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Quase sem palavras

por Rosane Pavam publicado 03/03/2011 16h41, última modificação 08/03/2011 13h39
Oscar: os Estados Unidos daquela noite eram um retrato de seu cinema e de suas pretensões dentro do concerto universal da cultura contemporânea. Um cinema que não reclamava seu destino, nem o explicava, de preferência o revelava combalido. Por Rosane Pavam
Quase sem palavras

Oscar: os Estados Unidos daquela noite eram um retrato de seu cinema e de suas pretensões dentro do concerto universal da cultura contemporânea. Um cinema que não reclamava seu destino, nem o explicava, de preferência o revelava combalido. Por Rosane Pavam

Charles Ferguson não teve dúvidas quando chamado a suceder a apresentadora Oprah Winfrey no Shrine Auditorium de Los Angeles, dia 27. Em seu discurso momentos antes, a bilionária apresentadora observara, com um sorriso, que os americanos corriam ao cinema nas épocas de crise, como a atual, apenas para esquecê-la. Ferguson subiu ao pódio depois de ouvir o que ela disse e, antes de agradecer pelo prêmio que lhe fora concedido na categoria documentário, não hesitou em dar a má notícia. Todos os executivos responsáveis por rachar a economia americana em 2008, denunciados por seu filme laureado, Trabalho Interno, encontravam-se soltos, além disso, bem empregados. Depois de dar a informação bombástica, o diretor agradeceu pela estatueta e se distanciou.
Foi um ato para amadurecer e calar a plateia de gala da apresentação do Oscar, embrutecida pela forma como até então se encaminhava o maior show da indústria cinematográfica americana, em sua 83ª edição, infantil para além dos bons modos. Apresentadores da premiação, os atores Anne Hathaway e James Franco não se continham em sua gritante felicidade, e o indicado a melhor ator, Franco, conforme suspeita hoje a mídia americana, talvez tivesse impulsionado seu estado emocional ao ingerir certas substâncias (ademais, fora o único a citar o bad boy americano Charlie Sheen, astro destituído da série televisiva Two and a Half Men, em uma gag). Sempre alegre e desavisada, Anne Hathaway, estrela de O Diabo Veste Prada, trocou oito vezes de vestido durante a festa, à moda de quem comemora o aniversário no bufê. Nela, como em Franco, estava exemplificado o momento americano a que Oprah aludira.
Os Estados Unidos daquela noite eram um retrato de seu cinema e de suas pretensões dentro do concerto universal da cultura contemporânea. Um cinema que não reclamava seu destino, nem o explicava, de preferência o revelava combalido, mas sempre com algum humor, à espera de uma grande reviravolta final, com a simpatia e a concordância de todos. As fracas piadas proferidas durante o evento – a ponto de o comediante Norm MacDonald, ex-Saturday Night Live, perguntar-se no Twitter se haveria uma greve de roteiristas em curso – evocavam uma grande alegria jovem, preferencialmente representada por celebridades em roupas brilhantes, fabricadas por grifes de bom passado, como Vivienne Westwood e Christian Dior.
A moda parecia ser a grande paixão dos americanos célebres naquele momento, mais preocupados com o que vestir no tapete vermelho do que com o texto destinado à apreciação de um grande público espectador. Mas nem sempre fora assim, algo que percebeu a audiência, sete pontos abaixo daquela do ano passado. O público americano, mesmo o escapista, está habituado a ouvir, nos grandes momentos, as palavras certas, e naquele dia 27 elas apareceram raramente. Quando isso aconteceu foi por meio de experientes como o ator Kirk Douglas, que, aos 94 anos, sem nunca ter levado um Oscar em três indicações passadas, ainda improvisava como nenhum outro rapaz do métier.
Embora no Oscar a moda sempre tenha evocado o poder social da celebridade, em tempos idos ela fora apenas um apêndice para reiterar uma ideia. Mas aqueles responsáveis por encadear o pensamento em um texto, os escritores, talvez tenham migrado para a área onde, pelo contrário, é imperioso um bom corte. E se o americano não sabe ironizar com palavras a própria decadência, quem o fará? No momento em que Oprah mencionava o escapismo como uma característica tão afável e peculiar ao país, Joel Coen, codiretor de Bravura Indômita, olhava para os lados, desconfortável, conforme revelava uma tomada de televisão.
Indicado a dez categorias, a refilmagem dos irmãos Coen para uma obra essencial de Henry Hathaway, de 1969, dera um recado claro sobre aquele grande país destituído de grandeza, cambaleante por reafirmá-la, representado com perfeição por Jeff Bridges, mas descartado como melhor intérprete. O filme, talvez por isso, não tenha levado um prêmio sequer, ao contrário do que ocorrera, por exemplo, com Cisne Negro, no qual a personagem da premiada atriz protagonista Natalie Portman vivera uma personalidade artística em surto. Pior ainda, os irmãos ainda tiveram de suportar que uma edição durante a festa apresentasse os melhores filmes do ano sob a narração em off de Colin Firth em O Discurso do Rei.
Por alguma razão, O Discurso havia sido o eleito da noite, a obra de mais apelo e encanto, o filme com um ator. Ele seria Colin Firth? Na obra do diretor inglês Tom Hooper, de 39 anos, Colin Firth, preterido ao Oscar no ano passado por sua atuação em Direito de Amar, é o gago George VI, que tem de assumir o trono inglês depois que o irmão abdica dele. O interessante no filme é que o despreparado George se lance a falar a seu povo apesar de toda a básica dificuldade de emitir palavras, e que para discursar tenha de receber o auxílio de um australiano insistente ao conquistar sua amizade, sob o risco de a terapia não funcionar.
O terapeuta Lionel Rogue, como o interpreta Geoffrey Rush, de maneira a esmagar seu oponente em cena, está a anos-luz da serenidade sem rumo deste George. Ao interpretá-lo, Colin Firth está perdido em cena, apenas imbuído da mesma maneira de dizer as coisas, e no mesmo tom. Difícil explicar por que encantou a todos, crítica e público, sem qualquer sombra de dúvida, a menos que os tempos justifiquem seu drama pela similitude com os fatos da realidade. Os Estados Unidos acaso precisariam de um rei para discursar, alguém que, contra toda a corrente, os convencesse da existência de um poder familiar, sem questionamentos, a garanti-los no topo?
Naquela noite da premiação todos se revelaram titubeantes e desprovidos do senso célebre de compatriotas demolidores e faladores, como os históricos Mae West, Woody Allen ou Groucho Marx. Em seu tenso discurso de agradecimento, o inglês Firth chegou a mencionar uma dor na região abdominal, colocando a mão sobre a barriga e avisando ao público de que algo poderia acontecer se esse tremor atingisse suas pernas. Ao fim do discurso, ele ainda advertiu que algo nem tão surpreendente poderia acontecer a caminho dos bastidores.
Tom Hooper, o diretor de O Discurso do Rei, bem que tentou ser mais relaxadamente explícito e coerente sobre o alegado acerto de sua escolha artística ao agradecer o prêmio de melhor direção. Contou que, para realizar este filme (antes, ele apenas se destacara nas obras televisivas), recebera uma sugestão de sua mãe. Ela, que é atriz e estava na plateia do Shrine Auditorium, teria conhecido o texto do filme durante uma leitura dramática anos atrás, e aconselhado o filho a agarrá-la. Sempre ouça o que sua mãe tem a lhe dizer, ainda brincou Hooper depois de narrar o caso.
Pois esse diretor, ao revelar gratidão materna, talvez tenha sido o mais fiel representante, entre todos os premiados, da infantilidade que tomou conta das mentes americanas naquele público de Oprah Winfrey. Uma boa mãe, como um bom rei, talvez sejam mesmo capazes de reconduzir quem de direito ao posto pertencido. Curioso que o compositor Randy Newman, vencedor do Oscar pela canção We Belong Together, de Toy Story 3, tenha sido o analista mais sóbrio de seu trabalho, ao dizer com graça adulta que a realidade do prêmio musical teria sido outra se, entre os indicados na categoria, houvesse cinco concorrentes, não apenas quatro.