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O pai e a mãe terra

por Gianni Carta publicado 20/07/2011 21h15, última modificação 25/10/2011 11h47
Em The Cypress Tree, a jornalista Kamin Mohammadi empreende um reencontro com o renegado Irã e com a saga de sua família, fugida da revolução. Por Gianni Carta, de Londres
O pai e a mãe terra

Em The Cypress Tree, a jornalista Kamin Mohammadi empreende um reencontro com o renegado Irã e com a saga de sua família, fugida da revolução. Por Gianni Carta, de Londres

Durante 20 anos, Kamin Mohammadi rompeu elos com seu país natal. Com a revolução de 1979 e a subsequente implementação de uma república islâmica no Irã sob a liderança do aiatolá Khomeini, Mohammadi, então com 9 anos, a irmã mais velha, a mãe e o pai, um alto executivo da Companhia Nacional de Petróleo, obtiveram asilo político no Reino Unido.

Por que, por tanto tempo, ela quis deixar de ser iraniana? “Não queria ser associada a radicais jovens barbudos e aos ideais- fundamentalistas da República Islâmica”, responde a jornalista e escritora de 41 anos num café no centro de Londres. Para tristeza dos pais, Mohammadi, hoje a viver entre Londres e uma reserva natural próxima a um vilarejo na Toscana, deixou de praticar o farsi, a ponto de esquecer a língua, e evitou amizades com iranianos. “Queria me integrar, ser britânica.”

English version:

Em The Cypress Tree: A love letter to Iran (Bloomsbury, 270 págs., 16,99 libras), Mohammadi busca, e encontra, sua identidade iraniana pela saga de sua extensa família. Lançada no início de julho, a obra é um tour de force indispensável para quem deseja, por meio da hábil pena de Mohammadi, ir além dos clichês associados a países.

Editora de moda da mensal britânica GQ, a jornalista cobre com a mesma fluên-cia aspectos políticos, religiosos, culturais e de gastronomia e moda. Descreve a revolução de 1979 mesclando reminiscências de uma menina de 9 anos com os dados colhidos pela pesquisadora que passou um ano na British Library para compor um relato fiel da sangrenta insurreição. Certo dia, no automóvel com a mãe no centro de Teerã, a menina viu “o que parecia uma cavalgada desses militantes, fortemente armados e pilotando motos”. Barba por fazer e com trajes pretos, eles empunhavam bandeiras negras do xiismo. “Eles me fizeram tremer e afundar no assento.” Tios e primos de Mohammadi, com inclinações socialistas ou nacionalistas curdas (o pai é curdo), participaram da revolução sem saber que, no final, seu objetivo era o de implantar o islamismo.

Descrições de moda das elites são cativantes, especialmente porque se trata do Irã. Nos anos 1960, iranianas como a mãe de Mohammadi inspiravam-se nas sobrancelhas de Sophia Loren e Gina Lollobrigida. Hoje, a autora conta, os véus são mais coloridos e curtos, dando maior exposição ao rosto das moças descoladas. Os obrigatórios amplos óculos escuros são de preferência Chanel e os casacos encontram inspiração no New Look de Dior da década de 1940. Mohammadi deixa claro que essas mulheres e homens integram um círculo fechado de ricos, minoria que vive principalmente no norte de Teerã. A outra parte da sociedade, muito mais vasta, obedece às regras e leis da sociedade islâmica. E são, como sempre, os que mais sofrem.

A jornalista relata com deliciosa acuidade o dia em que participou da Ashura-, momento a marcar a divisão entre os favoráveis a um sucessor do profeta Maomé por seu genro e primo Ali – atuais xiitas – e aqueles favoráveis ao primeiro -califa, Abu Bakr, pai da mulher de Maomé, Aisha. Em meio a sinceros choros de luto pela morte de Husayin ibn Ali, neto do xiita Ali, este o quarto califa, cantos e ecos de pessoas a tamborilar as mãos contra o peito pelas ruas de Teerã, jovens, como sempre, flertam. E isso não é de hoje. Uma tática usada pelos rapazes é dar às moças seus -números de telefone com os dedos.

O Irã, fica claro em The Cypress Tree, não se resume às imagens de Mahmoud Ahmadinejad e de austeros clérigos fundamentalistas. “A regra dos mulás um dia será eliminada das páginas da história’”, escreve, com otimismo. E o país sobreviverá, acrescenta a autora sem tomar partidos, a eventuais ataques israelenses e americanos. É provável. Mas Mohammadi, claro, não tem uma bola de cristal para prever quando, e se, a República Islâmica acabará.

Ela tem razão, porém, ao dizer que naquele belo país, onde a cor turquesa predomina no mar, árvores e cúpulas (a capa de seu livro é turquesa), o povo é resiliente. O título da obra não poderia ser mais feliz. Além de o cipreste ser originário da Mesopotâmia e na poesia iraniana representar, entre outras coisas, liberdade e a beleza da mulher, a árvore é garbosa e resistente. A seguinte metáfora corre há gerações na família Mohammadi: “Nós, iranianos, somos como o cipreste. Podemos dobrar e dobrar ao vento, mas nunca vamos quebrar”.

Como indica o subtítulo, a obra é uma carta de amor ao Irã. Na verdade, me diz Mohammadi a sorver água no café londrino: “O Irã sempre esteve dentro de mim”. Mas como visitar o Irã sem sequer possuir um único passaporte? Anos a fio, a exilada política sentiu-se insegura por não ter passaporte. Numa viagem da escola britânica para a França, a impediram de entrar no país. Motivo: após uma série de atentados na França atribuídos a um grupo de iranianos, as autoridades decidiram não dar um visto para uma adolescente daquele país.

Quando finalmente obteve o passaporte britânico, Mohammadi teve direito ao passaporte iraniano. Em 1996, aos 27 anos, após quase duas décadas fora, voltou à sua terra natal.  No início, sentia--se uma outsider a se exprimir em farsi com sotaque inglês. Em 2006, quando passou um ano na pesquisa para sua obra, seu sotaque havia desaparecido.

“Esse livro foi terapia pura. Tive de mergulhar num profundo coquetel de sentimentos- não resolvidos sobre o meu passado.” E continua: “A ideia do livro em si, sobre a minha família, vai contra as tradições de privacidade de famílias no Irã. É até um ato que desonra uma família”. Donde a ideia, num primeiro momento, de fazer um livro de ficção. Mohammadi produziu cinco capítulos ficcionais em 2003. A partir de 2005, após a assinatura de um contrato com a Bloomsbury, passou três anos pesquisando. Em 2008, começou a escrever o livro de não ficção. A certa altura, diz, teve medo de contrair uma depressão clínica.

O método escolhido foi o de escrever a partir de personagens de sua família, a maternal persa xiita e a paternal curda sunita. Os pilares são mulheres: Fatemeh Bibi, a avó materna, Sadigheh, a mãe de Mohammadi e Mina, irmã de Sadigheh. Todas forneceram depoimentos fundamentais. E juntamente com outros familiares ajudaram a preencher os vazios não contados pelo pai de Mohammadi. Bagher, um homem elegante e reservado, hoje com 85 anos, é o fio condutor da jornada da escritora. Conquistou Sadigheh dando-lhe Mohammadis, as rosas de damasco iranianas. Foi por causa de Bagher que sua filha de 9 anos foi morar em Londres. Diz Mohammadi: “Conhecer o Irã tornou-se também o desejo de conhecer meu pai”.

Sob Reza Xá (1877-1944), primeiro monarca da dinastia Pahlevi que estabeleceu um programa de educação de iranianos no exterior para ingressarem na Anglo--Iranian Oil Company, surgiu Bagher. Talentoso, logo galgou as hierarquias da empresa. A empresa foi nacionalizada pelo premier Mohammed Mossadeq, em 1951. Estrangeiros foram embora e os chamados “novos iranianos”, executivos como o pai de Mohammadi, chegaram à ribalta.

Antes de escrever o livro, Mohammadi se fazia a pergunta, que me parece essencial: “Será que somos os culpados pela revolução de 1979, por toda essa raiva do povo contra os novos iranianos?” Ela sabia que o pai, a trabalhar para a companhia de petróleo, representava valores ocidentais e de modernidade. Era, portanto, detestado pelos revolucionários. Seu nome apareceria na lista dos perseguidos pelo regime de Khomeini, quando a família já se encontrava em Londres.

A jornalista lembrava-se, menina, dos familiares curdos, na verdade guerrilheiros, a proteger, armados, a casa em Teerã dos Komitehs, os outrora organizadores de demonstrações e então milícias islâmicas de Khomeini. Mas foi na sua pesquisa no Irã, para onde o pai nunca voltou, que descobriu como ele sempre foi generoso com colegas e a família, e jamais se corrompeu. Tratava-se de um burocrata que executou seu trabalho. O que explica o fato de seus familiares, de todas as inclinações políticas, o terem ajudado a fugir do país. “No projeto inteiro, inclusive a parte sobre meu pai, eu caminhei sobre o fogo, mas saí curada.”

Mohammadi tinha uma relação difícil com o pai, mas hoje acrescenta: “Após 1979, ele certamente sentiu tantas amarguras por ter servido seu país e ser obrigado a deixá-lo. Mas, quaisquer que tenham sido esses sentimentos, ele não os despejou em mim. Que grande homem”.

Observo a escritora. Com seus olhos cor de mel, sorridente e expansiva, ela exala carisma e glamour pelos poros. Pergunto o que ela responde quando lhe perguntam de onde ela vem. “Ofereço uma longa resposta”, retruca, sorriso nos lábios. “Digo que sou anglo-iraniana-. Mas, às vezes, digo que sou persa, uma maneira mais ultrapassada de se identificar-. Mas é tão bom ser persa.”

Após nossa entrevista, a jornalista retornou a Colognole, uma reserva natural próxima de um vilarejo chamado Rufina, ao nordeste de Florença. Lá vive com o companheiro Bernardo Conti e um dos três filhos do fotógrafo. E mais 30 cachorros. Foi na Toscana, coberta de ciprestes originários da Mesopotâmia, que Mohammadi encontrou inspiração para terminar seu livro.