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O negócio futebol

por Coluna do Leitor — publicado 08/02/2011 10h30, última modificação 08/02/2011 10h30
Futebol era um esporte popular que alegrava o povo brasileiro nas tardes de domingo, e enchia os estádios com grandes públicos para assistirem a grandes jogos. Por Matheus Borges, leitor

Por Matheus Borges*

Futebol era um esporte popular que alegrava o povo brasileiro nas tardes de domingo, e enchia os estádios com grandes públicos para assistirem a grandes jogos. Que repercutia entre os torcedores durante toda a semana nas escolas e no trabalho; nos bares, esquinas, barbearias, praças e bancas de jornal. A alegria de muitos era a tristeza de tantos outros. Realmente era o ópio do povo, o grande barato dos finais de semana e dos dias seguintes que, infelizmente não existe mais.

Tenho muito medo de ter que um dia, fazer este tipo de descrição para os meus netos. De contar a eles o quanto era bom nos meus tempos de adolescência e juventude ir ao Mineirão assistir, no meu caso, aos jogos do Cruzeiro - primeiro tempo nas arquibancadas do lado da Pampulha, segundo tempo atrás do gol da cidade. Radinho de pilha, tropeiro e cerveja. A emoção do gol, a vibração com os amigos desconhecidos que comungavam da mesma religião azul e branca. Tenho mais medo ainda de vê-los com os colegas, de frente para um computador, coca-cola e Mac lanche feliz em punhos, torcendo como loucos para equipes desconhecidas e sem tradição, clubes de empresas ou de grandes empresários.

Eu que cresci escutando meu pai contar as histórias do grande Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Piaza, Zé Carlos e Hilton Oliveira, leio nos jornais que, em São Paulo, o Pão de Açúcar Esporte Clube, que pertence a maior rede de supermercados da América Latina, e o Red Bull Brasil, da principal fabricante de bebidas energéticas do mundo, irão disputar a segunda divisão do campeonato paulista deste ano, com um grande orçamento e já de olho na primeira divisão em 2012. A meta, segundo um dos executivos destes clubes, é a primeira divisão do campeonato brasileiro e a montagem de uma equipe forte para brigar por títulos de expressão.

Também em São Paulo, o Grêmio Barueri que pertence a empresários, deixou de receber uma espécie de ajuda financeira da prefeitura local no início do ano passado e, por isso, resolveu mudar de ares e adotar Presidente Prudente como sua nova casa, transformando-se no Grêmio Prudente. O Guaratinguetá, outro clube de empresários, transferiu-se para Americana, e, aqui em Minas, no início deste ano, o Ituiutaba, que recentemente subiu para a série B do campeonato brasileiro, agora vai mandar seus jogos em Varginha. A identidade cultural do clube com a sua cidade, e a paixão dos torcedores não são mais levadas em consideração quando o negócio é apenas lucrar. Notícias como estas já não são mais novidades. O futebol hoje é um grande negócio de marketing, um produto voltado para quem tem poder aquisitivo e condições de consumir, um balcão de compra e venda de jogadores e clubes por parte de empresários, alguns deles com o firme propósito de lavar o dinheiro ganho ilegalmente.

Aliás, a elitização do esporte parece ser uma estratégia traçada entre os dirigentes de clubes, empresários, presidentes das federações estaduais e CBF, além da emissora que monopoliza os direitos de transmissão do campeonato brasileiro. Jogos em horários esdrúxulos, clássicos disputados ás dez horas da noite e cada vez mais gente comprando o chamado pay per view das TVs por assinatura. Já os estádios estão cada vez mais vazios e sem a emoção do grito do povão, que não tem como pagar quantias absurdas para assistir a uma partida de futebol. E terão menos condições ainda quando as chamadas arenas multiuso, que estão sendo reformadas e construídas para a Copa do Mundo ficarem prontas. Nestas, pobre só vai entrar se for a trabalho. É o início da eugenia no futebol.

Já os atletas, que são os verdadeiros artistas do espetáculo e que poderiam se manifestar sobre a atual realidade do esporte, preferem se esconder atrás de seus assessores de imprensa. Falam apenas sobre os jogos e os gols perdidos. Negam-se a pensar ou emitir opinião sobre determinado assunto que possa ser polêmico – “isso é com a diretoria”, costumam dizer. Vivemos a era do politicamente correto nas entrevistas esportivas. Não há mais no Brasil jogadores com a inteligência de um Tostão, questionadores como um Sócrates ou um Afonsinho. O futebol também ficou nivelado por baixo nas declarações.

Há algumas semanas começou o campeonato mineiro. Eu, como torcedor de pay per view que também me transformei, assisti na minha sala ao jogo do Cruzeiro contra a Caldense. E me surpreendi negativamente com um fato pouco repercutido na imprensa e entre os torcedores; placas de publicidade com os seguintes dizeres: “Campeonato Mineiro BMG”. O problema é que além de patrocinar a competição, a instituição financeira também estampa sua marca nos uniformes de Cruzeiro, Atlético, outros clubes do interior e, por incrível que pareça, nas camisas e calções de juízes e auxiliares. Segundo consta, o BMG também tem porcentagem nos direitos federativos de atletas de algumas equipes que disputam o campeonato. Não digo e nem afirmo que haja algo irregular nestes patrocínios, mas gera sim, um conflito de interesses que deixa o campeonato mineiro, na minha modesta opinião, sobre suspeição.
Assim caminha o futebol brasileiro, “profissional” o bastante para transformar os torcedores, desrespeitados que são, em meros espectadores e simpatizantes. Ídolos fabricados, clubes tradicionais falidos, dirigentes despreparados e empresários que faturam milhões em cima de uma grande paixão. Muito negócio, bastante lucro e quase nenhum espetáculo. Vibrante como uma partida de golfe, bocha ou tênis. Tenho dó dos meus netos.

* Matheus Borges é servidor público, graduado em jornalismo.