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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

Simone de Beauvoir e o professor de literatura

por Matheus Pichonelli publicado 15/09/2014 17h35, última modificação 16/09/2014 07h15
A responsabilidade do autor diante da literatura não se limita a escrever, mas a fazer com que outros escrevam, publiquem, se encontrem
Violette

Cena do filme Violette, de Martin Provost

No início de 2001, eu era um jovem estudante de cursinho que, como todo jovem incapaz de entrar no vestibular na primeira tacada, andava de cabeça baixa até para ir à cozinha. Crescia e emagrecia em velocidade proporcional ao acúmulo de espinhas que começavam a pipocar no meu rosto. E acabava de descobrir que era míope, o que me obrigava a andar nas ruas de Araraquara com uns óculos de aro fino tão caretas quanto desconfortáveis.

Confuso em um universo que me parecia cada vez menos meu, passei quase um ano trancado em casa. Não saía para festas, não queria ver ninguém – na verdade, não queria ser visto. Minhas distrações eram os livros alugados na biblioteca do cursinho para os finais de semana e uma vontade quase inexplicável de abrir as páginas em branco do Microsoft Word para rabiscar alguns pensamentos – tortos e disformes como seu autor.

Um desses rabiscos ganhou forma e se tornou meu maior passatempo naqueles dias. Um dia, lá pela página cem, decidi colocar ponto final. Imaginei que se tratava de um romance e salvei em um disquete. Faltava mostrar a alguém.

Ao meu redor, havia poucas pessoas interessadas nas letras universais, que diria das minhas particulares. Foi só por isso que decidi criar coragem e entregar o disquete a quem entendia do assunto, meu professor de literatura André Luiz Guerra. Aos 18 anos, não saberia dizer como poderia admirar mais alguém como admirava aquele professor – ele e sua capacidade de articulação, que fazia de uma aula sobre Eça de Queiroz um espetáculo dançante, carregado de mímicas e interpretação de frases decoradas de trechos inteiros. Também não saberia dizer como ter tanto medo de uma pessoa como tinha do professor. Pudera: ele era um gênio e eu, um piá criado em prédio que imaginava saber alguma coisa da vida graças às notícias esportivas, às desilusões afetivas e aos perrengues familiares. Sabia de nada, inocente.

Mas de algumas coisas eu sabia. Sabia, por exemplo, que um livro só existe quando alguém decide colocar os olhos sobre ele, e não quando alguém decide escrever. Naquele dia, encarei bem o professor e seu estilo punk rock dos anos 80. Era um baixinho magrelo, de jaqueta preta e voz potente, com um brinco de argola na orelha esquerda e trejeito de moleque petulante – um gênio, decerto, mas petulante. Entreguei o disquete, expliquei mais ou menos a ideia do suposto livro e saí correndo. Não pararia de correr até agora se não fosse o professor parar a aula, na terça-feira seguinte, e dizer que gostaria de comentar uma história que recebera em mãos de um aluno de quem lembrava o nome e não o rosto.

Tentei me afundar na cadeira, mas foi em vão. De lá, como quem se esconde atrás de uma trincheira, vi o professor destrinchar a história na frente dos alunos: o personagem que eu acabava de criar e que até então só eu conhecia de repente era um nome dentro de um círculo a se relacionar com outros nomes de personagens dentro de outros círculos. Ele resumiu a trama, citou frases, disse o que representava cada protagonista.

Tudo para dizer que o livro era ruim. E que não poderia ser diferente porque, aos 19 anos, não sobrava em mim a menor autoridade sobre qualquer vivência. Tudo o que valeria ser escrito ainda não havia sido vivido. Nem vivido o suficiente para ser olhado em perspectiva. Foi o que disse o professor André Luiz Guerra.

“Só ouvir MPB não vai fazer de você um escritor médio, que dirá bom”, disse ele. “Comece escrevendo crônicas. Contos. Deixe os romances para mais tarde. Mas antes leia tudo o que te cair em mãos.” E foi assim que passei a receber, toda terça-feira, um livro da sua coleção particular. Um dia ele trazia Dalton Trevisan. No outro, Ignácio de Loyola Brandão. No outro, Rubem Braga. E por aí seguia.

Quando cheguei em casa, depois de ter uma “obra” citada em uma sala de aula, demorei a ferrar no sono. Não porque achava que tinha algum talento para escrever. Nem porque acabava de ganhar um sinal verde para seguir. Mas porque alguém como o André se dispusera a ler um texto meu. Só então descobri que a atenção dedicada à palavra escrita por alguém é o melhor termômetro da generosidade. Com ela criamos e podamos amizades. Amigo que é amigo não se recusa a ler nossos livros. Nem se recusa a trucidá-lo se, em vez de um livro acabado, vir ali apenas um projeto que valha ou não ser levado a outras pessoas, não necessariamente outros amigos. Não há livro que sobreviva a um olhar escrutinador de um amigo, nem amigo que sobreviva a uma leitura desatenta de um esforço materializado em linhas e letras.

Depois daquela tarde, a relação de confiança se estabeleceu de tal forma que, quando percebi, era ele quem me telefonava para saber minhas impressões sobre a aula anterior. Ou para perguntar o que achava de um artigo de sua autoria prestes a ser apresentado em um seminário em Curitiba – ele era autor de uma tese sobre a obra de Chico Buarque e voaria para a capital paranaense em poucos dias. Estava nervoso. Porque os ídolos também se sentem desprotegidos. Era uma confiança em via dupla.

Pois foi do professor André que me lembrei ao fim de Violette, filme de Martin Provost inspirado na vida da escritora Violette Leduc. A obra é, antes de tudo, uma história da amizade entre a autora, belamente interpretada por Emmanuelle Devos, e a filósofa Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain). Uma amizade que começa quando Violette resolve engolir a timidez para entregar um manuscrito de um futuro livro para a autora de O Segundo Sexo, já então consagrada – não sem antes sair em disparada, como todos nós diante de todos os ídolos.

Impressiona na trama como Beauvoir assume a missão: a sua responsabilidade diante da literatura. Essa responsabilidade não se limita a escrever, mas a fazer com que outros escrevam, publiquem, se encontrem. As conversas, os esforços, os incentivos, as duras: tudo em Beauvoir denota esta missão. É ela o suporte da amiga. É ela quem banca um percurso sinuoso de quem optou por escrever e deixou de fazer todo o resto que importa e gratifica na vida. Violette, uma personagem hesitante, impulsiva, ora egoísta e autoritária, não tem outra saída a não ser engolir todas as suas contradições e obedecer. E escrever. E reescrever. Mesmo nos momentos de desespero, em que parecia faltar tudo, inclusive a vocação. Até ser reconhecida como alguém que vive pela, para e da literatura – o sonho, portanto, de todo mundo que escreve.

O filme é a reconstituição desse processo, que nasce e morre na generosidade de quem se dispõe a ler o trabalho disforme de alguém e apontar caminhos. Porque a literatura não é um caminho, mas um acúmulo de caminhos aparados e corrigidos pela generosidade de alguém – e só me dei conta disso ao fim da sessão.

Faz 13 anos que esbarrei pela primeira vez nessa generosidade. Desde então, a tela em branco de um programa de computador não é só sintoma da angústia em estágio final, mas de uma angústia inicial. Uma tem jeito; a outra, não. Não sei para onde ela me leva, mas é nesta tela que me apego desde que alguém me lançou, aos pontapés, e disse para ficar nela e não sair mais.

Em 2005, quatro anos depois daquela aula, publiquei meu primeiro livro, de contos. Ingênuo, sem fôlego, cheio de descuidos e ansiedades. Teria menos rejeição a este livro se ele tivesse passado antes pelo escrutínio do professor André, que morreu em um acidente de carro em 2002 sem tempo de analisar os primeiros rascunhos, que estavam em sua pasta. Desde então escrever é escrever no escuro: a gente só descobre se errou ou acertou quando os leitores avisam. Ou quando os colegas oferecem os olhos como apoio. Mas uma coisa é escrever na areia; outra é escrever em pedra, e há cada vez menos Simones ou Andrés para ensinar a lidar com elas. Por isso, mais do que insistir, tropeçamos. Como tropecei em 2005. Como tropeço em minhas telas em branco quase diariamente.

Desde então, não há um único dia em que não me pergunto quantos constrangimentos me teriam sido poupados se antes de apresentar um texto ao público o professor André Guerra estivesse por perto para dizer: “Calma lá, pega leve, segura a onda, não é hora ainda, corta isso, avance nisso, volte ao Dalton Trevisan antes de se meter com um tema desses”. De alguma forma, acho, ele está. Fato é que, diferentemente da adolescência, a escrita não tolera nossos erros. É preciso parar e aparar. Contar até dez e começar de novo, do zero, daquele ponto em uma tarde de 2001, quando demos por terminado o que mal havia começado. O que nos move, no fim das contas, são as ausências, e estas não admitem as telas em branco.