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Crônica / Matheus Pichonelli

Obrigado, São Paulo

por Matheus Pichonelli publicado 09/05/2014 13h09, última modificação 04/05/2015 14h11
“Quem sobrevive aqui sobrevive em qualquer lugar”, me diziam quando cheguei. Durante 12 anos eu sobrevivi. E vivi. Mas hoje me despeço
Diego Torres Silvestre/Flickr
São Paulo

Vista à noite do Parque Ibirapuera, um dos cartões-postais de São Paulo

Foi mais ou menos como na música de Gil e Caetano: no dia em que eu vim-me embora, minha mãe chorava em ai, meu irmão chorava em ui, e eu nem olhava pra trás. Ela veio até a porta, ele, até a rua, e até a rodoviária veio meu pai - que também não disse palavra durante todo o caminho. Na rodovia Washington Luis, quando eu me vi sozinho, vi também que não entendia nada. Nem de pro que eu ia indo. Nem dos sonhos que eu sonhava.

Sentia apenas que a mala, de material sintético, me causaria uma saia-justa em um metrô lotado, pois tiraria o espaço de dezenas de passageiros. Tudo meu estava naquela mala, menos o essencial. Daí o alívio quando vi uma prima de minha mãe na área de desembarque. Era nossa única conhecida na maior cidade do País, e na casa dela fiquei por mais ou menos um mês, até alugar um kit-nada na avenida Paulista.

A dona tinha um apartamento de um quarto, uma sala e um banheiro que, na época, alugava por 750 reais. Para incrementar os rendimentos, meteu uma parede no meio e alugou para dois inquilinos diferentes por 500 reais cada. Morei assim durante meses em um apartamento de meio-quarto, meia-sala e meio-banheiro. O fogão ficava ao lado da cama e o meio-banheiro nem janela tinha. O meio-espaço era dividido com um amigo por inteiro da faculdade, de Porto Feliz. Depois veio outro amigo, e nos mudamos no ano seguinte para um apartamento no andar de cima, da mesma dona. Me mudaria outras duas vezes, e dividiria as contas com mais de 20 pessoas ao longo dos últimos 12 anos.

De manhã, cursava jornalismo. À tarde, ciências sociais. No começo, não gostava de nada. Nem da fala monocórdica dos professores nem do bandejão nem dos ônibus lotados nem do cheiro da marginal Pinheiros ao meio-dia nem do café que tive de aprender a fazer na marra para me manter acordado.

E não gostava, sobretudo, de ficar longe de quem eu queria por perto.

Naquela época eu namorava uma menina da minha cidade, Araraquara, e isso me obrigava a voltar para casa todo fim de semana. Era um problema, pois tinha aula aos sábados. Para poder viajar logo na sexta, assistia às aulas de sábado durante a semana na turma da noite. Assim, eu fazia um curso de manhã, atravessava a cidade para as aulas de outro curso, e à noite voltava para a primeira faculdade para adiantar as aulas que não poderia assistir no fim de semana. Tudo se complicou quando arrumei um estágio no site da Gazeta Esportiva e comecei a trabalhar à noite.

As aulas na sexta-feira terminavam às 11h30 e eu não tinha compromisso à tarde a não ser voltar para a minha cidade. Às 12h30, uma hora exata após o fim da aula, estava dentro do ônibus. Chegava à estação esbaforido. Comia algo no caminho ou nem comia nada. A hora do almoço era uma hora a menos na vida.

No começo, nos comunicávamos por meio de cartas. Não havia computador em casa. Internet com roteador era ainda artigo de luxo em 2002. Aos 19 anos, resolvi ceder. E criei uma conta de e-mail. Antes e ao fim das aulas, lia e respondia os e-mails de bom dia e de boa noite como quem busca uma mensagem em uma garrafa lançada ao mar. Era como a gente vivia naquele início de século (não achei que fosse escrever isso um dia).

Para viajar toda sexta, passava a semana no aperto. Não sobrava dinheiro para o cinema nem para o bar. Era uma contradição: na metrópole, minha vida se encolhia, pois passava a maior parte do tempo em ambientes exíguos. Ou estava trancado em um meio-quarto, ou na sala de aula, ou nos corredores de ônibus e do metrô, os escritórios improvisados onde eu rabiscava os textos xerocados e os livros dos meus autores de cabeceira: João Guimarães Rosa e Ignácio de Loyola Brandão.

O primeiro me abria os caminhos no sertão; o segundo, araraquarense como eu, os caminhos da cidade grande, que um dia ele também estranhou e se encantou. Graças a eles comecei a gostar um pouco mais da cidade que até então só me estranhava.

Com a indicação de um amigo, me matriculei um dia num curso sobre os contos de Guimarães Rosa na Fundação Padre Anchieta. Era a gravação do programa Grandes Cursos Cultura, e foi ali, à beira da avenida Tiradentes, que me senti verdadeiramente feliz por estar em São Paulo: o sertão também estava ali, magistralmente expressos na voz do professor do curso, o também músico José Miguel Wisnik.

Com o Loyola eu esbarrei algumas vezes. Assisti certo dia a um debate com a participação dele na Bienal do Livro e, da mesma forma, me senti feliz por estar ali toda vez que ele pronunciava a palavra “Araraquara”. Somente daquela maneira minimizava um desconforto que me cutucava diariamente: em São Paulo, eu era um estrangeiro, em Araraquara, um visitante. Era como não ter casa. Ao ouvi-lo falar, imaginava um diálogo indireto: “deixe de bobagem, rapaz, a gente sai da nossa cidade, mas a nossa cidade não sai da gente”.

Aos poucos, porém, deixava de ser de onde eu vinha. Fiz amigos na capital. Muitos. Os melhores que alguém pode ter. Com eles criei referências. Raízes. E já não tinha tanta gana em voltar. Já aceitava saber como era um sábado na metrópole, o que no início me parecia tão atraente como passar um dia de sol em uma garagem de prédio. Os finais de semana em São Paulo não tinham cheiro de churrasco nem areia à beira do lago. Mas tinham o Parque Antártica, onde assisti a um jogo do Palmeiras na capital pela primeira vez (vitória sobre o Fluminense, por 3 a 2, com um pênalti defendido por Marcos e dois gols de Alex, meu ídolo).

E foi na janela do apartamento da Paulista que eu saí gritando feito louco quando, mal o dia tinha amanhecido, o Ronaldo Fenômeno, ainda Ronaldinho, colocou o Brasil na final da Copa do Japão e da Coreia com um gol de bico contra a Turquia. A comemoração foi parar, claro, na Paulista, e só interrompemos a festa para entrar na aula. (Uns amigos foram além: resolveram dar a volta olímpica no Stand Center, antigo conjunto de lojas administradas por coreanos na Paulista, para comemorar a vitória da Coreia do Sul sobre a Itália naquela Copa).

Aos poucos São Paulo ganhava gosto: o dog prensado com queijo e purê de batata, o shimeji dos japoneses que ainda não existia no interior, o ravióli com limão siciliano do Bexiga, o joelho de porco do Bar do Alemão, a bisteca do Sujinho, a maionese do Hamburguinho, a empanada do El Guaton, a pizza da Urca, o bolo de crocante do Santa Papa, que nem existe mais. E as cervejas (muitas) que tomávamos ao fim do expediente, e que nos levavam a ficar na rua até as quatro da manhã dia sim, dia não. O mundo, então, se alargava. Eu não sabia o que era uma livraria até entrar pela primeira vez na Livraria Cultura. Pouco depois, ganhei meu lugar favorito na Terra: os cinemas do circuito Paulista-Augusta, onde tantas vezes me agarrei ao banco para não me derramar em seus corredores – e onde conheci praticamente todos os meus cineastas favoritos.

Em São Paulo me humanizei e me desumanizei. Aprendi a cumprimentar o vizinho sem saber seu nome, seu cargo ou a sua profissão. Compreendi a dimensão de tempo. Ou desaprendi: quando alguém passava mal no caminho do trabalho, eu quase nunca podia oferecer nada a não ser bons pensamentos: as horas marcadas me faziam andar, olhar o relógio, correr, bater o ponto. Mas aproveitei até o limite o conforto do anonimato: nos ônibus lotados ou nas filas dos supermercados 24 horas, ninguém tinha tempo nem espaço para reparar nas minhas camisas amarrotadas, meus cabelos despenteados, meu jeito de andar torto. Eu era mais um e éramos muitos. O peso das minhas escolhas, a maioria tão condenáveis, não produzia qualquer assombro àquela multidão disforme ocupada com outros planos.

Mais do que tudo, foi em São Paulo que encontrei as portas abertas para o que eu mais queria: escrever. Nos jornais, portais ou revistas em que trabalhei, aprendi por osmose a escrever histórias, reais até onde eu sei, com começo, meio e fim. Ainda nos tempos da Gazeta, via meu amigo Daniel Fernandes ao telefone e me perguntava se um dia conseguiria fazer igual: conversar com pessoas que não sabem quem sou nem de onde eu vim, e ainda assim convencê-las a me contar um segredo. O nome disso é apuração, descobri, e nela cai e tropecei muitas vezes. Numa delas, ele, já veterano entre nós, embora ainda jovem, me chamou num canto e deu duas ou três puxadas de orelha que me valeram para a vida inteira: “não tenha medo de perguntar”, “não saia por aí escrevendo o que dá na cabeça”, “as pessoas estão lendo”, “não dá pra fazer literatura em dois parágrafos”, “presta atenção aonde você vai”, “cita as fontes de onde você leu”.

Como ele foram muitos. A cada puxada de orelha, me surpreendia que fosse justamente em São Paulo, até então uma referência da frieza humana, a cidade onde a solidariedade entre amigos, vizinhos, chefes, colegas e leitores era mais legítima. E que o fato de o vizinho não saber meu nome não significava absolutamente nada. É que a escassez de tempo descarta delongas. E é por isso que de vez em quando te arremessam a camisa dez e dizem apenas: “te vira”. E você se vira porque não te deram a outra opção. Não era só a educação pela pedra: era pela pedra, pelo concreto, pelo asfalto e pelo ranger dos escapamentos, pelos ponteiros das horas. São Paulo não me abriu porta alguma: São Paulo era a porta. E eram muitas. Foi a única cidade do mundo que me disse: cresça e apareça, mas repara bem no seu tamanho em meio a isso tudo.

“Quem sobrevive aqui sobrevive em qualquer lugar”, me diziam os que também vinham de fora.

Não sei se é verdade. Sei que durante 12 anos eu sobrevivi. Mais do que isso: eu vivi. Vivi apesar do cansaço, apesar do custo de vida e apesar dos metros quadrados. Mas continuei viajando sempre que possível. E foi em outra cidade do interior, na metade do caminho entre São Paulo e Arararquara, que resolvi ter uma família. Foi no interior que me casei. Foi no interior que nasceu meu filho. E é no interior que pretendo ficar até que ele caminhe sozinho.

Por sorte ou azar, criei aquela conta de e-mail no já distante 2002. Por meio dele seguirei enviando essas letras para o site de CartaCapital a partir de alguma mesa sob um céu claro e sem fumaça. Até segunda ordem, São Paulo agora é o meu lugar de passeio. O meu lugar dos meus lugares favoritos. Ou, parafraseando Drummond sobre a sua Itabira: “São Paulo agora é só um quadro na parede. Mas como dói”.

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