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Tão Gomes

Pedofilia rima com celibato

por Tão Gomes — publicado 22/12/2011 08h01, última modificação 22/12/2011 08h01
O celibato foi inventado no Concílio de Constança, em 1414, o primeiro grande “Woodstock” do catolicismo
PAPA

Papa Bento XVI beija a boca do imã sunita de Al Azhar em montagem feita pela Benetton e que causou revolta no Vaticano. Foto: AFP

Millôr Fernandes tem uma charge exemplar sobre o assunto: um cidadão vira-se para o outro e diz: “… eu tenho 50 anos e nunca tinha ouvido falar em pedofilia”.

Achei fantástica a observação. Talvez porque fosse o meu caso.

Pedofilia, para mim, tinha algo a ver com os pés.

Só mais tarde, talvez porque Deus ou mamãe nunca me matricularam em colégio de padres, vim a descobrir que não era só isso.

Tanto que o assunto está quase diariamente nas páginas da mídia. E não me venham dizer que é da mídia sensacionalista. Os casos de pedofilia são recorrentes até do insuspeito “Osservatore Romano”.

Com pedidos de desculpa que beiram o ridículo, quando não a sem-vergonhice.

Como, 30, 40 anos depois, se desculpar pelo abuso sexual praticado em um garotinho de 10, 11 anos? Com que cara?

Por acaso os senhores que se desculpam avaliam o trauma que a violência contra o menino pode lhe ter causado? Esse crime repercutirá ao longo dos anos, das décadas, até o fim dos seus dias.

Eu estou convencido de que a pedofilia na igreja católica está intimamente ligada à outra questão posta como dogma para a padraiada: o celibato.

Pedofilia (é claro) e celibato (ou, o que é pior, a chamada castidade) não são mencionados em nenhum texto religioso que mereça ser levado à sério.

De vez em quando, Sua Santidade vem com aquela lenga-lenga de pedir perdão… Como  perdoar um estrago irreparável?

Os clérigos prescrevem-se o celibato para livrarem-se do peso de uma família organizada. Desorganizada, é fácil encontrar.

Eu mesmo, no meu DNA, tenho uma forte presença, digamos, religiosa.

Vem do tempo em que, nos ermos do sertão de São Luiz de Cáceres, ali na fronteira com a Bolívia, era comum e rotineiro padres casarem-se.

Casados, continuavam seus trabalhos com homens-de-deus, ministravam sacramentos, do batismo à extrema-unção.

E eram mais respeitados do que os religiosos, mais volúveis, que capturavam parceiras aqui e ali, muitas vezes ajoelhadinhas no segredo do confessionário.

O celibato e a castidade nunca foram colocados na boca de Cristo e de nenhum dos seus apóstolos.

Quanto à alta hierarquia da Igreja, basta uma rápida pesquisada nas estrepolias do papa Alexandre VI.

Pena que seja leitura imprópria para menores de idade.

O celibato foi inventado, como uma idéia ótima (para os padres) no Concílio de Constança, em 1414.

Foi o primeiro grande “Woodstock” do catolicismo (duvido que outros tenham alcançado tanto destaque).

A cidade de Constança foi honrada na ocasião por 346 arcebispos e bispos, 564 abades e doutores além das 7 mil prostitutas que seguiam os padres do concílio.

Isso para não falar nas concubinas, que inúmeros clérigos carregavam como ônus de suas obrigações familiares.

Claro, se dona Maria das Dores, mulher do padre Francisquinho, estivesse com ele, talvez algumas prostitutas, conhecendo o temperamento vigoroso de dona Maria das Dores, não se dariam ao trabalho de viajar até Constança.

Elas ainda se lembrariam daquela noite em que uma celebração virou uma zorra total na casa paróquial.

E que, ao chegar em casa, caindo pelas tabelas, dona Maria das Dores encaminhou o “marido”, monsenhor Francisquinho, ao leito debaixo de porretadas de pau-de-macarrão.

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