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Crônica / Matheus Pichonelli

Relatos selvagens

por Matheus Pichonelli publicado 12/12/2014 05h47, última modificação 12/12/2014 11h01
Descrentes nos deuses e nos homens, os personagens têm algo em comum: são incapazes de evitar que as tragédias humanas se transformem em hecatombes
Relatos Selvagens

Cena do filme Relatos Selvagens, de Damián Szifron

Enfim fui assistir Relatos Selvagens, filme de Damián Szifron que levou 3 milhões de espectadores aos cinemas da Argentina e se tornou assunto de três em cada três rodas de conversa por aqui. Tanto estardalhaço leva os espectadores tardios, como eu, a uma série de perguntas antes mesmo de entrar na sessão. A primeira, e mais óbvia, é se o filme é mesmo tudo isso. A segunda é o que une as seis histórias paralelas da comédia-drama. A terceira é por que um filme argentino tocou tanto em nós, brasileiros. As perguntas, para minha surpresa, foram mais fáceis de responder do que supunha.

Em primeiro lugar: sim, o filme é digno de todo estardalhaço. E as razões estão relacionadas justamente à segunda pergunta. É justamente o pano de fundo das seis narrativas que amarra histórias tão absurdas como verossímeis. Daí a identificação do público brasileiro, argentino, norueguês ou americano. Todos, de alguma forma, parecem se reconhecer nos personagens de episódios só aparentemente desconectados: a vítima do bullying que resolve se vingar dos algozes, a filha a tentar vingança contra a injustiça sofrida pelos pais, o motorista ofendido na estrada, a vítima da indústria da multa de trânsito, o garoto rico e superprotegido incapaz de lidar com os próprios atos, os noivos em pé de guerra.

Esse pano de fundo é um mundo à beira do colapso e da autodestruição. Nesse barril de pólvora, os personagens estão sempre diante de escolhas definitivas: desmontar a bomba ou mandar tudo para os ares; engolir ou vomitar; oferecer a outra face ou revidar. A escolha, de toda forma, é sempre do indivíduo. Que, diante da escolha de outros indivíduos, se distancia dos consensos e parte para a carnificina.

É como se, quando humilhados e sem espaço para argumentar, não tivéssemos outra opção se não explodir – em alguns casos do filme, literalmente. Não se trata apenas de uma história sobre o triunfo da barbárie sobre razão, mas da extensão da razão até as últimas consequências. O que leva à explosão é o confronto de riscos calculados em todos os detalhes, e não impensados. Os indivíduos ali não são guiados por instintos, e sim por uma ideia comum de mundo. Esse mundo está em desordem e desapegado de qualquer confiança ou arbitragem, seja das relações divinas, familiares, políticas. Não há abrigo, portanto.

Em um dos episódios, o motorista de um carro de luxo, fechado e protegido em um invólucro próprio, ofende, na estrada, o motorista de uma caranga que não dava espaço para a ultrapassagem. Não era qualquer ofensa, mas uma ofensa dupla relacionada à raça e à classe do outro. Não se sabe quem é ou o que pensa o personagem sobre o mundo, mas sabe-se que sua fé na própria máquina, o elemento que o diferencia dos demais, é considerável. Esse mundo próprio de velocidade própria, no entanto, não é inviolável, e isso ele percebe apenas quando estoura um pneu. Como na lenda do coelho e da tartaruga, ele é alcançado pelo motorista da caranga enquanto tenta arrumar, sem jeito, o veículo. O acerto de contas é inevitável – e também simbólico. Aquela beira de rodovia é o estado natural dos homens em estado bruto. Nenhum deles confia em qualquer providência, nem da policia, nem da seguradora, nem de qualquer santo. As diferenças entre eles, portanto, são desafiadas sem qualquer arbítrio, nem moral nem legal. Estão livres, portanto, para matar ou morrer. É quando o diretor parece dizer: a falta de acordos nos transforma em seres primitivos. Não por acaso, o macaco do carro de luxo serve como apetrecho de guerra, como os ossos usados como armas no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Essa sensação de abandono diante de um mundo inóspito está presente nos seis episódios. Neles, os indivíduos são os únicos capazes de escrever, aos pontapés, os desfechos de suas histórias. Não se trata apenas de um mundo em desencanto. A descrença não é apenas com o divino, mas com o humano, e com as instituições humanas criadas para evitar nosso extermínio. Essas instituições ou são ineficazes, caso da polícia inexistente na estrada, ou são injustas, caso do despótico serviço de guincho, ou são corruptas, caso dos investigadores de um atropelamento em Buenos Aires.

Mas o que detonou essa descrença para instalar a desordem? No filme, a resposta é confusa. Parte da explicação está desenhada em um certo cinismo comum a todos os personagens: eles surfam ou reagem à ideia de que tudo na vida pode ser comprado. A vítima do buylling pode, assim, pagar pelo destino dos algozes. O agiota pode comprar a ruína de uma família. O motorista falastrão pode comprar a estrada, e não apenas o automóvel. A prefeitura robotizada pode lucrar desumanizando o contribuinte (que só tem a opção de pagar para não ser multado). Os pais podem comprar a liberdade dos filhos criminosos. E os noivos podem comprar não apenas uma festa de casamento, mas uma projeção de felicidade.

Ao menos no filme, a privatização da vida tem um efeito perverso: cria indivíduos de primeira e segunda categorias. A forma como reagem a isso é o que os diferenciam. Os primeiros, por ironia, são mimados e superprotegidos. Tanto no episódio do casamento quanto do atropelamento, a primeira reação diante do fiasco é correr, aos prantos, para os ombros dos pais. Mas os pais também estão atordoados. Não sabem o que fazer diante de um mundo caótico, injusto, perverso e opressivo. Sabem apenas abrir a carteira. Por sua vez, os cidadãos rebaixados, também incrédulos diante das justiças humanas e divinas, partem para o justiçamento. São heróis, para uns, e terroristas, para outros. Mas não parecem imunes a um destino comum: a incapacidade de evitar que as tragédias humanas se transformem em hecatombes humanitárias.

Nesse sentido, a carnificina de um casamento parece a alegoria perfeita de toda a tragicomédia: para encontrar a essência é preciso se desfazer de todas as cortinas e artifícios. Essa essência, aflorada sobre os escombros de uma passionalidade comprada para apreciação dos convivas, tem a roupa rasgada, a testa estourada e os pés cortados de vidro. O nome dela é compaixão.