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Crônica do Villas

O pedreiro apareceu, Monalisa?

por Alberto Villas publicado 28/08/2014 11h27, última modificação 28/08/2014 11h40
Ando com a mania de pescar frases soltas no ar. Crônica de Alberto Villas

Não tem jeito. Eu, pedestre que sou, andando pelas ruas de São Paulo, acabo ouvindo coisas alheias. Não sei se sou bisbilhoteiro nato, fanático, ou se são as pessoas que andam falando alto demais. A verdade é  que ouço frases sem parar, como se essa gente dissesse algo em alto e bom som de propósito, só para eu ouvir.

Nos últimos tempos, resolvi postar no Facebook o que ando ouvindo pela cidade. Na praça do meu bairro, no salão de beleza, no elevador, na fila do banco, nos restaurantes, não importa onde. Não dou nome aos bois, claro, porque nem sei quem são.

A reação foi imediata. Uma amiga minha de Face, chegou a implorar: “Pelo amor de Deus, escreva um livro sobre isso!” Um livro, não sei, mas uma crônica bem que dá.

Millôr Fernandes tinha uma seção na revista Veja dos anos 1970, em que contava apenas o final de uma piada que não existia. Então você ficava imaginando que piada seria essa. “Ai ele disse: A ideia não foi minha de guardar na caixinha!” Qual seria a piada?

Do mesmo jeito, fico aqui pensando que história teria por trás da frase que ouvi, outro dia, no ponto de ônibus, em Higienópolis? Uma mulher disse pra amiga:

- Mudei de lá desde que briguei com a bruxa.

- Que bruxa?

- Minha sogra!

Que história teríamos quando ouvi na Praça Cornélia, na Lapa?

- Levamos uma cesta cheia de pães e ela não tinha nenhum queijo pra servir pra gente.

E no dia em que, dentro de um ônibus, ouvi o seguinte?

- Quando minha filha disse que estava namorando um segurança, eu já não gostei.

Na semana passada, no salão de beleza, ao cair da tarde, uma madame falou ao celular:

- Faz um peixinho, Rose. O papai não está podendo mais comer carne à noite.

Uma outra madame, descendo a escada rolante do Shopping Leblon, desabafou para a amiga:

- Desaforo! Hoje, antes de dormir, vou desligar a geladeira e deixar a porta aberta. Quero ver ela não limpar amanhã.

São muitas as histórias que ouço todos os dias quando saio à rua. Os altos papos geralmente ocorrem dentro dos ônibus, nas filas do correio, nas escadas rolantes, nos salões de beleza que, infelizmente só vou a cada dois meses.

Ontem, sentado na sala de espera do cinema, enquanto não começava o filme O Mercado de Notícias, ouvi uma boa que ainda é inédita. O celular toca, uma mulher procura desesperadamente o danado na bolsa, revira daqui, revira dali e acaba achando. Antes de atender dá uma espiadinha na tela pra ver quem era e atende. Mas nem espera o alô do outro lado

- O pedreiro apareceu, Monalisa? Então, se ele aparecer ai amanhã, diga que não quero mais o serviço dele. Chega!

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