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Cultura

Festa Literária de Paraty

O mundo em (des)encanto

por Marsílea Gombata publicado 04/07/2013 13h42, última modificação 04/07/2013 18h08
Na Flip, jovens poetas brasileiras lembram o papel de resgate do sublime no cotidiano. Por Marsílea Gombata, enviada a Paraty
Divulgação / Flip
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Poetas durante o debate em Paraty, nesta quinta-feira 4

O momento é especial e tenso na política, e a produção artística vive o reflexo. A observação da poeta Bruna Beber, de 29 anos, sobre o processo pelo qual passa a sociedade contemporânea reflete o momento de desencanto que é parte do cotidiano da poesia. Mas, assim como a própria sociedade, essa não se contenta em simplesmente refleti-lo: precisa combater esse descontentamento.

No universo da poesia, palavra é derrota e também arma de luta. “Temos um desencanto com as palavras, mas não temos outra maneira de fazê-lo”, explicou a poeta carioca Alice Sant’Anna, de 25 anos. Esta fazia parte da mesa O dia a dia debaixo d´água, da 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), sobre o feito da poesia em conseguir expressar e lutar contra momentos de sombra.

Ao lado de Bruna e Alice, estava ainda a mineira Ana Martins Marques, de 36 anos. Ela lembrou que o poema é uma tentativa de trazer à tona aquilo que está submerso. “Ainda que haja uma carga de desencanto, acho que os poemas não são tão desencantados e existe, em alguns casos, uma espécie de alegria, mesmo que seja pequena e súbita."

No palco cotidiano, lembrou Bruna, a poesia encarna o papel de refresco e espaço para reflexão de miudezas. “Poesia é varanda”, compara, diante da plateia. “É o espaço para respirar, ver as flores, o cachorro.”

Antes da vinda a Paraty, a autora nascida em Duque de Caxias explicou que a mesa deveria tratar também do que é habitual, mas passa despercebido por nós. “O banal é sublime”, afirmou ao lembrar que tem como principal fonte de inspiração o ordinário, a infância, a loucura, o confinamento e o amor.

Ampliar aquilo que é digno de consideração é, para Ana, a principal tarefa da poesia. “É como se acolhêssemos as coisas inusitadas na linguagem”, explica a mineira, que gosta de ser chamada de poeta e não poetisa. Seu primeiro livro, A vida submarina, vendeu 700 exemplares da primeira edição e teve uma reedição de mais 500. Já o segundo, Da arte das armadilhas (Companhia das Letras) estreou com uma edição pomposa para os padrões do mercado de poesia: 2 mil exemplares.

Bruna teve esgotados os 600 exemplares da primeira tiragem de seu livro de estreia, Afila sem fim dos demônios descontentes (2006). Vendeu 1.500 de Balés (2009) e escreveu Rapapés & apupos (2011) sob demanda. Seu último livro, Rua da Padaria (Record, 2013) teve 3 mil exemplares na primeira edição.

Autora de Dobradura (que vendeu 600 exemplares na primeira edição) e Rabo de baleia (da Cosac Naify, que teve 1500 exemplares vendidos), Alice explica por que a poesia, ao mesmo tempo em que “fala sobre um elemento inesperado que irrompe da superfície, um cotidiano surpreendido”, é instrumento de reparação. “Talvez não seja capaz de reproduzir fielmente o tropeço, mas pode transformar esse tropeço em passo de dança”, conclui.