Cultura

Exposição

O retratista e o militante

por Orlando Margarido — publicado 07/07/2011 16h00, última modificação 08/07/2011 11h40
Mostra reaviva o debate sobre os primeiros anos da obra de Portinari. Por Orlando Margarido
O retratista e o militante

Mostra reaviva o debate sobre os primeiros anos da obra de Portinari. Por Orlando Margarido

Ninguém contesta em Candido Portinari (1903-1962) a primazia como orientador da formação de uma arte moderna no Brasil. Mas  é fato que o jovem paulista nascido em Brodowski, que foi beber na arte do Renascimento e das vanguardas europeias e voltou reclamando sentir-se ali um caipira fora de lugar, o retratista prolífico da elite financeira e intelectual por questões de gosto e sobrevivência e o reconhecido pintor dos trabalhadores e humildes das grandes telas e murais há muito não alcança a unanimidade tida em vida. Melhor assim, dadas as discussões que têm contribuído para aclarar seus períodos controversos e delinear com mais equilíbrio sua figura.

A exposição que o Museu de Arte Moderna de São Paulo inaugura na sexta-feira- 15 com 90 de suas obras é a prova. Crivada no momento de formação do artista em Paris e no Rio de Janeiro, entre os anos de 1920 e 1945, a seleção esquadrinha os desdobramentos que teria sua carreira, representada nos famosos ciclos dos trabalhadores e retirantes, da arte mural e da contribuição a monumentos como a Pampulha. E testa o elogio e a cobrança feitos nos anos 1990 pelo crítico e amigo Antonio Callado, segundo o qual “o valor intrínseco da pintura de Portinari continua a arder com tanto brilho quanto antes, mas a memória do seu nome o tempo esfuma”.

Um resgate contornado pela polêmica dever vir novamente à tona pela retratística que domina os primeiros anos da trajetória do pintor, dos quais a mostra dá bons exemplos. Portinari assinou perto de 700 trabalhos do gênero e essa proficuidade em parte se explica pela necessidade de conseguir dinheiro em um Rio que lhe impôs dificuldades para se afirmar no ofício. Era, enfim, um filho de imigrantes italianos pobres, incentivado à pintura apenas pelas experiências na decoração da matriz de sua cidade que um dia se matriculou no Liceu de Artes e Ofícios da então capital. Provável também é que o primeiro contato com uma academia e seu estilo figurativo o levaram a um aprendizado com retratos, como prova a tela que assinalou em 1920 como Meu Primeiro Trabalho, tomado por um rosto feminino de perfil.

*Confira este conteúdo na íntegra da , já nas bancas.