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Cannes

Onde os fracos não têm vez

por Orlando Margarido — publicado 24/05/2015 18h38
Pode-se atentar a alguma falta, mas as escolhas do júri dos Coen privilegiaram os mais fortes
Cannes/Divulgação Facebook
Cannes

O director Jacques Audiard posa ao centro com o prêmio

Houve atenção ao cinema de urgência, social, reflexivo e também abertura a fantasia. O partido estético e sofisticado não foi, em oposição, condenado em prol da narrativa realista, de engajamento a um contexto social. Difícil remarcar alguma falta na premiação de Cannes anunciada a pouco pelo colegiado de Joel e Ethan Coen. Os irmãos deram um exemplo de consciência do bom cinema, em seus mais variados tons e registros, e surpreenderam com uma visão não centrada na origem americana, cinéfilos que são.

Apenas um prêmio está diretamente vinculado a Hollywood, o da atriz Rooney Mara, ainda sim dividido ex aequo com a francesa Emmanuelle Bercot. De modo indireto, também se pode considerar o filme de Michel Franco, melhor roteirista por Chronic, um reconhecimento para a casa dos presidentes do júri, pois produção americana. No mais, eles abriram os olhos para uma produção diversificada e atual.

Atualidade que parte não apenas de um tema que é premente aos franceses e a Europa como um todo, iluminado com a Palma de Ouro a Deephan. A imigração é a pedra de toque do filme de Jacques Audiard. Ao reconhece-lo com o prêmio principal em sua força tanto dramática como de gênero, entre o humanista e o social, o júri antecipou com argúcia um talento do cinema local que talvez incorresse num vácuo futuro caso não fosse destacado neste momento.

Audiard é realizador potente e já mostrou isso ao menos em dois filmes anteriores, O Profeta Ferrugem e Osso. Tem boa mão para tratar com assuntos e registros diversos. Deephanpode não ser perfeito, mas em seus excessos também contribui para uma reflexão dos estímulos e valores da violência, supostamente diversos entre culturas distantes, mas que se aproxima no resultado.

Se a presidência dupla afastou qualquer fantasma maior de um olhar americano, talvez a consciência judaica até poderia ser levada em conta ao premiar Saul Fia, ou filho de Saul, trato do holocausto a moda húngara, ou seja, lúgubre e sem abertura a luz. Mas o filme tem rigor e força suficiente, quanto mais se tratando de um diretor estreante, para validar o reconhecimento. Foi uma das grandes, e talvez única, surpresa desta edição.

Em contraponto, nada melhor para atentar a sensibilidade do colegiado a um conceito artesanal e sofisticado de um cinema de culto como é o do chinês Hou Hsiao Hsien. Da mesma forma, ainda que com um flerte com a produção americana, The Lobster, se opõe a noção tradicional americana ao se apresentar como fábula distópica por um dos mais excêntricos e criativo realizadores do momento, o grego Yorgo Lanthimos.

Não menos irônico é a postura que derruba toda uma crítica perpetuada durante o festival contra o excesso da representação francesa. Além do prêmio principal, o aval a Vincent Lindon e Emmanuelle Bercot como melhores intérpretes pinçaram o que havia de mais valoroso numa safra fraca, quando não constrangedora.

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