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Crônica

Que urso sou eu?

por Alberto Villas publicado 07/05/2015 15h19
A incrível história do vovô italiano que, de repente, virou um urso
Reprodução
Diletto

O urso da Diletto substituiu o velhinho

A notícia bombou nas redes sociais há alguns meses, se espalhou por esse Brasil afora, quase que virou meme. No auge da polêmica, eu fui num programa de TV dar o meu pitaco. Eu, que estava lançando um livro chamado A Alma do Negócio, eu que adoro propagandas e ler tudo o que está escrito nas embalagens. 

Todo mundo ficou meio revoltado quando descobriu que o tal nonno Vittorio Scabin, aquele velhinho boa praça que fazia sorvetes artesanais lá num pequeno vilarejo chamado Sappada, na região do Venetto, era pura enganação. 

A história, contada na embalagem dos picolés Diletto, dizia que nonno Vittorio, um dia, teve de deixar sua propriedade na Itália porque a II Guerra Mundial havia batido à sua porta. Bombardeado, ele foi obrigado a zarpar para o Brasil em busca de dias melhores.  

A história não terminou aí. A embalagem dizia que, um século depois, os netos de Vittorio Scabin resolveram retomar a tradição do avô e fabricar, aqui no nosso patropi, os tais picolés Diletto. Mas não era simplesmente fabricar um picolé qualquer e sair vendendo por aí. 

O pistache verde, por exemplo, acredite, eles foram buscar na região do Bronte, pertinho do vulcão Etna, na Sicília, onde a terra confere a essa semente um sabor único.

E as framboesas, onde é que os netos do nonno Vittorio foram buscar framboesas pra fabricar picolé? Ora, as framboesas são orgânicas e colhidas na Patagônia. 

O Cacau? O cacau é proveniente da Península de Paria, na Venezuela. Em resumo: Fabricar picolés Diletto não é pros fracos. 

Só que, no meio do caminho dessa história toda, havia o Conselho de Autorregulação Publicitária, o Conar, que jogou um balde de água gelada nessa literatura toda. 

Depois de comprovar que a história do nonno Vittorio era pura fantasia, conversa pra boi dormir, obrigou os fabricantes a mudar o texto da embalagem.

Essa semana, quando vi no freezer da padaria aqui do meu bairro, o picolé de Ovomaltine da Diletto, confesso que não resisti. Peguei logo quatro e levei pra casa. Viciado em ler embalagens, lá fui eu saber o que tinha acontecido com o pobre do nonno Vittorio, velho de guerra, já que sua história fora proibida na embalagem.

Que surpresa! O velhinho boa praça desapareceu da história, para dar lugar a um urso. Sim, um urso. Diz a embalagem:

“Seguimos as receitas originais do pequeno urso polar Diletto, que no começo do século passado fazia seus picolés à base de neve no pequeno vilarejo de Sappada, na região dos alpes italianos”.

Sim, está escrito lá, pra quem quiser ler.

Fui direto no Google pra saber que diabo de urso é esse tal de Diletto. O que encontrei foram os oito tipos de urso que ainda existem nesse nosso planeta: O urso-negro, o urso-branco, urso do sol, urso de óculos, urso pardo, urso dorminhoco, urso tiberiano e o simpático urso panda gigante. Nada de Diletto.

Num comunicado, a fábrica se defende. Garante que o limão dos seus picolés é siciliano, que o coco vem da Malásia, a Vanilla de Madagascar, o Pistache vem mesmo da Sicília, o Cacau vem do Togo, o doce de leite vem da Argentina e os palitos são da França, fabricados com madeira da República Checa. Picolé globalizado é isso ai.

Resumindo a história: O picolé de Ovomaltine é irresistivelmente delicioso mas, sinceramente, essa história do urso não me convenceu. 

Então fica assim: Entre esse bando de ursos, sou mais o bom e velho Zé Colmeia, o urso antropomórfico criado por William Hanna e Joseph Barbera, lá nos anos 50. Aquele, meio malandro, que vivia tentando escapar do Guarda Belo para fugir do Parque Jellystone, ao lado do seu fiel escudeiro, o Catatau. Quem sabe para fazer picolés na neve, não é mesmo?

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