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Roman Polanski e o pecado da simplificação

por The Observer — publicado 03/10/2013 17h05, última modificação 03/10/2013 23h21
O caso do estupro de Samantha Geimer pelo cineasta demonstra nosso terrível medo das nuances. Por Victoria Coren Mitchell, do Observer
Divulgação
Samantha Geiner

Detalhe da capa do livro de Samantha Geiner

Por Victoria Coren Mitchell

Samantha Geimer, a garota estuprada por Roman Polanski, publicou o que talvez seja o mais importante e valioso livro do século até agora.

Ele poderá ser um desses livros de que muitas pessoas falam sem realmente ter lido, como Uma Breve História do Tempo, O Ponto da Virada ou a maioria dos compêndios escolares.

Mas tudo bem. O valor do livro de Geimer, The Girl (A menina), está no debate que ele incita; isto já está acontecendo através da serialização e das entrevistas disseminadas e articuladas com a autora. Se isso provocar uma discussão maior entre os não leitores, então ela também fez algo útil e importante.

O que você sabe sobre a história? Eu sabia um pouco, mas ainda senti o que os resenhistas apressados do livro chamam de "montanha-russa emocional" ao ler uma de suas entrevistas.

Quando Samantha Geimer tinha 13 anos, o famoso diretor de cinema Roman Polanski, então com 43, disse que estava fotografando garotas norte-americanas para uma matéria na revista Vogue francesa. Com uma ingenuidade perdoável, a mãe de Samantha permitiu que ela saísse sozinha com ele. Polanski a fotografou sem sutiã, o que a menina não contou para a mãe.

Algumas semanas depois, o diretor levou a garota à casa de Jack Nicholson, deu-lhe várias taças de champanhe e um pedaço de um comprimido para dormir e depois fez sexo com ela, contra a sua vontade. Geimer diz: "Foi estupro em todos os sentidos da palavra. Eu disse não".

O modo como ele fez sexo com ela é indelicado incluir aqui, mas importante. O livro de Geimer o expressa com sarcasmo literário: referindo-se a um relatório psicológico simpático depois da prisão de Polanski, que citou sua "preocupação referente à gravidez" como um fator atenuante. Segundo Geimer, esse foi "um novo eufemismo interessante para sodomia".

Não sei como isto a faz sentir-se. Mas me enche de ideias de violência. Imagino estar sozinha com Polanski, chutando-o e socando-o. A raiva que sinto ao pensar no que ele fez a uma criança drogada parece ser instintivamente brutal.

Depois você lê sobre a vida de Roman Polanski. Como é vergonhoso e inútil puni-lo com violência, mesmo na imaginação.

Aos 6 anos, ele viu seu pai ser levado para um campo de concentração. Sua mãe morreu em Auschwitz quando estava grávida de quatro meses. Aos 35, com Deus sabe que cicatrizes indeléveis, Polanski se casou com Sharon Tate e eles começaram uma família imediatamente. Tate estava com oito meses de gravidez quando uma gangue invadiu sua casa, matou-a a facadas e pintou "porco" na porta da frente com seu sangue.

Isso não é uma desculpa; outros sobreviventes não se tornaram estupradores. Mas silencia imediatamente meu instinto violento e cria uma intensa e terrível simpatia paralela à raiva. Um segundo fator de complexidade é que o trabalho de Polanski é cheio de beleza e humanidade.

São sentimentos desconhecidos; o mundo moderno não nos convida a tratar ninguém como matizado. As pessoas são heróis ou vilões, vítimas ou carrascos; às vezes nenhum dos dois, mas nunca ambos.

Quando Roman Polanski, que viveu exilado dos Estados Unidos e seu sistema de justiça durante décadas, foi indicado para o Oscar pela direção de O Pianista, Samantha Geimer pediu que a academia "julgasse o filme, e não o homem".

Ela tem trocado e-mails com Polanski há vários anos.

Diz que a investigação policial, os exames clínicos e as reportagens sobre o caso foram mais traumáticos que o próprio ataque.  Geimer emenda: "Eu fiz uma coisa errada, fui idiota... Posar sem sutiã, beber e tomar a pílula [para dormir]".

É tão fácil é tentador encaixar isto em um escaninho: a autoacusação desorientada e a negação da vítima. Mas essa mulher é inteligente e articulada demais para nós acharmos que entendemos melhor o caso. Ela põe para fora esses pensamentos complexos, juntamente com sua raiva, não porque esteja danificada demais para pensar claramente, mas porque não pode suportar a simplificação excessiva do mundo.

Quando uma terapeuta no programa de Oprah Winfrey explicou que Geimer sofria de "culpa da vítima", Geimer disse que isso era "paternalismo"; quem ousaria ser ainda mais paternal e dizer que não era?

Em O Pianista, Polanski transformou seu conhecimento terrível dos campos de concentração em um ato de expressão artística individual. Em The Girl, Geimer faz o mesmo com seu estupro. É uma resposta poderosa, de ambos. Mas que ligação comum incrivelmente complicada!

É a complicação de que precisamos. As pessoas se tornaram desesperadas para reduzir tudo, incluindo umas às outras, a categorias insensatas de bom e ruim, como se o mundo pode pudesse ser dividido entre as opções Curtir e Descurtir do Facebook.

Quando escrevi sobre as mulheres muçulmanas em Birmingham a protestar contra a proibição do véu, e sobreo argumento de que elas são tão dominadas pelo sistema patriarcal e, por tabela, não podem escolher livremente conforme seu pensamento, muitos leitores perguntaram por que eu defendia o véu. Outros apontaram as diferenças entre cobrir o rosto e mudar de nome de mulher solteira para casada. Foi como se não houvesse espaço para analogia a menos que seja uma comparação direta, nem espaço para palavras sobre o niqab além de "Viva!" ou "Proíbam!"

De maneira semelhante, ansiamos por saber se deveríamos aplaudir ou vaiar a Operação Yewtree, os líderes políticos ou a ideia de bombardear a Síria.

Então, o que se deve fazer com a história de Samantha Geimer? Ela não condena Polanski nem o exime. Ela não culpa a si mesma ou se recusa a examinar-se. Sua voz é forte e complexa. Você não pode simplificá-la, ou a ele.

A batalha atual de Geimer não é com seu opressor original, mas com os repórteres da época e de hoje, os advogados, os psicólogos da TV-realidade e todo mundo que assiste – os quais a objetificaram ainda mais. Ela luta contra a simplicidade redutora. Ela nos obriga a pensar muito, a usar músculos que não devem relaxar.

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