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Peça infantil faz merchandising de Veja e de pasta de dentes

por Dib Carneiro Neto — publicado 01/10/2013 11h55, última modificação 01/10/2013 14h19
No palco, o ator diz ao outro: “Você viu a nova edição de ‘Veja Comer e Beber’? ” E mostra a capa da revista para a plateia. Por Dib Carneiro Neto
Divulgação
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Elenco de Zuzubalândia, em cartaz em um teatro que fica dentro de um shopping paulistano

“Babado forte no teatro para crianças. Saí escandalizado e chocado do Teatro das Artes ontem, no Shopping Eldorado, onde está em cartaz uma superprodução caprichadíssima chamada Zuzubalândia. No meio da trama (bem, a dramaturgia é pífia, pois o forte é o show), um ator diz para o outro: “Você viu que saiu a nova edição de ‘Veja Comer e Beber’? Você pode consultar e saber de tudo sobre comida!” E mostra... a capa da revista para a plateia. Mais adiante entra em cena um balde cheio de escovas de dente e a logomarca enorme Colgate – e todos escovam seus dentinhos no palco...

Vamos refletir sobre isso, por favor! Eu sei o quanto é difícil levantar hoje uma boa produção teatral, eu sei que sem patrocínio fica quase impossível, mas MERCHANDISING assim tão explícito em peça infantil é passar dos limites éticos – ou estou errado? Esse mercantilismo não pode subjugar a arte de forma tão avassaladora, santo Deus. Era só o que me faltava. Vendam a alma se quiserem, mas no saguão do teatro, não no palco sagrado em que o público mirim está aprendendo o valor das metáforas, a força das simbologias cênicas, o valor da poesia, do humor e da emoção, o sentido da ética. Please, vamos boicotar Zuzubalândia? Palavras de um crítico em estado de choque até agora.”

Este foi o comentário que pistei em minha página no Facebook no último dia 22 de setembro. A repercussão foi grande para os parâmetros de minha modesta atuação nas redes sociais: quase 400 compartilhamentos.  As pessoas da classe teatral não se contentaram em apenas ‘curtir’. Também compartilharam da minha indignação. Sem contar os apoios que recebi em mensagens particulares. Recebi até telefonemas da equipe do Instituto Alana, entidade sem fins lucrativos atenta à autorregulação da publicidade no Brasil, especialmente na publicidade voltada às crianças.

Não sei se após a repercussão as cenas serão tiradas da produção. Se aconteceu, cumprimento-os. Caso contrário, sigo lamentando tamanho equívoco persistente. O brilho de tão caprichada produção não deveria ser prejudicado assim por tão grave deslize da área comercial e de marketing, que afeta sobremaneira a parte artística.

Fico extasiado quando constato o bom uso que é possível se fazer das redes sociais. Que outro canal tão eficiente, amplo e abrangente temos hoje no globalizado mundo virtual? No geral, ainda prevalecem as futilidades e o ‘jogo rápido’. Os internautas têm pouca disposição, tempo e paciência para ‘posts’ muito longos, discussão de ideias, leituras demoradas. Por isso, fiquei tão satisfeito com o debate iniciado ali a partir de meu comentário indignado. E, sobretudo, por mobilizar de alguma forma a tão pouco prestigiada classe de artistas do teatro para crianças e jovens. Quem, na mídia impressa, ainda se importa com a cobertura séria e constante desse segmento? Um sinal disso é que nenhum jornal me ligou para repercutir o caso, apenas este site, o da CartaCapital – virtual, sempre virtual – me convidou a escrever este artigo.

Vendas no saguão

Algumas pessoas da classe artística foram ainda mais radicais, criticando a frase em que sugiro que vendas no saguão do teatro seriam toleráveis, mas nunca no palco e no meio da peça! Para esses, vender produtos no saguão também é condenável e prejudicial ao teatro. Aprendi com o tempo a ser um pouco mais tolerante com isso, pois vejo de bem perto o quanto é difícil produzir bom teatro nos dias de hoje, sem a figura presente dos patrocinadores. Por isso, se a justificativa é conseguir manter a produção de pé, afagando os mercantilistas com uma ‘barraquinha’ armada na saída, tudo certo: vale pela sobrevivência dos grupos, que precisam de verdade viver, comer, morar.

Minha bronca é mesmo quando a coisa se dá no palco. Isso para mim é ferir a fantasia, o sonho, a magia, a imaginação, o sentido da arte. A televisão já adotou o merchandising há tempos, inserindo falas surreais sobre os produtos, na boca dos personagens das novelas, dos seriados, dos programas em geral – inclusive os infantis. Mas como não se escandalizar quando isso começa a ocorrer em um palco sagrado, sob os olhares do deus Dioniso? Há que se zelar por certos limites, e acredito que esse é um dos meus papeis como crítico ativo e militante dessa área desde os anos 1990.

Sorteio de produtos

Houve um tempo em que era comum sortear produtos do patrocinador ao fim de cada espetáculo, mesmo os adultos. Ou seja, os atores não estavam mais ‘incorporados’ por seus personagens, mas ainda pisavam no mesmo palco em que estiveram atuando com todas as simbologias e as metáforas e as fábulas que afagam nossa imaginação. Pra quê esse banho de realidade comercial logo em seguida? A frustração das crianças que não eram contempladas no sorteio quase sempre as fazia ir para casa pensando nisso, e não mais no clima proposto pelo espetáculo.

Escrevi sobre isso em meu livro Pecinha É a Vovozinha: “As Armadilhas da Hora do Sorteio: Há quem não seja tão rigoroso com relação a esse aspecto, mas realizar sorteios de produtos no final dos espetáculos é um desvirtuamento da função do teatro, é um mercantilismo desnecessário. A criança tem de levantar do assento concentrada no que viu, na arte que desfilou pelo palco o tempo todo, e não preocupada se o número de sua poltrona vai ser o sorteado para ganhar os brindes. O patrocinador não pode dar a palavra final nessa questão. Um mínimo de sensibilidade e ele poderá entender que teatro não é programa de auditório.”

Muita gente me alertou para o fato de que, raramente, muito raramente, o patrocinador de teatro exige a presença do produto em cena. Dificilmente o dono da grana influenciaria de um jeito tão direto e invasivo o produto artístico final. Ou seja: é bem provável que tenha sido ingenuidade da direção artística de Zuzubalândia. Ingenuidade, despreparo, desastrosa ‘boa’ intenção... enfim, alguém teria errado pensando estar acertando. Decididamente, não é orgulho e honra para ninguém interromper as reinações de Narizinho, as estripulias de circo, as peripécias do lobo mau, o casamento da dona baratinha, para ‘vender’ produtos em cena. Isso não pode virar regra no teatro, muito menos no infantil, como já virou na televisão. Pegando carona no que me escreveu uma atriz, “escolhemos nossa profissão, nossa arte, e temos que honrá-la”.

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*Dib Carneiro Neto é jornalista, dramaturgo, crítico de teatro infantil e colunista semanal do site da revista Crescer (ed. Globo)