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Refogado

Pelos desertos da Califórnia

por Marcio Alemão publicado 17/06/2012 19h23, última modificação 17/06/2012 19h23
Agi como um local, deixei de lado o preconceito e saboreei um ótimo hambúrguer e uma bela lagosta
cactus

As redes de fast-food podem surpreender pela qualidade. Um dos segredos é o uso de boa matéria-prima processada de forma simples. Ilustração: Ricardo Papp

Andei um bocado de carro e de avião na última semana. Estive em Los Angeles, na Califórnia, e adjacências. Bem mais tempo nas adjacências, filmando desertos. O de Mojave, o Parque Joshua Tree e Palm Springs. Palmdale foi a primeira cidade. De lá partíamos todas as manhãs e para lá voltávamos à noite.

Como disse, foram muitas e muitas milhas. Primeira surpresa: nenhum centavo em pedágio. Segunda constatação: eles levam muito a sério o assunto fast-food. Eu sei que você já sabia. Todo mundo sabe, mas ninguém imagina o quanto isso é sério. Não passei por lugares turísticos, tirando Palm Springs. Passei por locais onde nada existe. E onde nada existe, surge um mall cercado de franquias por todos os lados com um estacionamento no meio.

Lembrei-me de nosso país, nos tempos em que a soldadesca entrava mato adentro para “fundar uma cidade”. Uma igreja, uma escola, uma agência dos correios e, dependendo do potencial, uma do Banco do Brasil ou da Caixa. Quer saber? Nada contra igrejas ou escolas, mas algumas lojas e muitas lanchonetes tornam o local mais alegre. Ainda que seja na camada epidérmica.

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Adeptos da teoria da conspiração diriam que a intenção caminha nessa direção: não os deixem pensar, não os deixem se lamentar, questionar. Muitas luzes, muitos luminosos, cores vibrantes e muita gordura. Vamos entupi-los de gordura, obnubilar a capacidade de raciocinarem e não será difícil emplacar mais um republicano.

Não sei se consigo comprar 100% dessa teoria. Boa parte, sim. A sensação mais perturbadora é a de que todos estão de passagem. Portanto, a cidade cenográfica lhes serve bem. A tradição que se cultiva irá acompanhá-los. Ou seja, a catedral dessa gente pode ser o McDonald’s, o Taco Bell e eles estarão na próxima cidade, na próxima parada.

E estando nesse cenário,  o que fiz? Atuei como um local. Altamente recomendado o hambúrguer da rede In-N-Out. Cardápio enxuto, três variações só de carne, algumas possibilidades de customização, fritas e refrigerantes. O tal diferencial competitivo da rede é o frescor dos ingredientes e a montagem do sanduíche na hora. A estufa não existe. Você pede e eles fazem na hora. É muita gente na cozinha e, dizem, remunerados acima da média do setor. Esse estímulo simples funciona. A espera pelo sanduba é pequena e o dito é realmente saboroso. Vamos deixar claro que a comparação que faço é com os demais da categoria. E comparar uma mordida de um In-N-Out burguer com um de estufa é covardia. Uma folha de alface não sobrevive com dignidade dentro de uma caixa por mais de dez segundos.

Red Lobster é outra rede que surpreende pela qualidade dos produtos que utiliza. Você realmente consegue comer uma lagosta do Maine e pagar muito pouco por ela. E uma lagosta grelhada, bem grelhada, é um prato excepcional.

Comigo estavam alguns outros colegas, cheios de preconceitos e que ficaram calados diante da qualidade do que lhes foi servido. Velho truque: boa matéria-prima processada de maneira simples.

Sobre preços vale a pena falar? Comer um rabo de lagosta de bom tamanho, tomar algumas cervejas, beliscar camarões graúdos na entrada e pagar 100 reais, o que te parece?

Mas nem tudo são f lores. Quando tentam ir além da página 5, o resultado adquire ares de catástrofe. Um tal de Fresco vendia-se na placa como especialista em cozinha mediterrânea. O arquiteto fez alguma confusão ou talvez o dono tenha feito e o resultado do ambiente é uma tremenda confusão entre Grécia, Roma Antiga e Pequena Sereia. Lulas de entrada e aqui a primeira comparação com o despretensioso Red Lobster. As do Fresco tinham um “toque” de criatividade equivocada. Ervas secas mascarando o sabor das lulas. Sendo franco, estragando as lulas. Sobre a berinjela à parmigiana que todos pediram como principal, um lixo.

Velho assunto desta página: a referência. Não sei onde o chef comeu sua berinjela. Posso jurar que não foi com a avó que vivia em Parma ou mesmo na CIA – o Cordon Bleu da América que forma bons chefs. Aquilo que nos foi servido era um amontoado de queijo, ricota e algum aroma de berinjela.

Momentos de alta gastronomia? Semana que vem eu conto.