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O sedutor tímido

por Orlando Margarido — publicado 03/09/2010 11h29
A Itália celebra a falta que Vittorio Gassman faz

A Itália celebra a falta que Vittorio Gassman faz

Na última quarta-feira, se vivo, Vittorio Gassman completaria 88 anos. Mas faz uma década que um dos atores mais reverenciados da Itália morreu e é natural que recebesse uma homenagem do Festival de Veneza. Esta ocorreu na noite anterior de seu aniversário e da abertura oficial da 67ª edição da mostra, na forma também coerente de exibição de uma de suas mais populares e famosas interpretações, em Perfume de Mulher (1974).

Era todo particular o local de tal lembrança. Uma arena montada no centro histórico de Veneza recebeu mais de 200 pessoas. Os espectadores acompanharam a cópia nova do clássico de Dino Risi, diretor de filmes essenciais encenados pelo ator, como Il Sorpasso. Apresentou o evento o filho de Gassman, o também intérprete Alessandro. “Ele não seria esse orgulho italiano se a mãe não o tivesse obrigado a atuar no teatro”, disse ele, ao lado de dois dos quatro irmãos, cada um de casamentos diferentes.

“No início foi um trauma, ele não queria, mas acabou aceitando e fez a carreira que conhecemos.”A revelação do Gassman filho é apenas uma das que constam no documentário Vittorio Racconta Gassman, narrado por ele e dirigido por Giancarlo Scarchilli, conhecedor de sua carreira, para quem o ator também trabalhou. O filme, apresentado em meio às homenagens, conta com depoimentos preciosos de Mario Monicelli, Dino de Laurentiis, Francesco Rosi, Ettore Scola e Jean-Louis Trintignant, entre outros.
A obra recorda sua atuação teatral, ocorrida por toda a vida, e lembra seus filmes, mais de uma centena, entre eles Os Monstros, e seu famoso programa de TV Mattatore.

Apesar da figura expansiva e cativante que o ator legou, Scarchilli definiu seu amigo, em entrevista no festival, como tímido, introvertido e frágil, que por isso começou escrevendo
poesia para se abrir.

Essa noção do homem parece se conectar com precisão ao capitão que interpreta em Perfume de Mulher, personagem pelo qual ganhou o prêmio no Festival de Cannes. Cego, ele contrata um jovem para acompanhá-lo numa viagem de Turim a Nápoles, onde oficialmente vai rever antigos companheiros, com direito a esbanjamentos e muitas mulheres. O filme é cômico, mas nele há momentos de melancolia.

No documentário, muitos de seus amigos e colegas reiteram que esse sempre foi o equilíbrio mais perceptível de Gassman na tela e o responsável por torná-lo um homem sedutor no convívio.