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Cinema - "Entre Nós"

"O que foi feito de nós?"

por Matheus Pichonelli publicado 11/04/2014 10h10, última modificação 12/04/2014 10h39
Cuidado com aquele reencontro da turma dez anos depois. Ele pode ter mais fios desencapados do que se imagina. Por Matheus Pichonelli
Entre nós

Os amigos de "Entre Nós" em 1992. Filme tem no elenco Caio Blat, Julio Andrade, Lee Taylor, Carolina Dieckmann, Paulo Vilhena, Maria Ribeiro e Martha Nowill

Nos últimos anos as efemérides se acumularam nas minhas agendas de eventos criados e deletados nas redes sociais. Em 2010, foram dez anos da formatura no colégio. Em 2011, dez anos da turma do cursinho. Em 2012, dez anos de faculdade. Em 2013, do nosso primeiro estágio. Em 2014, da vitória da nossa chapa no Centro Acadêmico. Em todas as ocasiões, falharam as tentativas de reunir o povo e colocar os papos em dia.

A reunião mais esperada era a da turma do colégio, que tinha data, hora e local agendados e jamais aconteceu. Não aconteceu porque, um a um, os antigos colegas de sala de aula foram se desempolgando com a ideia. Enviavam desculpas e citavam viagens e compromissos até que o encontro, desvirtuado do projeto original, se resumiu a uma pequena aglomeração de não mais de uma dúzia de amigos, contando os namorados que não constavam da turma original, com direito a troca de cartões profissionais e um bem-comportado porre de vinho tinto – dez anos antes, seria de cerveja ou de batidas à base de Velho Barreiro.

Consciente ou inconscientemente, parecíamos calcular os riscos do reencontro, suas tensões aparentes e fios desencapados. Pelo menos a maioria de nós preferiu não pagar para ver ou ouvir: “Não casou? Que pena, mas você vai ficar bem”. “Estão separados, e olha a nota que gastaram no casamento...”. “Puxa, mas você era tão talentoso...” “Você engordou?”. “O que aconteceu com os seus cabelos”. “Você só dá aula ou faz mais alguma coisa?”. “E dá pra viver com isso?”. "Está rico, hein?". “Já te mostrei as fotos da minha viagem?”. “Você ainda mora com os pais?”. “Ainda mora em república?”. “Vocês não pensam em ter um filho?”. “Quando vem o segundo?”. "E o terceiro?"

As perguntas são sempre as mesmas – lidamos com elas todas as horas de todos os dias em todos esses anos, e não precisamos das lupas alheias envelhecidas em baús de dez anos atrás para concluir que, sim, estamos mudados, e não, não conseguimos tirar do papel nem metade dos planos que anunciávamos quando éramos alegres e jovens – ou, como em outra música, “quando o cansaço era rio e rio qualquer dava pé”.

Um reencontro dez anos depois de uma formatura ou uma despedida tem na festa um mero pretexto. Trata-se, na verdade, de um teste de autoafirmação. Pode ser tudo, menos confortável. Quem viajou caçoa de quem não teve a coragem de se desprender do velho mundo. Quem não viajou galhofa de quem não teve coragem de se fixar e adiou todas as decisões. Quem se casou ri de quem está solteiro, e quem está solteiro ri de quem trocou a liberdade por uma coleira no dedo. Quem fuma ou bebe ri do medo de quem largou o vício, e quem largou o vício conta nos dedos os dias que restam a quem ainda desafia o próprio corpo. Quem reza teme pela alma dos ateus, e quem não reza teme pelo discurso de quem crê. Quem arrumou trabalho faz galhofa dos amigos desocupados, e quem está sem trabalho acha graça na vida escravizada de quem só tem o sábado e o domingo para dormir. Sem contar as distensões políticas – “sério que você ainda vota nele?” – e sociais, quando se percebe que o duelo entre pais e filhos migrou para o palco das amizades – sempre haverá um jovem envelhecido a dizer que não tem mais sonhos e que, por ele, o Estado poderia desaparecer antes de jogar Vedacit na favela.

Por sorte, ninguém da nossa turma guardou em algum quintal ou chácara uma caixa com nossas cartas de compromisso para serem desenterradas no futuro, como fizeram os personagens de Entre Nós, filme de Paulo Morelli que estreou há algumas semanas nos cinemas.

O filme tem a coragem que meus amigos e eu não tivemos. Juntou um grupo de amigos dez anos depois de seu último encontro, em um sítio, em 1992, para mostrar que nem tudo é superado pelo tempo ou a distância. Naquele tempo, eram jovens, sonhavam, riam de qualquer bobagem e pareciam incorporar a ideia de um amor puro – aquele gratuito, leve e desobrigado. Quando voltam ao mesmo lugar, em 2002, para abrir a caixa com as mensagens deles para eles dali a dez anos, já não são os mesmos. Ou são, e não sabiam disso no tempo em que a felicidade era uma véspera, um intervalo entre o sonho e a vida concreta. Quando voltam, são seis, e não sete – um deles morreu no último encontro e deixou como legado um livro inédito que um deles, interpretado por Caio Blat, assumirá como um espólio. De todas, essa é a maior dor do reencontro: a peça ausente que todos se esforçam em contornar.

Anos atrás, escrevi nesta coluna sobre o filme A Vida de Outra Mulher, de Sylvie Testud (leia AQUI), e me questionava o quanto a personagem interpretada por Juliette Binoche era privilegiada por acordar certo dia sem lembrar absolutamente nada do que aconteceu dos seus 25 anos até os 40. Porque a memória, a certa altura da vida, é um peso. Sem seu histórico de arrependimentos e mágoas (dos quais, afinal, não se lembra), ela consegue olhar para o marido com os olhos ainda não contaminados pela culpa e pela dor. Sem a memória, pode saborear novamente o encanto de algo que sabe ter vivido, mas que por algum motivo se dissipou em sua maturidade. O esquecimento era a sua maior benção, e seu combustível para encarar de frente a pergunta que todos um dia fizeram (ou cantaram, como na música de Milton Nascimento e Elis Regina lembrada nos parágrafos acima e inevitavelmente cantadas ao fim de Entre Nós): “O que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou?”

Quando voltam ao lugar de origem para destampar a pedra que protegeu por dez anos os sonhos escritos a caneta, os personagens já não riem com a mesma facilidade. Reencontrar-se é relembrar, parece dizer o diretor, e relembrar é aceitar que nem tudo saiu como planejado. Dois deles tomam fluoxetina para poder ficar de pé. Um deles virou vegetariano e tem pavor de engordar (é sistemático, implicante e insensível). O casal de 92 se desfez, mas não se esqueceu. O casal de 2002 é outro, mas não parece feliz. A amiga liberal namorou uma mulher, mas não casou. O casal que permaneceu junto não se entende – ela (a viciada em antidepressivo) quer ter filho, ele (o implicante) não quer. Todos tinham pretensões literárias, mas só um se consagrou como escritor. É ele quem parece assumir a máxima escancarada a certa altura do filme: pior do que não alcançar os sonhos é alcançá-los.

Sem o sétimo personagem, morto na primeira viagem, os amigos passam a contracenar de par em par, como em uma dança de quadrilha. O jogo de luz expõe um conflito evidente: de dia, todos parecem desarmados, mas ao fim da tarde, quando o cenário escurece, as memórias parecem sair da toca para provocar estragos. O acúmulo de lembranças e traições tira da sombra um clichê surrado: não, os amigos não são a família que escolhemos para sempre. Ou são, mas estão à prova a todo instante como em um espelho. Serão sempre analisados por uma métrica moral segundo a projeção de cada um (e o medo, individualíssimo, de ficar só). E serão o tempo todo testados por velhos e novos desejos. Nem sempre é uma relação de forças simétricas.

Expor essas tensões em um filme como este é um ato de coragem, mas não impede que o filme desobedeça, em muitos momentos, o conselho de um dos personagens sobre o ofício do escritor: “é preciso mergulhar fundo”. A escolha de um único cenário para a trama dá a impressão de que nada suficientemente importante fora daquele sítio aconteceu com cada um dos personagens nos últimos dez anos. Nos diálogos, o conflito, muitas vezes, parece forçado ou descolado – os personagens que falavam de ménage a trois em 1992 ficam chocados quando uma das meninas tira o biquíni na sauna ou quando uma delas fala sem pudor sobre masturbação. Há, também, uma supervalorização da aspiração literária de seus personagens – às vezes a vontade de quem assiste é avisar que nem Guerra e Paz, de Tolstoi, tenha mudado a vida real de tanta gente como o livro sobre o qual os personagens se agrupam.

Em outros aspectos, o filme acerta ao não se limitar apenas em reconstituir o passado. Lançar o presente para 2002, algo aparentemente tão distante à maioria dos espectadores, parece colocar todo mundo da plateia em um mesmo exercício. Em uma das cenas, os personagens descobrem que não têm o menor domínio sobre o que aconteceu no passado, mas estão livres para confabular sobre o futuro às portas. O Brasil vai ganhar a Copa? Quem vai ganhar a eleição? Se ganhar, vai conseguir mudar alguma coisa? E nós, no que ainda vamos acreditar daqui a dez anos?

De onde estão, nenhum deles pode saber a resposta. Nós, da plateia, podemos.

Em tempo. Sobre reencontro de turmas, lembrei de uma passagem antológica do livro Pastoral Americana, de Philip Roth, em que o personagem, aos 65 anos, vai a uma festa do gênero e tira para dançar a menina por quem fora apaixonado na adolescência. Diante da ausência dos encantos juvenis de ambos, a certa altura da dança a personagem suspira: "É uma pena. Agora que não estou apavorada, já é tarde demais".