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Sinfonia da existência

por Orlando Margarido — publicado 12/08/2011 18h19, última modificação 06/06/2015 18h16
Terrence Malick busca razões universais para suas tragédias em A Árvore da Vida. Por Orlando Margarido
Sinfonia da existência

Terrence Malick busca razões universais para suas tragédias em A Árvore da Vida. Por Orlando Margarido

Há sempre um conceito de obra conduzida em partes, como em uma sinfonia, quando se trata do cineasta americano Terrence Malick. Dele podemos esperar um novo filme depois de longos intervalos, uma produção tão perfeccionista e demorada quanto intrincada e uma postura excêntrica preservada longe dos holofotes da badalação do cinema. Um mestre, preocupado em não se expor mais do que sua criação. Tudo isso se reforça mais uma vez com A Árvore da Vida, sua recente produção que chega nesta sexta 12 às telas depois de seis anos da anterior, Um Novo Mundo. O que torna mais instigante essa estreia é a percepção de que o sentimento tão personalista do diretor foi levado para dentro do filme, ou seja, mais do que nunca reflete um fluxo de criação construído em movimentos. Especialmente porque o trabalho vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes trata em muito do próprio gênese, das leis que regem a existência humana, do universo e, por fim, como distingue o título, da vida.

Se Malick sempre tendeu a uma compreensão mais filosófica em seu cinema, esta agora é assumida provocando talvez surpresa por se manifestar em uma certa religiosidade e também em uma visão metafísica. Há, evidente, a trama mais realista que serve a suas intenções. Uma abertura com citação do Livro de Jó prepara a tragédia que se abaterá sobre a família O’Brien, liderada por Brad Pitt. Um dos seus três filhos morre e a perda será definitiva para a mãe (Jessica Chastain), que percorrerá seu luto cobrando de Deus tamanha crueldade. Este é um movimento. Outro será a associação feita pelo cineasta com os ciclos inevitáveis da natureza. Se há um fato irreparável como aquele, é pequeno seu sentido num universo maior de coisas.

A vida, assim, seguirá para os O’Brien, tempestuosa nas brigas incessantes do casal porque o patriarca, militar, quer preparar e garantir um destino certo para os demais filhos. Trata-os com dureza e tolhe a mínima tentativa de liberdade. Jack, o mais inconformado, cresce com revolta. Garoto, já apontava a maneira injusta como Deus procede. O filme então o verá adulto (Sean Penn), na procura de descobrir a razão de tal sentimento do pai e em que momento a angústia tomou o lugar de um amor filial. É a última e espiritualizada parte. Malick concede o movimento final, aquele a confirmar em toda a sua plenitude a condição de que se alcança, enfim, uma obra de mestre.