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Os filmes inesquecíveis de 2011

por Matheus Pichonelli publicado 30/12/2011 16h15, última modificação 06/06/2015 18h56
Matheus Pichonelli faz sua lista de filmes favoritos ao longo do ano, e comenta suas duas maiores decepções
Poesia

Mija, personagem de Jeong-hee Yoon no belíssimo 'Poesia'

Machado de Assis escreveu certa vez que o melhor drama está no espectador e não no palco. Pode ser. Mas há humores que não resistem a duas horas de tramas ruins, e outros que não se esgotam em uma única sessão. Pedem para que sejam revistos de tempos em tempos – e, quando notamos, entram numa espécie de museu de arte e som da existência.

Entre tantos filmes de 2011, ano que deu a “O Discurso do Rei” o melhor Oscar de melhor filme em muitos anos, pelo menos três histórias merecem ser levadas para a vida toda.

A primeira é “Poesia”, drama sul-coreano dirigido por Chang-dong Lee e que deu a Mija, personagem de Jeong-hee Yoon, o rosto de uma humanidade disforme, quixotesca, que busca beleza onde só existe cinismo, morte e alienação.

Mija, ao lado de Grace, de “Dogville”, tornou-se personagem símbolo de um cinema combativo, que foge ao papel de poeta de um mundo caduco, injusto, idiotizado. Com aparentes 60 anos, a personagem carrega a certa altura da vida uma vontade e uma vocação. Quer aprender poesia – porque gosta de flores e coisas estranhas – e colorir a rotina, talhada na obrigação de sustentar a casa. Na vida real, o dinheiro extra vem de serviços domésticos, da faxina aos cuidados com idosos que precisam tomar banho, serem limpos e mimados.

Nada muito poético, mas tudo vale para dar uma vida minimamente confortável ao neto Jongwook (Da-wit Lee), símbolo da ingratidão juvenil. Emburrado e amargurado, ele mal fala com a avó, ocupado que está com o videogame e os programas populares da televisão, dos quais não desprega os olhos nem quando come.

Um dia, Mija é procurada pelo pai de um amigo de Jongwook. Descobre, então, que o neto, junto com um grupo de amigos, estuprou uma colega de classe que acaba de se matar. E sugere que Mija participe de uma vaquinha, feita entre os pais dos acusados, para comprar com dinheiro o silêncio da escola e dos familiares da vítima.

A distância entre a vida real (o estupro, o crime, a chantagem, o cinismo) e o ideal (a beleza poética das coisas simples da vida) emperra o objeto transcendental, presente na própria rotina, e, como ensina o professor de literatura do centro cultural, está guardado na casca de maçã ou nas lembranças da primeira infância.

A cena em que os alunos de poesia, todos já com certa idade, passam a se lembrar dos momentos mais marcantes de suas vidas na frente da sala de aula vale ser vista, revista, guardada e lembrada. É o contraste nítido de uma geração que dá lugar a outra, em outras salas de aula. Uma geração mais conectada, mais próspera, mas também aparentemente mais cruel, insensível, desumana.

É uma porrada.

Como é uma porrada o já inesquecível “Homens e Deuses”, filme de Xavier Beavois sobre o drama (real) de monges franceses católicos ilhados em uma Argélia prestes a mergulhar numa guerra fratricida entre fundamentalistas islâmicos.

O equilíbrio entre os religiosos e a comunidade, notadamente muçulmana, é quebrado por uma guerra que tem em Deus (ou Alá) apenas um álibi.

O longa correu todos os riscos de cair num discurso religioso, que fatalmente descambaria num Fla-Flu entre Cristo e Maomé. Mas não caiu em tentação.

Pelo contrário, sugou o elemento humano com maestria rara, e produziu personagens e cenas memoráveis – como quando o líder Cristhian, personagem de Lambert Wilson, usa palavras do próprio Alcorão para impedir que um guerrilheiro invada o monastério em pleno Natal. Ou quando o médico do monastério confessa sua incapacidade de lidar com as novas doenças surgidas na comunidade a partir da guerra civil: as crises nervosas, as depressões, o pânico.

A teimosia dos monges em seguir o trabalho comunitário e a missão é o que faz de “Homens e Deuses” (lançado em 2010 e distribuído no Brasil neste ano), uma pequena obra-prima sobre a perseverança e a fé.

Por fim, vem da Argentina a maior surpresa do ano. "Medianeras", de Gustavo Taretto (Leia mais ), é provavelmente o filme que conseguiu captar melhor as neuras dos tempos modernos. Um período em que não apertamos mais parafusos, mas sim botões, que nos possibilitam viver conectados com tudo e ao alcance de serviços de todo tipo. Não sem consequências.

Baseado em Buenos Aires, o filme tem como narradores dois personagens quase vizinhos que se esbarraram a todo instante e não se conhecem, apesar do tanto que têm em comum.

Martín e Mariana são frutos de uma geração em conflito, conectada e solitária, angustiada por viverem em meio a tanta informação, tantas referências, mas sem grandes causas para defender a não ser dar fim à solidão e aos desajustes do próprio corpo (frígido, mal dormido, mal alimentado) em meio a uma cidade desordenada, restritiva, claustrofóbica – embora imensa. E que combatem as próprias aflições à base de remédios ou encontros fortuitos, fugazes, imediatos. Tudo filmado com uma delicadeza comovente.

Se é difícil escolher três entre tantos belos trabalhos lançados por aqui ao longo do ano – “Cisne Negro”, “”, “”, “”, “”, ” (leia mais clicando nos links) – as duas decepções são quase óbvias.

A maior delas foi, sem dúvida, “A Pele Que Habito” (Leia mais ), o pior filme já feito por Pedro Almodóvar – que fez rir quando tentou fazer chorar e não conseguiu imprimir sua marca no medalhão Antonio Banderas, tão encantador no longa como uma sola de sapato velho. Uma história que, ao recriar uma vagina no algoz, se propôs a falar de dilemas médicos, do medo da perda e da morte e da justiça pelas próprias mãos. Soou tão exótico como se o diretor resolvesse rodar um western – em vez da ficção científica de baixo calibre que se tornou o filme.

Outra baixa foi “Meu País” (), aclamado filme de estréia de André Ristum, que contava com elenco de peso, mas que se perdeu na própria pretensão – essa mania de tentar explicar os dramas familiares, e nacionais, por caminhos óbvios – e que tem como único destaque Rodrigo Santoro, uma ilha de excelência engolida pela fala travada, e nitidamente decorada, de Cauã Cigano Igor Reymond.

Vai ver as decepções sejam só mau humor de dias ruins. Fato é que listar um terceiro longa-decepção já custou mais de um minuto (e nenhum nome veio de prontidão). O que é bom sinal: citamos de cabeça os melhores momentos, e o que tinha que ser esquecido já o foi. O balanço em 2011 fecha no azul.