Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Pintor de personagens

Cultura

Calçada da Memória

Pintor de personagens

por José Geraldo Couto — publicado 31/07/2011 10h44, última modificação 02/08/2011 09h55
Para Edward G. Robinson, ser ator era como pintar: tudo começa com a aparência externa até chegar ao núcleo essencial. Por José Geraldo Couto
Calçada da Memória

Para Edward G. Robinson, ser ator era como pintar: tudo começa com a aparência externa até chegar ao núcleo essencial. Por José Geraldo Couto

“Atuar e pintar têm muito em comum. Você começa com a aparência externa e vai desbastando as camadas até chegar ao núcleo essencial”, dizia o ator Edward G. Robinson (1893-1973). Sabia o que estava dizendo. Feio e troncudo, o ator dominava o palco ou a tela com seu olhar incisivo, sua voz rouca, sua humanidade profunda.

Nascido em Bucareste, Romênia, de pais judeus, Robinson estudou teatro graças a uma bolsa na Academia de Arte Dramática de Nova York. Dali foi para a Broadway, e da Broadway para Hollywood.

Tornou-se um astro aos 38 anos, na pele do gângster de Alma no Lodo (Mervyn LeRoy, 1931). Foi o primeiro de muitos criminosos brutais encarnados por esse homem refinado e cortês.

Mas Robinson só compreendeu “o espírito do novo veículo” ao trabalhar com Howard Hawks, que “sabia a diferença entre o cinema e o teatro”. Com Hawks fez o inesquecível caçador de tubarões maneta de O Tubarão (1932).

Trabalhou com Wilder, Lang e Huston, viveu policiais, cientistas, políticos. Mas seu melhor papel era o do homem comum lançado na loucura e na tragédia, como o bancário e pintor enlouquecido pela amante em Almas Perversas (1945), de Lang.

Teve problemas com o macarthismo e o antissemitismo e perdeu sua coleção de obras de arte num processo dispendioso de divórcio. Em sua última aparição na tela, em No Mundo de 2020 (Richard Fleischer, 1973), seu personagem se despede do planeta devastado ouvindo a Sinfonia Pastoral e vendo imagens exuberantes de natureza. Seu inconfundível esgar parece concentrar toda a amargura e a miséria da condição humana.

Alma no Lodo (1931)

Nesse protótipo dos filmes de gângsteres, Robinson é o impiedoso Rico Bandelli, apelidado de “Pequeno César” pela ambição e falta de escrúpulos com que sobe no mundo do crime na época da Lei Seca. Ajudado pelo parceiro Joe Massara (Douglas Fairbanks Jr.), sua meta é desbancar o chefão supremo Pete Montana.

Pacto de Sangue (1944)

Vendedor de seguros (Fred MacMurray) é seduzido por uma loira fatal (Barbara Stanwyck) e os dois tramam a morte do marido dela para ficar com o dinheiro do seguro. Mas as atitudes dos dois despertam as suspeitas do detetive da seguradora (Robinson). Obra-prima noir de Billy Wilder, baseada em livro de James M. Cain.

O Estranho (1946)

Drama noir de Orson Welles, que encarna um professor universitário de Connecticut prestes a casar com a filha de um juiz da Suprema Corte (Loretta Young). Seu passado obscuro começa a vir à tona com a chegada de um detetive de crimes de guerra (Edward G. Robinson) encarregado de encontrar um criminoso nazista.