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Evento

Para nerds heterossexuais brancos ouvirem

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 30/10/2015 15h00, última modificação 30/10/2015 15h00
Em São Paulo, o Encontro Irradiativo não terá nenhum homem branco heterossexual como palestrante
Lais Faccin

Nos dias 7 e 8 de novembro, na Biblioteca Viriato Corrêa da Vila Mariana, em São Paulo e com o apoio da Prefeitura, ocorrerá um evento cultural inédito. O Encontro Irradiativo propõe “celebrar e discutir a diversidade e a representatividade na literatura especulativa brasileira e na cultura pop porque as naves espaciais e o outro lado do espelho devem pertencer a todos”.

Nas cinco mesas de debate a serem apresentadas, serão discutidos “Os motivos do Manifesto Irradiativo”, “Representação para crianças e jovens”, “Os malefícios dos estereótipos”, “Por que nerds são preconceituosos” e “um balanço da diversidade na cultura pop brasileira”.

Além disso, haverá uma workshop sobre escrita literária, uma palestra sobre mitos e heróis africanos, um minicurso virtual sobre “Como escrever personagens trans”, um desfile de crossplay (cosplays com personagens diferentes do intérprete em gênero, raça, biotipo e aptidões físicas) e uma exposição de desenhos de mulheres nerds. 

Nem um só dos palestrantes e expositores, vale notar, será um homem branco heterossexual. Isso não significa que não sejam bem-vindos nas plateias ou como alunos. A proposta é fazer desta uma oportunidade para eles ouvirem e as minorias falarem e dar oportunidade a uma verdadeira diversidade de visões da cultura capaz de romper com o pensamento hegemônico.

A tradicional e normativa hegemonia masculina, branca e heterossexual na cultura, no cinema, na literatura, nos quadrinhos e nos videogames, tanto como criadores quanto como protagonistas da ficção, é cada vez mais questionada e neste ano de 2015 o debate chegou, ao menos no tocante à ficção científica e de fantasia, a um ponto de ebulição.

Nos Estados Unidos, a mais famosa premiação para esses gêneros, os Hugo Awards, tornaram-se alvo de uma guerra cultural declarada. Nos últimos anos, alguns desses prêmios foram concedidos a mulheres e não brancos e histórias que envolvem feminismo, diversidade sexual e cultural e outros temas “de esquerda”.

Bastou para dois grupos de fãs conservadores, Sad Puppies e Rabid Puppies, este último capitaneado por um editor assumidamente de extrema-direita, se rebelarem contra os prêmios “politicamente corretos” em nome dos “bons e velhos” bangue-bangues espaciais e aventuras de espada e magia protagonizados por másculos astronautas e guerreiros nórdicos ou anglo-saxões, supostamente mais divertidos e “isentos de ideologia”, embora seja óbvio como reproduzem uma ideologia tradicional.

Esses grupos organizaram entre os quase seis mil jurados (participantes da última World Science Fiction Convention que pagaram uma taxa de US$ 40) uma campanha pela rejeição de tais obras e voto concentrado em listas indicadas por eles.

Como o número de obras em inglês é muito grande, a pulverização das candidaturas torna possível a uma minoria focada impor suas preferências no primeiro turno, de janeiro a março, no qual são indicados cinco favoritos em cada categoria. Os Puppies falharam em 2013 e 2014, mas em 2015 mobilizaram votos suficientes para pôr suas escolhas na maioria das listas e dominar totalmente algumas delas.

Desataram-se polêmicas ferozes entre os aficionados nas redes sociais e no segundo turno, de julho a agosto, a maioria votou sistematicamente contra as indicações dos Puppies e, nas categorias onde faltavam alternativas, votar em “Sem Prêmio”. Pela primeira vez, cinco dos 15 prêmios não foram concedidos, inclusive alguns dos mais importantes e tradicionais, como “Melhor Conto”, “Melhor Novela” e “Melhor Editor”.

De todas as suas indicações, a única a ganhar um prêmio foi a de filme de longa-metragem, “Guardiães da Galáxia”. A ala progressista comemorou e os Puppies saíram frustrados, mas ameaçam vir com ainda mais força em 2016 e desafiar a comunidade a negar prêmios a todas as categorias.

No Brasil, esses gêneros da ficção ainda são comparativamente incipientes, são poucas as editoras e não existe uma organização de fãs além do Clube de Leitores de Ficção Científica, pouco mais que uma comunidade de Facebook com algumas centenas de integrantes e um Prêmio Argos de nenhum impacto. 

Nem por isso o mesmo debate deixa de existir e gerar frutos interessantes. Em janeiro, dois autores de fantasia e ficção científica, Jim Anotsu (pseudônimo de um jovem escritor mineiro negro) e Alliah (escritor/escritora e artista trans de gênero fluido) publicaram o Manifesto Irradiativo por “uma explosão de diversidade—para deixar os dinossauros do preconceito, do discurso de ódio, e da ignorância, reduzidos a pó em seus estratos fossilizados; e abrir espaço para uma irradiação de novas criações”.

Mesmo no relativamente estreito universo da ficção científica e fantástica brasileira, não é o primeiro manifesto literário e artístico. Já houve em 1988 um “Manifesto Antropofágico” contra a influência anglo-americana e em 2007 um “Manifesto Pulp” contra o suposto “academicismo” da ficção científica brasileira e em favor de aventuras mais simples e comerciais, em termos hoje curiosamente reminiscentes das queixas dos Puppies. Este, porém, é o primeiro a resultar em mais que um pedaço de papel e um punhado de contos mais ou menos dentro de sua proposta para dar origem a um trabalho cultural mais amplo e o primeiro a ter potencial de atingir mais do que um acanhado círculo de aficionados e saudosistas.

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