa pesquisa se mostrou repleta de surpresas e dela surgiu a retrospectiva Thomaz Farkas: Uma antologia pessoal, exposta na sede paulista do Instituto Moreira Salles (IMS), a partir de 27 de janeiro e também reunida em livro.
Nascido em Budapeste, em 1924, veio ao Brasil com a família no começo da década de 1930. Herdeiro de uma das grandes empresas de equipamentos fotográficos, a Fotoptica, ganhou cedo do pai sua primeira câmera. Na adolescência e no início da vida adulta, participou do Foto Cine Clube Bandeirante, cujas reuniões aconteciam no mesmo prédio da empresa familiar. Ao lado de outros frequentadores, como Geraldo de Barros e German Lorca, participou de salões e premiações. Foi visto como mascote da turma e ao mesmo tempo prodígio.
Durante um ano debruçados sobre o acervo do pai, os filhos João e Kiko selecionaram, ao lado dos técnicos e curadores do IMS, imagens que resumem sua produção fotográfica nas décadas de 1940 a 1970. Ao fotógrafo, hoje com a saúde um pouco debilitada, coube a inspeção, os mergulhos na memória, as redescobertas em torno de sua própria trajetória. “Não me lembrava desta...”, dizia a toda hora, segundo João, seu terceiro filho.
De cunho geométrico e experimental, suas imagens iniciais vieram antecipar o construtivismo, movimento crescente nas artes visuais durante a década de 1950. “Muito cedo ele pôde fotografar com suporte. Desenvolveu uma linguagem própria ainda na adolescência, uma documentação muito leve, jovem, instigante”, diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia do IMS e um dos pesquisadores do acervo de Farkas. Dessa época surgem cenas noturnas da cidade. Muitas inéditas, como Ensaio do Balé Russo no Teatro Municipal ou Escadaria da Galeria Prestes Maia, ambas de 1946, onde é explícita sua procura pelo chiaroscuro, pelas construções de luz em torno da paisagem e de personagens.
Mais tarde, voltado a uma visão humanista, Farkas dedicou-se às imagens documentais, personagens e cenas cotidianas registradas em viagens que fez pelo País. Em Brasília, na década de 1950, não se limitou à registrar a construção da cidade, mas pesquisava os arredores, visitava povoados dos trabalhadores que erguiam a capital, os candangos. Por muito tempo viu a fotografia como um passatempo pessoal, principalmente depois de começar a trabalhar na produção de documentários, na década de 1960. “Ele faz uma opção pelo cinema, chegou a anunciar que pararia de fotografar”, diz Burgi.
Com o projeto Carvana Farkas realizou filmes no interior do Brasil, voltados para a redescoberta de nossas raízes, dirigidos por ele mesmo ou colegas como Eduardo Escorel e Maurice Capovilla. Uma série de documentários, intitulada A Condição Brasileira, registrava a vida nas periferias do Norte e Nordeste, em material de caráter pedagógico. Naqueles tempos, foi acusado de colaborar com a guerrilha, o que lhe rendeu uma semana de cárcere no DOI-Codi, em 1968. Tinha, no entanto, uma visão menos idealista, mais preocupa-da com a linguagem e a educação.
Desde criança, o filho João lembra-se do pai com a câmera pendurada no pescoço, sobretudo nas reuniões de família. Ao revirar o acervo, a descoberta foi também pessoal. Entre as centenas de imagens cuidadosamente arquivadas por Farkas estão cenas tradicionais de família, imagens que João e Kiko pouco lembravam, outras totalmente desconhecidas. São cenas familiares, algumas tiradas antes do nascimento dos filhos, que ganham ares raros, ao mesmo tempo que desembocam numa viagem nunca antes vivenciada pelos irmãos.
“Examinar pela primeira vez todos aqueles negativos ofereceu a mim e ao Kiko uma experiência de reconstrução afetiva e de descobertas estéticas. Nossa excitação e nosso deslumbramento foram crescentes à medida que descobríamos personagens sem registro em nossas memórias”, diz o filho. Como editor de fotografia, João passou anos examinando produções de fotógrafos diversos. Ao se debruçar sobre a obra do pai pôde perceber pela primeira vez o natural desenvolvimento de um artista, cuja obra inicialmente marcada pela técnica ganhou contornos pessoais e simbólicos.
Dessas pastas pessoais, o IMS e a família Farkas pretendem dar conta de outro projeto, o de mostrar o fotógrafo e sua intimidade, os familiares, cenas íntimas de uma tradicional família europeia na capital. Toda seleção também será feita sob o olhar atento do artista, que hoje apenas brinca com os efeitos de uma câmera digital. Em sua trajetória, registrou os seus e o povo. Mais do que lidar com manifestos artísticos ou políticos, importou-se com questões de linguagem e caminhou pelos sentimentos e diálogos. Com sua conhecida alegria de viver, costuma ainda cumprimentar aqueles que o abordam com um “Viva! Viva a fotografia!” .