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O rapper gay brasileiro que quebra tabus rimando

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 23/01/2015 06h08, última modificação 23/01/2015 10h45
É com cabelos escovados e camisetão até os joelhos que Rico Dalasam anda pela periferia de São Paulo. “Ainda estou descobrindo como é ser um rapper gay no Brasil”
Yghor Boy
Rico Dalasan

Rico Dalasan no bairro em que cresceu, em Taboão da Serra: "É 2015, vai ter rapper gay no Brasil."

Morador da periferia de São Paulo, sem pai e criado pela mãe e o irmão. A história de vida de Jefferson Ricardo Silva se confunde com a de muitos que cresceram com ele nos anos 90 em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Fã de rap e pagode, sonhava com os palcos na adolescência. Ter nascido negro, pobre e gay não parecia exatamente uma vantagem até o dia em que decidiu usar a seu favor cada rótulo que recebeu. Em 2015, o agora Rico Dalasam lança Modo Diverso, o primeiro disco de rap brasileiro com temática gay.

A cena de rap “queer” já é realidade nos Estados Unidos há alguns anos, onde nomes como Le1f, Cakes Da Killa e Zebra Katz escandalizam o gueto misturando pose de gangster com trejeitos de diva pop. Mykki Blanco, o nome da vez, reveza a cara de marra com peruca, batom e salto alto --assista aos vídeos no pé do texto.

Dalasam pega mais leve. Seu primeiro clipe, Aceite-C, exibe um relacionamento lésbico e o verso “boy, eu quero ser seu man”. Na vizinhança, o espanto é maior. Sob todos os olhares, ele desfila com cabelo escovado, camisetão até os joelhos e tênis de basquete. “Quando é que você vai fazer minhas tranças?”, perguntava uma amiga sentada na calçada. “Ele é o melhor que eu conheço.”

Dalasam, hoje com 25 anos, começou a trabalhar como cabeleireiro aos 13, sua forma de fazer dinheiro e escapar da “vida loka”. “Minha especialidade é cabelo de preto: trança, dread. Ainda atendo lá em casa.”

Articulado, estudou boa parte da vida em escola particular bancada pela bolsa de estudos conseguida pela mãe. Em um colégio alemão, o único negro da turma era o suspeito número um nos dias em que a borracha de alguém desaparecia.

Rico Dalasan.Divulgação
Aos 13 anos, Dalasan começou a fazer tranças e não parou mais

Assim que começou a trabalhar, passou a frequentar com assiduidade a Galeria do Rock, no centro, onde comprava CDs pirata de rap. Depois corria com os discos para a única casa com computador na comunidade e “fazia várias cópias pra galera”, diverte-se. Depois, enfurnava-se na casa do amigo Luciano da Costa para rabiscar suas letras. As primeiras foram românticas, inspiradas pelo rapper Xis.

No meio da adolescência, iniciou um namoro com uma garota, mas “não deu”. Com o tempo se assumiu, estudou moda, trabalhou com produção e se viu imerso em baladas gay do centro e shows de rap na periferia. “Seria natural que eu refletisse esses dois mundos. Minha música é esse encontro de protesto, autoafirmação e dança.”

Dalasam conta que o processo foi parecido nos Estados Unidos. Por lá, a fase de raps retratando a criminalidade passou a dividir espaço com temáticas de festa nos anos 2000, criando o terreno para que MCs homossexuais aparecessem. “Guardada as proporções, eu trabalho como os caras de lá: como não tenho empresário, agendo shows, promovo o som e converso com fãs do meu computador.”

Sobre o amor gay pelas divas, Dasalam se diverte: “é lógico que eu gosto da Beyoncé, mas hoje eu prefiro a Rihanna. Ela é mais favela, que nem a gente.” Sua preferida, no entanto, é brasileira. “Alcione é a maior das divas.” No rap, o ídolo é o carioca MC Marechal.

Aos que o alertam sobre o risco de se lançar como o primeiro rapper gay do Brasil, Dalasam desdenha. “É 2015, é claro que vai ter rapper gay. Estamos é atrasado. Ainda vai aparecer uma travesti do Pará fazendo um flow que todo mundo vai ouvir.”

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Assista a reportagem da TV Carta com Rico Dalasam e o clipe de Aceite-C

 

Assista aos vídeos de Le1f, Cakes Da Killa, Zebra Katz e Mykki Blanco, expoentes da cena rap queer americana: