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O poeta em desencanto

por Rosane Pavam publicado 21/07/2010 12h19, última modificação 28/07/2010 10h33
Duas edições sobre a poesia da primeira metade do século XX mostram o cansaço do modernista Mário de Andrade

Duas edições sobre a poesia da primeira metade do século XX mostram o cansaço do modernista Mário de Andrade

Mário de Andrade sobre tudo. Parece pertencer a este paulistano morto em 1945 toda a direção fornecida à poesia nacional desde 1922. À poesia, tanto quanto à prosa ficcional ou crítica, o escritor apontou rumos ainda não cumpridos. Com a impossibilidade de repetir as interdições e as preferências tão originais de Mário de Andrade, o que ainda resta da crítica literária brasileira desfia, talvez sem saber, os princípios de não afetação poética ditados pelo modernista. Ela repete seu desejo de métrica livre e síntese de estilo, mesmo quando o caso pareça ser o de experimentar uma poesia transbordante, contra a regra do encurtamento atual da linguagem.

O que muitos dos observadores possivelmente desconheçam é que Mário de Andrade, nascido em 1893, também se desiludiu desses grandes princípios de concisão e métrica, à sua época postos em pauta porque no Brasil vigorava um derramamento parnasiano contra o qual parecia saudável lutar. O Mário do fim não exatamente contradiz, mas pede mais ao Mário do início. Mais liberdade, mais fluidez, verdades poéticas ditas sem programa. Uma ocasião espetacular para observar o crítico desiludido é a leitura de dois livros agora lançados em torno da poesia brasileira dos anos 30 e 40, Correspondência – Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa, organizado por Eneida Maria de Souza (Edusp-IEB-Peirópolis, 400 págs., R$ 65), e a edição fac-similar, comemorativa de seus 80 anos de lançamento, de Alguma Poesia, por Carlos Drummond de Andrade (organização de Eucanaã Ferraz, 392 págs., R$ 50).
Nos dois livros, é Mário de Andrade quem orienta, poda e incentiva a expressão dos artistas que surgem. Parecia podar mais casos como o de Henriqueta Lisboa (1901-1985), tão mineira quanto Drummond (1902-1987), mas aparentemente oposta a Mário, enquanto o poeta de Itabira seguia, ainda que teimoso e cínico, seus passos de liberdade. Unia Mário a Henriqueta, no período em que se corresponderam, 1939 até a morte do escritor, a amizade pela palavra. Por ela, os dois, que mal se viam pessoalmente, muito se amavam. Henriqueta, com grande sentimento religioso, e Mário, em busca de reafirmá-lo. Os dois, talentos genuínos a dominar palavra e ritmo, em busca do verso livre, não somente “libertado”, que ele às vezes lamentava haver na poesia de ambos.

Nas cartas, bilhetes e telegramas, o escritor, famoso pela criteriosa correspondência, hoje em poder do Instituto de Estudos Brasileiros, derrama-se de forma confessional a Henriqueta, que jamais declina desta condição de depositária de reclames, recebendo em troca a análise impiedosa de sua produção poética. Politicamente, ele se sentia desgostoso do autoritarismo do governo de Getúlio Vargas a quem dispensara cordialidade e estava enojado da política mundial que resultara em mais uma guerra. Henriqueta, incapaz de uma maldade, mesmo decepcionada por não receber o incentivo de cristãos como ela, caso de Tristão de Athayde, ouve com atenção o que Mário tem a lhe dizer, não raramente o pior.
“Será difícil, Henriqueta, expor a você tudo o que me decidiu a esta espécie de morte”, ele escreve em 1940. “Não: estou exagerando por excesso de melancolia. Não será nenhuma espécie de morte. Será apenas uma como que reconciliação com o silêncio, de quem viveu demasiado à tona e reconheceu afinal que não tem vocação para o teatro... No fundo é uma desistência de atitude. Não creia seja uma deserção. É certo que a guerra me convulsionou horrivelmente.” Ele chama de “índio vago” o novo intelectual brasileiro, “mercenário de todas as guerras, alugável a qualquer facção política disposta à peleja e ao chinfrim”.
Em 1942, o suicídio do escritor Stefan Zweig o irrita. “A vida me interessa mais que essa possível paz da morte”, ele escreve. “Você sabe o que mais me assombra nos materialistas? É não se suicidarem todos eles!” E pondera: “Com a imagem do suicídio me veio logo a imagem gêmea do assassínio. Nesta eu pude consentir e transformá-la em ideia”, diz, para contestar os integralistas de seu tempo. “Não me seria desagradável botar uma bomba num conclave que reunisse Getúlio, Osvaldo Aranha, Góes Monteiro, Chico Campos, Plínio Salgado, e até meu prezado amigo Capanema. Afinal das contas, essa gente que é ditadura, que é nazistizante como ideologia política, que é não se sabe o que como boa vontade ao imperialismo ianque, essa gente nos enche de ignomínia.”

Sua implicância artística move-se na direção dos conformistas, mais do que daqueles tradicionalistas. Conformada, por exemplo, é a pintora Aurélia Rubião, que “pinta mas não está no domínio da arte”. Henriqueta e Drummond, pelo contrário, eram artistas. Ele, a seu ver, fizera uma revolução. O poema-símbolo de Alguma Poesia, Mário conheceu em 1925. “O No Meio do Caminho é formidável”, escreveu a Drummond. “É o mais forte exemplo que conheço, mais bem frisado, mais psicológico de cansaço intelectual.” Como explica a introdução desta preciosa edição, ele não enviou o poema à revista Estética quando teve chance, conforme explicou ao poeta: “Não mando porque tenho medo de que ninguém goste dele. E porque tenho o orgulhinho de descobrir nele coisas e coisas que talvez nem você tenha imaginado pôr nele.” O poeta Manuel Bandeira o contestou. “Mário lhe desaconselhara a publicação do poema, por julgá-lo o melhor exemplo de cansaço cerebral. De fato assim é. Mas que é que se procura num poema, é poesia, sim ou não?”
Esta reedição de Alguma Poesia, assim como a da Correspondência, traz os originais em que Mário de Andrade rabisca suas observações nas páginas datilografadas dos poemas dos dois autores. O livro sobre Drummond ainda reproduz a primeira edição pertencente ao próprio autor, sobre a qual ele anotou mudanças. As duas, lê-se à moda de um inventário de indícios, são como romances de detetive. As últimas palavras escritas em bilhete de Mário a Henriqueta: “Matute mais no problema. Ciao”. E o poema Mário, que ela lhe fez, e cujos primeiros versos ainda parecem valer: “Digo: Mário. Não responde./Grito: Mário! Não responde./ Mário! Mas que angústia, Mário! Não responde, não responde”. •

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